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Mantega descarta uso do câmbio para controlar preços

Autor(es): Por Eduardo Campos, Edna Simão e Lucas Marchesini | De Brasília
Valor Econômico - 31/01/2013


A taxa Selic não está engessada, o câmbio não vai derreter e política fiscal de solidez vai continuar. Esses foram os recados dados ontem pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, no seu primeiro discurso público depois do fim das suas férias, semana na qual havia ficado em silêncio.
Em encontro com os novos prefeitos, Mantega disse que a taxa Selic mudou de patamar, mas não ficou "engessada, e o BC pode utilizá-la para combater a inflação". Disse ainda que a taxa de câmbio não é instrumento de política monetária. E foi ainda mais explícito, ao insistir que câmbio não é instrumento para baixar preços. Enquanto o ministro falava, a taxa de câmbio subia no mercado financeiro, movimento revertido logo depois, com nova atuação do Banco Central.
"A Selic é uma taxa variável, ela não é fixa, depende da avaliação do Banco Central", disse Mantega, acrescentando que a Selic não é o único instrumento de política monetária disponível. Afirmou que também podem ser utilizadas medidas prudenciais, como aumento de requerimento de capital para bancos e o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) no crédito.
Na avaliação de Mantega, mesmo que o BC resolva subir a Selic, "não será aquela sangria desatada" como era antes. Como a política monetária está mais eficiente, um ajuste de 0,25 ponto ou meio ponto percentual, estimou o ministro, já seguraria um eventual surto inflacionário. "Mas essa é uma política que depende do BC", disse.
Diante da polêmica aberta no mercado financeiro na segunda-feira, quando o leilão feito pelo BC puxou a cotação do dólar para baixo e reacendeu o debate do uso do câmbio para conter a inflação, Mantega ressaltou que a política cambial do governo segue a mesma. E deu um "aviso aos navegantes": "Não permitiremos variação especulativa". Para ele, a moeda pode flutuar, mas "dentro de um patamar", sem precisar que patamar é esse. "Não esperem que o câmbio venha a derreter."
A fala teve impacto sobre a formação de preços no mercado, com o dólar acentuando alta e retomando o patamar de R$ 2. No entanto, pouco depois o BC apareceu e ofertou moeda via leilão de linha (venda com compromisso de recompra), o que levou o dólar de volta para baixo de R$ 2.
A esse discurso, Mantega acrescentou que o governo "deixa o câmbio flutuar, mas se exagerar na dose a gente vai lá e conserta". Ressaltou a importância de manter a estabilidade da taxa de câmbio e disse que a elevada volatilidade prejudica os exportadores. Mantega lembrou que o fato de a volatilidade ter caído bastante nos últimos seis meses não quer dizer que o "câmbio é fixo".
O ministro associou o discurso sobre o câmbio à industria. "Para nós, é mais importante ter a indústria, que vai aumentar o salário, do que deixar a indústria atrofiar baseada em vantagem cambial [dos outros]", afirmou. "As empresas vão continuar sendo estimuladas para exportar", acrescentou. De acordo com Mantega, o Brasil sofreu uma "enxurrada" de importados em 2011, porque "o câmbio de certos países estava manipulado para baixo".
Embora tenha descartado o dólar fraco como instrumento de política anti-inflacionária, o ministro reconheceu o impacto da valorização da moeda, de cerca de 20% no ano passado, sobre a inflação de 2012. Pelas suas contas, se o dólar não tivesse se valorizado, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2012 teria sido de 0,4 ponto a 0,5 ponto percentual menor do que o 5,84% registrado. Ainda assim, disse o ministro, esse é um fenômeno que não se repete. Em 2013, afirmou, não há pressão inflacionária em função da taxa de câmbio, pois ela está mais estabilizada. "No ano passado, tivemos a elevação do dólar, que nós apoiamos, agora não temos isso. O câmbio caminha para um patamar mais adequado."
Mantega disse, ainda, que o governo diminuiu as intervenções e que isso tem relação com a queda da taxa básica de juros. Segundo o ministro, a Selic elevada atraia capital e obrigava o governo a atuar no câmbio com maior frequência. Com juro menor, o câmbio caminha "naturalmente" para esse "patamar mais adequado".
No lado fiscal, Mantega voltou a defender a política do governo. Disse que o uso dos recursos do Fundo Soberano do Brasil (FSB) e antecipação de dividendos, tão criticados pelo mercado, foram divulgados no "Diário Oficial da União" e estão dentro da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). "O fundo soberano era uma poupança e usamos uma parte dela. É legítimo. Não há como contestar. Tudo perfeito", afirmou.
Segundo ele, o superávit primário de 2012, que ficou em 2,38% do Produto Interno Bruto (PIB) está "entre os maiores do mundo". O ministro disse que gostaria de ter feito a meta de 3,1% do PIB, mas como o governo optou por fazer uma política anticíclica, "usou a faculdade de reduzir esse superávit", ou seja, de deduzir investimentos.

Pela 1ª vez desde julho, dólar cai abaixo de R$ 2

Autor(es): Leandro Modé
O Estado de S. Paulo - 30/01/2013

Baixa da moeda americana já beira 3% em 2013 e reforça a percepção de que o governo quer câmbio mais forte para ajudar a segurar a inflação Pela primeira vez desde julho, o dólar fechou abaixo de R$ 2,00. A moeda americana se desvalorizou 0,80% ante o real ontem, para R$ 1,986 no fe­chamento, menor cotação des­de maio. No ano, a perda já bei­ra os 3%. No mercado financei­ro, é cada vez mais forte a ava­liação de que o governo preten­de utilizar a taxa de câmbio pa­ra ajudar no combate à infla­ção, ao menos no curto prazo. Essa percepção é ancorada no fato de que o próprio governo, em diversas ocasiões ao longo do ano passado, indicou que não gostaria de um dólar abaixo de R$ 2,00 por causa do efeito nega­tivo sobre a indústria nacional. Na segunda-feira, porém, o Banco Central (BC) promoveu leilão de um instrumento finan­ceiro (swap cambial) que, na prá­tica, equivale à venda de moeda americana. Na ocasião, o BC ante­cipou uma operação que vence­ria apenas sexta-feira. Se já não bastasse isso, a instituição vem assistindo passivamente ao forta­lecimento do real, diferentemen­te do que ocorreu em 2012. "Está claro que a preocupação do governo com a inflação é maior do que faz crer o discurso das autoridades para o público externo", avalia o diretor execu­tivo da NGO corretora de câm­bio, Sidnei Nehme. O valor do dólar influencia diretamente a inflação, por causa do efeito so­bre os produtos importados. A consultoria AC Pastore & As­sociados, do ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore, calcu­la que cada 10% de valorização ou desvalorização do real ante o dólar tem efeito de 0,8 a 1 ponto porcentual sobre o IPCA, índice oficial de inflação do Brasil. Em outras palavras, um ganho de 10% do real implica redução de 0,8 a 1 ponto porcentual do IPCA. O cálculo considera que o efeito completo desse movimen­to se dá em 8 meses. É justamente por causa desse prazo que o economista Rafael Bistafa, da Rosenberg& Associa­dos, acredita que o governo não pretende afetar diretamente os índices de preços. "Para reduzir o IPCA, não bastaria levar a taxa de câmbio da casa de R$ 2,05 pa­ra R$ 1,95, R$ 2,00, que parece ser o piso do governo", disse. "Avaliamos que a intenção das autoridades, agora, é dar um avi­so ao mercado: "Se for preciso, vamos usar o câmbio para puxar a inflação para baixo."" O efeito imediato dessa estra­tégia, argumenta Bistafa, se dá sobre as expectativas inflacioná­rias. "Um dos elementos usados para elaborar as projeções de in­flação é o câmbio. Por isso, creio que, nas próximas semanas, de­vemos ver parte do mercado in­corporarem suas estimativas es­sa sinalização do governo." Por trás das especulações do mercado está a certeza de que o governo Dilma Rousseff descar­ta, ao menos neste momento, uti­lizar o instrumento clássico para combater a inflação: a taxa de ju­ros básica (Selic). "Tudo isso poderia ser evitado se o BC elevasse os juros para conter o recente surto inflacio­nário. Mas o governo não quer, sob pena de desacelerar ainda mais o crescimento, o que, por sua vez, puxaria para cima a taxa de desemprego", disse Nehme. Para o especialista, a estraté­gia é arriscada porque o fluxo cambial está negativo em 2013 e as expectativas são de que se mantenha nessa tendência. Se insistir em valorizar o real ou mantê-lo no nível atual, argu­menta Nehme, o governo estará indo contra os fundamentos do mercado - o que é ruim do ponto de vista da previsibilidade da eco­nomia e, consequentemente, dos investimentos.

NOTA DO BRASIL SOBE E MERCADO PREVÊ MAIS PRESSÃO CAMBIAL

ALTA DA NOTA DO BRASIL PRESSIONA CÂMBIO
Autor(es): Leandro Modé / SÃO PAULO e Luciana Xavier
O Estado de S. Paulo - 05/04/2011

Agência Fitch eleva classificação da dívida brasileira e aumenta possibilidade de entrada de dólares; especialistas esperam mais medidas do governo

A agência de classificação de risco de crédito Fitch, uma das mais respeitadas do mercado global, melhorou ontem a nota do Brasil - de BBB- para BBB. Na prática, significa que, segundo os analistas da empresa, o País ficou ainda mais seguro para receber investimentos. Com isso, a expectativa é de que mais dólares venham para cá, o que tende a valorizar o real, movimento que preocupa o governo.

BC quer mais volatilidade no câmbio

Autor(es): Claudia Safatle
Valor Econômico - 11/02/2011

A política de intervenção do Banco Central no mercado de câmbio busca aumentar a volatilidade da taxa. Cada um dos três instrumentos - compra à vista, "swap cambial reverso" e compra a termo - destina-se a um tipo de fluxo de moeda estrangeira. Com isso, a taxa de câmbio perde a previsibilidade e, consequentemente, inibe o ingresso de capitais de curto prazo, interessados apenas nos ganhos de arbitragem (dado pelo diferencial entre os juros internos e externos). Se a trajetória do câmbio é totalmente previsível, os investidores de curto prazo ficam confortáveis para tomar risco.

As atuações do BC com os três mecanismos representam "uma espécie de freio dinâmico" nos movimentos do câmbio, avaliam especialistas do governo. Sem elas, a valorização do real frente ao dólar seria muito mais intensa do que tem sido, atestam essas mesmas fontes. A escolha do instrumento de intervenção conforme a natureza do fluxo, que adequa a ação do BC às práticas do mercado, mostra que a taxa pode se valorizar ou desvalorizar. Ou seja, ela flutua. Até então, tudo apontava para a apreciação sistemática da moeda local. "Isso gera uma volatilidade que entendemos que é boa para o mercado. E o real, antes uma das moedas mais valorizadas do mundo, hoje está no meio entre as que mais e as que menos se valorizam", disse uma fonte qualificada.

Os fluxos de capitais no país assumem distintas características predominantes conforme o período. Em janeiro o forte foi o fluxo para investimentos diretos estrangeiros e captações de empresas e bancos. Entraram no país US$ 15,5 bilhões líquidos. Desses, mais de US$ 10 bilhões eram captações. Para fluxos de "real money", o melhor instrumento é a compra de dólar à vista e, no mês passado, o BC adquiriu US$ 8 bilhões nesse mercado, cifra que subiu para US$ 10,8 bilhões nos primeiros quatro dias de fevereiro.

Assim, enxugou parte da liquidez, mas comprou abaixo do fluxo para deixar uma sobra para os bancos reduzirem suas posições vendidas. Essas caíram US$ 5 bilhões e terminaram janeiro próximas a US$ 11 bilhões.

Como as compras no mercado à vista elevam o cupom cambial (taxa de juros em dólar no mercado interno), o BC ofertou US$ 3,5 bilhões em swap cambial reverso, numa operação destinada a conter as especulações contra o real em que não há aquisição efetiva da moeda brasileira.

Um terceiro foco de atuação foram os leilões a termo, para conter as especulações que precediam o ingresso maciço de grandes operações de captação de empresas e bancos no exterior.

Nas compras a termo, o BC define previamente a taxa do dólar para o dia da liquidação financeira da operação. Para poder operar nesse mercado foi preciso montar um sistema operacional mais sofisticado na mesa de câmbio do BC, que fosse confiável para fazer a contabilidade, os leilões e os pagamentos. Tal sistema só ficou pronto recentemente, informa o BC. Para voltar com os swaps reversos, contestados pelo Judiciário, o Conselho Monetário Nacional aprovou um voto dando essa atribuição ao Banco Central. Através dos "dealers" de câmbio, a autoridade monetária consegue mapear com segurança mais de 70% das captações em curso.

Um caso clássico para essa atuação foi a megaoperação de captação da Petrobras em setembro de 2010. Quando uma empresa de porte sabe que vai ter um forte ingresso no caixa em determinado dia, ela negocia antecipadamente com os bancos esses dólares, em lotes menores e taxas melhores, para liquidação futura, quando os dólares entrarem. Os bancos assumem o risco cambial, oferecem a moeda no mercado futuro para nivelar suas posições, e, com isso, jogam a cotação do dólar para baixo. Como no Brasil o mercado futuro exerce grande influência na formação do preço à vista, se o BC oferece a possibilidade de comprar esse dólar a termo ele evita uma depreciação acentuada do câmbio naquele dia.

Segundo explicações oficiais, há uma pequena diferença de custos para o governo entre as compras de dólar no mercado à vista e as que são feitas no futuro. Quando o BC compra moeda no mercado à vista os dólares vão compor as reservas cambiais e os reais recebidos pelos bancos são esterilizados com títulos da dívida pública. Ou seja, o governo recebe pela remuneração das reservas um pouco mais do que a Libor e paga taxa Selic. Paga 11,25% ao ano e recebe algo ligeiramente acima de 0,8% ao ano.

Nas operações a termo e de swap cambial reverso, o custo é um pouco menor, afirma um especialista do governo. O BC paga CDI, que é inferior à Selic, e recebe cupom cambial (juros em dólar) mais a variação a taxa de câmbio. O cupom supera a Libor. Mas não é esse pequeno diferencial o motivo do BC para atuar com os novos instrumentos.

Conforme dados divulgados ontem pelo BC, as reservas cambiais somaram US$ 300,21 bilhões no dia 9, equivalentes a 13,7% do Produto Interno Bruto (PIB). A acumulação de reservas, objetivo do governo no passado recente, hoje é mera consequência da atuação do BC no mercado de câmbio. Como proporção do PIB, as reservas brasileiras são bem mais modestas do que as da China, Coreia ou Rússia. Mas os custos de esterilização das reservas, no país, também são substancialmente maiores do que em outros emergentes.

O governo garante que não persegue duas metas - para o câmbio e para a inflação. O mandato do BC, no regime de metas para a inflação, é apenas um: manter a inflação na meta.

Entende, porém, que não deve deixar que a taxa de câmbio, aqui, seja mais deprimida do que as dos principais competidores do país no mercado internacional, com todos os danos que isso causaria à economia brasileira.

Em tempos normais, isso soaria como sofisma. Importantes fontes governamentais explicam, no entanto, que o mundo pós-crise global virou de ponta cabeça e, no momento, não cabe uma visão "ingênua".

Claudia Safatle é diretora de redação adjunta e escreve às sextas-feiras

Banco Central recomenda cautela

Consumidor deve ficar atento com o sobe e desce da moeda americana no mercado

A baixa cotação do dólar nos últimos dias pode esconder armadilhas perigosas para o bolso do consumidor e das empresas. Foi esse o recado que o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, quis passar em sua primeira entrevista, nesta quinta-feira (6).

- Temos um sistema de câmbio flutuante que funciona bem para o país. Ele flutua para os dois lados. Para o cidadão e para as empresas, eles têm de ter cautela quando assumem compromissos em moeda estrangeira. Uma tendência de curto prazo não quer dizer que vá se prolongar por muito tempo. Temos de ter cuidado. Da mesma forma como o ambiente hoje é amplamente favorável em termos de liquidez, ele não ficará assim por muito tempo.

Em tom ríspido, Tombini afirmou que as medidas anunciadas na manhã desta quinta-feira pelo BC na tentativa de conter a desvalorização do dólar em relação ao real foram tomadas na hora que a instituição achou mais conveniente para fazê-lo.

- O Banco Central toma as medidas quando decide tomá-las. E esse foi o momento adequado em que se definiu tomá-las.

De acordo com o presidente do BC, não há qualquer problema registrado em relação a instituições financeiras no que diz respeito ao câmbio. O problema, ainda segundo Tombini, seria a soma das operações feitas pelos bancos brasileiros que não estariam de acordo com o tamanho do mercado.

- Temos um mercado de câmbio à vista que tem um giro diário em torno de US$ 2 bilhões, mas quando as exposições foram agregadas, eram de US$ 16 bilhões, quase US$ 17 bilhões. O BC entendeu que essa posição vendida estava superdimensionada em relação ao tamanho do mercado. Por caráter prudencial, estamos impondo esse compulsório, acreditando que as instituições vão se redimensionar.

...O conceito de posição de câmbio funciona da seguinte maneira: digamos que um banco começa a operar hoje e não tem dólar na carteira. Um exportador vende US$ 100 para o banco e este fica, portanto, na chamada “posição comprada”. Depois chega um importador para comprar US$ 200. O banco então vende os US$ 100 que tinha em carteira e empresta outros US$ 100 (tomados em outro banco); ele fica, assim, na chamada “posição vendida” – ou seja, fica com uma dívida de US$ 100 pelo empréstimo..

Isso quer dizer que os bancos que estão na “posição vendida”, terão, no futuro, que entregar o dólar que foi vendido ou a variação cambial. Ou seja, estes bancos estão apostando que o dólar vai se desvalorizar, porque, se isso acontecer, na hora da pagar pelo dólar eles pagarão um valor menor em real do que o que foi entregue ao cliente. Seguindo a mesma lógica estar “comprado” sinaliza a expectativa de valorização do dólar..

Fonte: R7