Estadão Conteúdo
A China está "completamente preparada" para enfrentar uma guerra cambial, de acordo com o vice-governador do Banco Popular da China (PBOC), Yi Gang, reportou neste sábado à agência de notícias Xinhua. Entretanto, ele disse que essa situação pode ser evitada se as autoridades dos principais países respeitarem os acordos estabelecidos na reunião do G-20, no mês passado, em Moscou.
Yi afirmou que guerras cambiais são evitáveis e políticas monetárias são essencialmente ferramentas econômicas domésticas. No entanto, a China está "completamente preparada". "Em termos tanto de políticas monetárias quanto de outros mecanismos, a China vai levar plenamente em conta as políticas de relaxamento monetário implementadas por bancos centrais de países estrangeiros." As informações são da Dow Jones.
Fonte: Jornal A Tribuna
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Organizar a guerra cambial
Valor Econômico / Antônio Delfim Neto / 26.02.2013
A confusão na reunião dos G-20 a respeito da guerra cambial tem um significado importante para o Brasil. Todos lembram que há mais de dois anos, quando o ministro Guido Mantega falou no assunto, foi objeto de jocosas observações internas e externas. Segundo seus críticos mais ferozes, tratava-se de um ente metafísico inventado pela retórica extravagante de uma autoridade monetária do mundo subdesenvolvido para justificar políticas heterodoxas.
A resposta inicial do G-20 à ideia que existe um bem disfarçado processo de desvalorização competitiva, que inclui os Estados Unidos, a Comunidade Econômica Europeia, a China e outros países, para protegerem o seu crescimento, foi esta joia de cinismo:
"Reiteramos nosso compromisso de agir rapidamente na direção de um sistema de taxas cambiais flexíveis determinadas pelo mercado, que reflitam os seus fundamentais, evitem desalinhamentos persistentes e não estimulem uma desvalorização competitiva entre as moedas".
Uma proposição firmada sobre a ilusão que o sistema econômico se auto-organiza pelo funcionamento do sistema de preços. Essa, sim, é uma proposição metafísica, que, positivamente, não tem nada a ver com a experiência histórica do mundo em que vivemos. Foi repetida, aliás, na recente reunião do G-7:
"Reafirmamos que nossas políticas fiscal e monetária têm sido, e continuarão a ser, orientadas no sentido de cumprir nossos respectivos objetivos nacionais com instrumentos domésticos, e que não terão como alvo as taxa de câmbio".
Todos os países com políticas autônomas têm um olho no câmbio
Sutil afirmação diplomática para reconhecer o óbvio. As taxas de câmbio não são o alvo: são meras consequências "não intencionais" do uso dos instrumentos domésticos! Afirmação aprovada pelo FMI, que esqueceu seu objetivo fundamental: controlar os desequilíbrios externos. O auge do cinismo foi aceitar a desvalorização japonesa. Aliás, Taro Aso, ministro de Finanças do Japão, afirmou: "De acordo com algumas opiniões, nossas medidas contra a desaceleração econômica provocada pela deflação visam alterar nossa taxa de câmbio, o que não é verdade".
Mas, afinal, quem disse na recente campanha eleitoral que esse era o objetivo para elevar as exportações e o crescimento econômico do Japão? Quem pressionou o banco central japonês para elevar a meta inflacionária e desvalorizar o iene? As "tais opiniões", às quais se referiu o ilustre sr. Aso, resumem-se a uma só: a do seu não menos ilustre primeiro-ministro Shinzo Abe!
A resposta mais debochada ao problema foi a da vice-secretária do Tesouro dos EUA, Lael Brainard, que afirmou, sem rebuços, sem corar e sem nenhuma elegância - típica do arrogante sentimento americano celebrizado no famoso aforismo "o dólar é nossa moeda, mas é seu problema" -, que a reclamação dos países emergentes é "pura conversa fiada".
A posição do presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, que protestou nos corredores contra a valorização do euro na última reunião do BCE, foi ambígua e de solidariedade aos grandes parceiros. Afirmou que a discussão sobre a guerra cambial era "inapropriada, infrutífera e autodestrutiva".
Entretanto, em longa entrevista, no dia 10 de janeiro em Frankfurt am Main, Draghi foi mais honesto: "Nunca comento sobre taxa de câmbio, mas ela é, certamente, um importante elemento no que concerne ao crescimento econômico (sic) e à estabilidade dos preços, e é uma das variáveis que levamos em conta na avaliação da situação, ainda que ela não seja um objetivo da política econômica".
A conclusão é que esse cinismo generalizado esconde o fato de que todos os países, que ainda têm políticas econômicas internas autônomas, têm um olho na taxa de câmbio. Quem não tem mais, como é o caso da França, apenas pode lamentar-se, como fez o presidente François Hollande.
Os países emergentes descuidados de sua moeda (como o Brasil foi até recentemente) estão permitindo a valorização do seu câmbio e apresentando retornos espetaculares em suas bolsas de valores, o que atrai capital de curto prazo. Esse movimento bursátil, que valoriza as bolsas, pode até estimular, por algum tempo, um pequeno aumento do investimento interno (efeito Tobin).
A solidariedade da China com as decisões do G-20 é consequência de que ela está na origem do desequilíbrio cambial mundial e tem toda a conveniência de apoiar os EUA e a Comunidade Econômica Europeia, seus principais parceiros. Ademais, já começou a entender o movimento estratégico dos grandes acordos estimulados pelos EUA: o do Atlântico e do Pacífico, destinados a "colocá-la no seu lugar" nos próximos dez anos...
De qualquer forma, o G-20 não chegou à unanimidade em Moscou. Os poderosos "desvalorizadores dissimulados", supostamente apoiados em irrelevante teoria econômica, não conseguiram convencer os emergentes a se comprometerem a não intervir na sua taxa cambial. É claro que desvalorizações competitivas aumentam as incertezas e prejudicam o comércio mundial. Mas não é isso que o Brasil propõe. O que o ministro Guido sugere é organizar a "guerra mundial", para repartir mais equanimemente os seus custos.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras
E-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br
Economia da China segue blindada à guerra cambial
Brasil Econômico - 18/02/2013
Debate sobre desvalorização das moedas ganha força neste momento, mas a prática de câmbio fixo da China continua sem sobressaltos.
Na reunião do G20 ocorrida neste final de semana, os ministros de Finanças das maiores economias mundiais buscaram defender um mundo sem a "guerra cambial", em uma critica velada ao Japão e aos Estados Unidos, que têm promovido fortes programas governamentais de injeção de liquidez.
Entretanto, enquanto essas duas nações passaram a utilizar o câmbio como aliado ao crescimento apenas a partir da crise de 2008, a China já se beneficia da desvalorização de sua moeda, o iuane, desde meados da década de 80, quando o mundo passou a ser inundado pelos baratos produtos chineses.
"A China optou pela desvalorização de sua moeda no passado porque tinha uma economia fraca, só que, à medida que ia enriquecendo, não deixou o iuane se fortalecer", nota Fábio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores.
Como se não bastasse o câmbio fixo, que, entre as economias de maior relevância, é praticado somente pela China, o custo da mão de obra do gigante asiático é outro ponto fora da curva em termos mundiais, pondera o especialista.
"A China é muito melhor que Estados Unidos e Europa em termos de competitividade, mas essa melhora não reside só na questão monetária", comenta o sócio da RC.
Além disso, Silveira lembra que o governo chinês atrelou as variações de sua moeda ao dólar. Ou seja, se a divisa dos Estados Unidos é desvalorizada por conta dos "quantitative easing" do Federal Reserve, o iuane vai de carona.
Três anos atrás, quando ganhava força na praça financeira o termo "QE", o nosso ministro da Fazenda, que já era o Guido Mantega, fazia críticas ao modelo cambial chinês.
"A China só pensa em si própria. Se outros países fizeram algo parecido, é algo ruim. O câmbio flutuante é o melhor regime porque consegue corrigir problemas", dizia então o ministro.
Ainda assim, de lá para cá, nenhum mudança foi verificada em termos de política cambial na China.
"Nossa moeda valorizada é, e continuará sendo, um convite para que países muito mais cautelosos e ágeis nessa matéria, como a China, se beneficiem em terceiros mercados e se habilitem a abastecer nosso dinâmico mercado interno", notava, na mesma época das críticas de Mantega, Júlio Gomes de Almeida, ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda, e professor de economia da Unicamp.
Na reunião do G20 ocorrida neste final de semana, os ministros de Finanças das maiores economias mundiais buscaram defender um mundo sem a "guerra cambial", em uma critica velada ao Japão e aos Estados Unidos, que têm promovido fortes programas governamentais de injeção de liquidez.
Entretanto, enquanto essas duas nações passaram a utilizar o câmbio como aliado ao crescimento apenas a partir da crise de 2008, a China já se beneficia da desvalorização de sua moeda, o iuane, desde meados da década de 80, quando o mundo passou a ser inundado pelos baratos produtos chineses.
"A China optou pela desvalorização de sua moeda no passado porque tinha uma economia fraca, só que, à medida que ia enriquecendo, não deixou o iuane se fortalecer", nota Fábio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores.
Como se não bastasse o câmbio fixo, que, entre as economias de maior relevância, é praticado somente pela China, o custo da mão de obra do gigante asiático é outro ponto fora da curva em termos mundiais, pondera o especialista.
"A China é muito melhor que Estados Unidos e Europa em termos de competitividade, mas essa melhora não reside só na questão monetária", comenta o sócio da RC.
Além disso, Silveira lembra que o governo chinês atrelou as variações de sua moeda ao dólar. Ou seja, se a divisa dos Estados Unidos é desvalorizada por conta dos "quantitative easing" do Federal Reserve, o iuane vai de carona.
Três anos atrás, quando ganhava força na praça financeira o termo "QE", o nosso ministro da Fazenda, que já era o Guido Mantega, fazia críticas ao modelo cambial chinês.
"A China só pensa em si própria. Se outros países fizeram algo parecido, é algo ruim. O câmbio flutuante é o melhor regime porque consegue corrigir problemas", dizia então o ministro.
Ainda assim, de lá para cá, nenhum mudança foi verificada em termos de política cambial na China.
"Nossa moeda valorizada é, e continuará sendo, um convite para que países muito mais cautelosos e ágeis nessa matéria, como a China, se beneficiem em terceiros mercados e se habilitem a abastecer nosso dinâmico mercado interno", notava, na mesma época das críticas de Mantega, Júlio Gomes de Almeida, ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda, e professor de economia da Unicamp.
G-20 faz pacto e abafa 'guerra cambial'
Valor Econômico - 18/02/2013
Por Assis Moreira | De Moscou
As "antigas e novas potências" econômicas que formam o G-20, na expressão de um ministro europeu, tentaram abafar a chamada guerra cambial ao mesmo tempo em que não conseguiram superar a divergência sobre estratégias de retomada do crescimento.
Reunidos em Moscou, os ministros de finanças e presidentes de bancos centrais dos países que representam 90% do PIB mundial e 80% do comércio global estimaram que os riscos "mais extremos" que pesavam sobre a economia se reduziram com medidas adotadas na Europa, nos Estados Unidos, Japão e a resistência da economia chinesa. Mas alertaram que "riscos importantes persistem e que o crescimento mundial é ainda muito fraco, com um desemprego inaceitavelmente elevado".
Nesse cenário, os paises desenvolvidos procuraram sufocar a retórica de guerra cambial provocada pelas políticas monetárias extremamente expansivas. Os emergentes aceitaram não brigar. Todos se comprometeram a não proceder desvalorizações competitivas e a não fixar "metas de taxa de cambio para fins de competitividade".
O comunicado do G-20, que reflete modestamente as discussões ocorridas entre os ministros, também retoma o que já havia dito em outras reuniões, como, por exemplo, que "a política monetária deve visar a estabilidade de preços domésticos e continuar a sustentar a recuperação economica".
Para dar uma satisfação aos emergentes que se sentem afetados por políticas monetárias expansionistas de países desenvolvidos, o G-20 remeteu a discussão para o FMI examinar a questão de liquidez internacional e as consequências sobre as taxas de cambio.
Mas para Pier Paduan, economista-chefe da OCDE, as taxas de cambio estão "mais ou menos em linha com os fundamentos de longo prazo" dos países. E as economias que adotaram flexibilização monetária forte foram motivadas pela demanda fraca e pouco espaço fiscal.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, declarou-se satisfeito com a discussão no G-20. Mas foi tambem o mais explicito em Moscou sobre o persistente risco da guerra cambial. Para ele, esse problema nada mais é que a outra faceta da falta de mercados e de dificuldade de exportações.
"Há um conflito originado pela falta de demanda mundial que leva os países a terem conflitos. Num ano em que o comércio cresce quase zero, tem um grande problema e os países se passam a se acotovelar para exportar. Mesmo em situações normais, há conflitos comerciais, mas eram atenuados porque havia espaço para todos", afirmou.
Agora, acrescentou Mantega, "estamos diante dessa situação que é exacerbada pelo fato de a estratégia europeia de fazer ajuste fiscal ter como saída a exportação. Os paises que não conseguem estimular a economia acham que a saída é exportar. Se todo mundo chegar a essa conclusão, imagina o que acontecerá, é um conflito de todos contra todos".
Mas o racha no G-20 persistiu. A Alemanha isolada insiste na importância da austeridade, estimando que isso gera confiança nos mercados. De outro lado, os EUA, União Europeia, Brasil pedem combinação de rigor fiscal com estímulos. "Essa diferença não foi superada", disse Mantega. A Alemanha não conseguiu acordo para fixação de novas metas de corte de deficit e de divida. Já alguns países, como a França, entenderam que o ritmo da consolidação fiscal pode ser adaptado.
Por Assis Moreira | De Moscou
As "antigas e novas potências" econômicas que formam o G-20, na expressão de um ministro europeu, tentaram abafar a chamada guerra cambial ao mesmo tempo em que não conseguiram superar a divergência sobre estratégias de retomada do crescimento.
Reunidos em Moscou, os ministros de finanças e presidentes de bancos centrais dos países que representam 90% do PIB mundial e 80% do comércio global estimaram que os riscos "mais extremos" que pesavam sobre a economia se reduziram com medidas adotadas na Europa, nos Estados Unidos, Japão e a resistência da economia chinesa. Mas alertaram que "riscos importantes persistem e que o crescimento mundial é ainda muito fraco, com um desemprego inaceitavelmente elevado".
Nesse cenário, os paises desenvolvidos procuraram sufocar a retórica de guerra cambial provocada pelas políticas monetárias extremamente expansivas. Os emergentes aceitaram não brigar. Todos se comprometeram a não proceder desvalorizações competitivas e a não fixar "metas de taxa de cambio para fins de competitividade".
O comunicado do G-20, que reflete modestamente as discussões ocorridas entre os ministros, também retoma o que já havia dito em outras reuniões, como, por exemplo, que "a política monetária deve visar a estabilidade de preços domésticos e continuar a sustentar a recuperação economica".
Para dar uma satisfação aos emergentes que se sentem afetados por políticas monetárias expansionistas de países desenvolvidos, o G-20 remeteu a discussão para o FMI examinar a questão de liquidez internacional e as consequências sobre as taxas de cambio.
Mas para Pier Paduan, economista-chefe da OCDE, as taxas de cambio estão "mais ou menos em linha com os fundamentos de longo prazo" dos países. E as economias que adotaram flexibilização monetária forte foram motivadas pela demanda fraca e pouco espaço fiscal.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, declarou-se satisfeito com a discussão no G-20. Mas foi tambem o mais explicito em Moscou sobre o persistente risco da guerra cambial. Para ele, esse problema nada mais é que a outra faceta da falta de mercados e de dificuldade de exportações.
"Há um conflito originado pela falta de demanda mundial que leva os países a terem conflitos. Num ano em que o comércio cresce quase zero, tem um grande problema e os países se passam a se acotovelar para exportar. Mesmo em situações normais, há conflitos comerciais, mas eram atenuados porque havia espaço para todos", afirmou.
Agora, acrescentou Mantega, "estamos diante dessa situação que é exacerbada pelo fato de a estratégia europeia de fazer ajuste fiscal ter como saída a exportação. Os paises que não conseguem estimular a economia acham que a saída é exportar. Se todo mundo chegar a essa conclusão, imagina o que acontecerá, é um conflito de todos contra todos".
Mas o racha no G-20 persistiu. A Alemanha isolada insiste na importância da austeridade, estimando que isso gera confiança nos mercados. De outro lado, os EUA, União Europeia, Brasil pedem combinação de rigor fiscal com estímulos. "Essa diferença não foi superada", disse Mantega. A Alemanha não conseguiu acordo para fixação de novas metas de corte de deficit e de divida. Já alguns países, como a França, entenderam que o ritmo da consolidação fiscal pode ser adaptado.
G20 se reúne em Moscou em meio a temor de guerra cambial
Agência Brasil - Da BBC Brasil
Brasília - Ministros de Finanças do G20 (grupo das principais economias avançadas e em desenvolvimento, do qual o Brasil faz parte) se reúnem em Moscou em meio a preocupações de que as principais potências comerciais do planeta se encaminham para uma "guerra cambial".
O termo é usado para se referir ao fato de alguns países manterem suas moedas desvalorizadas de maneira artificial, tornando as exportações mais baratas e competitivas e provocando um efeito negativo em países com moedas mais valorizadas.
Os temores aumentaram pelos movimentos recentes do iene e do euro. Desde novembro passado, o iene caiu mais de 15% em relação ao dólar, resultado da política monetária.
No caso do euro, houve valorização de 6% em relação a uma cesta de moedas nos últimos seis meses.
Em ocasiões anteriores, o G20 já tinha pedido que os países evitassem intervir nos mercados.
No início da semana, o G7 (grupo das principais economias desenvolvidas) reiterou em um comunicado seu compromisso com taxas de câmbio determinadas pelo mercado.
Ontem (14) o ministro de Finanças da Rússia, Anton Siluanov, disse que o seu país, que recebe o encontro do G20, também está considerando a divulgação de uma declaração similar.
O encontro do G20 ocorre em um momento em que várias das maiores economias do mundo ainda lutam para recuperar o crescimento.
Dados divulgados ontem indicam que o Japão, a terceira maior economia do mundo, continua em recessão. O
Produto Interno Bruto (PIB) encolheu 0,1% no trimestre encerrado em dezembro em relação aos três meses anteriores. Foi a terceira retração consecutiva do país.
Na Europa, a recessão também se aprofundou no último trimestre de 2012. A economia dos 17 países da zona do euro encolheu 0,6% no quarto trimestre, a maior queda desde o início de 2009.
As economias da Alemanha, da França e da Itália, as maiores da zona do euro, encolheram mais do que o esperado.
Esses resultados geraram temores de que os países que continuam a enfrentar dificuldades econômicas possam desvalorizar suas moedas para tentar impulsionar o crescimento.
Em uma reunião de ministros de Finanças da zona do euro, o representante da França, ministro Pierre Moscovici, disse temer que a valorização da moeda única esteja tornando os produtos da região menos competitivos, declaração que foi vista por alguns como sinal de que a União Europeia poderia cogitar medidas para desvalorizar artificialmente o euro.
Antes da reunião do G20, o presidente do Banco Central do Japão, Masaaki Shirakawa, disse que a instituição pretende manter sua política monetária.
"O Banco do Japão está conduzindo uma política monetária com o objetivo de alcançar estabilidade na economia japonesa. Vai continuar a fazer isso", disse.
Para alguns analistas, entretanto, o Japão não está agindo deliberadamente para enfraquecer sua moeda. "O Japão parece estar agindo por razões econômicas, como enfrentar a deflação", diz a analista Frances Hudson, da Standard Life Investments.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) disse que os países estão adotando políticas para tentar retomar o crescimento e classificou de "exagerados" os temores de uma guerra cambial.
"Nossa avaliação multilateral não indica diferenças muito significativas na valorização das moedas de referência", disse o porta-voz do FMI, Gerry Rice.
O termo é usado para se referir ao fato de alguns países manterem suas moedas desvalorizadas de maneira artificial, tornando as exportações mais baratas e competitivas e provocando um efeito negativo em países com moedas mais valorizadas.
Os temores aumentaram pelos movimentos recentes do iene e do euro. Desde novembro passado, o iene caiu mais de 15% em relação ao dólar, resultado da política monetária.
No caso do euro, houve valorização de 6% em relação a uma cesta de moedas nos últimos seis meses.
Em ocasiões anteriores, o G20 já tinha pedido que os países evitassem intervir nos mercados.
No início da semana, o G7 (grupo das principais economias desenvolvidas) reiterou em um comunicado seu compromisso com taxas de câmbio determinadas pelo mercado.
Ontem (14) o ministro de Finanças da Rússia, Anton Siluanov, disse que o seu país, que recebe o encontro do G20, também está considerando a divulgação de uma declaração similar.
O encontro do G20 ocorre em um momento em que várias das maiores economias do mundo ainda lutam para recuperar o crescimento.
Dados divulgados ontem indicam que o Japão, a terceira maior economia do mundo, continua em recessão. O
Produto Interno Bruto (PIB) encolheu 0,1% no trimestre encerrado em dezembro em relação aos três meses anteriores. Foi a terceira retração consecutiva do país.
Na Europa, a recessão também se aprofundou no último trimestre de 2012. A economia dos 17 países da zona do euro encolheu 0,6% no quarto trimestre, a maior queda desde o início de 2009.
As economias da Alemanha, da França e da Itália, as maiores da zona do euro, encolheram mais do que o esperado.
Esses resultados geraram temores de que os países que continuam a enfrentar dificuldades econômicas possam desvalorizar suas moedas para tentar impulsionar o crescimento.
Em uma reunião de ministros de Finanças da zona do euro, o representante da França, ministro Pierre Moscovici, disse temer que a valorização da moeda única esteja tornando os produtos da região menos competitivos, declaração que foi vista por alguns como sinal de que a União Europeia poderia cogitar medidas para desvalorizar artificialmente o euro.
Antes da reunião do G20, o presidente do Banco Central do Japão, Masaaki Shirakawa, disse que a instituição pretende manter sua política monetária.
"O Banco do Japão está conduzindo uma política monetária com o objetivo de alcançar estabilidade na economia japonesa. Vai continuar a fazer isso", disse.
Para alguns analistas, entretanto, o Japão não está agindo deliberadamente para enfraquecer sua moeda. "O Japão parece estar agindo por razões econômicas, como enfrentar a deflação", diz a analista Frances Hudson, da Standard Life Investments.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) disse que os países estão adotando políticas para tentar retomar o crescimento e classificou de "exagerados" os temores de uma guerra cambial.
"Nossa avaliação multilateral não indica diferenças muito significativas na valorização das moedas de referência", disse o porta-voz do FMI, Gerry Rice.
'Problema cambial pode se agravar', diz diretor do FMI
Valor Econômico - 15/02/2013
Por Assis Moreira | De Moscou
O risco de guerra cambial se agravou, porque vários países tentam resolver suas crises domésticas exportando o problema por meio do câmbio. A avaliação é do diretor-executivo para Brasil e outros dez países na diretoria do Fundo Monetário Internacional (FMI), Paulo Nogueira Batista Júnior, que desde terça-feira participa de reuniões no G-20 - grupo que reúne ministros de finanças e chefes de bancos centrais das 19 maiores economias do mundo, mais a União Europeia - em Moscou.
Ele observou que o problema para os desenvolvidos é a duração das dificuldades, com alto nível de desemprego, daí a tentação de exportar os problemas. "Eles mesmo reconheceram que suas políticas monetárias expansionistas para fins domésticos não deixam de ter implicações internacionais via taxa de câmbio, suas moedas se desvalorizam", afirmou, falando em nome pessoal.
O choque entre emergentes e desenvolvidos prosseguiu, em reunião de vice-ministros do G-20, apesar das tentativas do G-7, dos maiores industrializados, de abafar o debate sobre guerra cambial.
Os emergentes em geral insistiram que a atuação de vários desenvolvidos no câmbio tem impacto sobre suas economias. O México reclamou da pressão por valorização de sua moeda. Os industrializados insistiram que a política monetária expansionista não visa câmbio e sim gerar crescimento.
O Japão, alvo da vez, ao invés da China, argumentou que sua política monetária frouxa agora é para combater a deflação.
Enquanto o confronto prosseguia, sem surpresa, resultados decepcionantes do PIB na zona do euro e no Japão no quarto trimestre de 2012 eram anunciados. A expectativa de certos analistas é de que, mesmo se a atividade der um salto no começo deste ano, fez isso em base muito baixa. Assim, não só a zona do euro continua em recessão prolongada, como também o Canadá perde seu brilho.
O G-7, das maiores economias industrializadas, chega ao G-20 em Moscou com seis deles registrando queda na atividade no último trimestre de 2012. Com isso, o PIB no G-7 como um todo certamente sofreu contração pela primeira vez desde 2009.
A expectativa é de recuperação na maioria dos países avançados no primeiro trimestre deste ano, mas ainda fraca e desequilibrada.
Oficialmente, o FMI diz haver exageros nos debates sobre guerra cambial, segundo o porta-voz da instituição, Gerry Rice. "Nossa avaliação multilateral não indica desvios significativos", disse em coletiva de imprensa.
O porta-voz afirmou que o FMI está observando essas movimentações no câmbio, mas que não ia se pronunciar além do comentário do G-7, divulgado na terça-feira. (Com Dow Jones Newswires)
Por Assis Moreira | De Moscou
O risco de guerra cambial se agravou, porque vários países tentam resolver suas crises domésticas exportando o problema por meio do câmbio. A avaliação é do diretor-executivo para Brasil e outros dez países na diretoria do Fundo Monetário Internacional (FMI), Paulo Nogueira Batista Júnior, que desde terça-feira participa de reuniões no G-20 - grupo que reúne ministros de finanças e chefes de bancos centrais das 19 maiores economias do mundo, mais a União Europeia - em Moscou.
Ele observou que o problema para os desenvolvidos é a duração das dificuldades, com alto nível de desemprego, daí a tentação de exportar os problemas. "Eles mesmo reconheceram que suas políticas monetárias expansionistas para fins domésticos não deixam de ter implicações internacionais via taxa de câmbio, suas moedas se desvalorizam", afirmou, falando em nome pessoal.
O choque entre emergentes e desenvolvidos prosseguiu, em reunião de vice-ministros do G-20, apesar das tentativas do G-7, dos maiores industrializados, de abafar o debate sobre guerra cambial.
Os emergentes em geral insistiram que a atuação de vários desenvolvidos no câmbio tem impacto sobre suas economias. O México reclamou da pressão por valorização de sua moeda. Os industrializados insistiram que a política monetária expansionista não visa câmbio e sim gerar crescimento.
O Japão, alvo da vez, ao invés da China, argumentou que sua política monetária frouxa agora é para combater a deflação.
Enquanto o confronto prosseguia, sem surpresa, resultados decepcionantes do PIB na zona do euro e no Japão no quarto trimestre de 2012 eram anunciados. A expectativa de certos analistas é de que, mesmo se a atividade der um salto no começo deste ano, fez isso em base muito baixa. Assim, não só a zona do euro continua em recessão prolongada, como também o Canadá perde seu brilho.
O G-7, das maiores economias industrializadas, chega ao G-20 em Moscou com seis deles registrando queda na atividade no último trimestre de 2012. Com isso, o PIB no G-7 como um todo certamente sofreu contração pela primeira vez desde 2009.
A expectativa é de recuperação na maioria dos países avançados no primeiro trimestre deste ano, mas ainda fraca e desequilibrada.
Oficialmente, o FMI diz haver exageros nos debates sobre guerra cambial, segundo o porta-voz da instituição, Gerry Rice. "Nossa avaliação multilateral não indica desvios significativos", disse em coletiva de imprensa.
O porta-voz afirmou que o FMI está observando essas movimentações no câmbio, mas que não ia se pronunciar além do comentário do G-7, divulgado na terça-feira. (Com Dow Jones Newswires)
Há divergências sobre a queda do dólar
O Globo - 15/10/2012
Após comprar a briga da queda de juros, a próxima briga do governo será no câmbio. O dólar está praticamente fixo em R$ 2 há quase seis meses, depois de beirar R$ 1,55 em julho do ano passado, e o governo federal dá sinais de que ainda não está satisfeito com o atual patamar. Economistas ouvidos pelo Estado se dividem quando o assunto é a trajetória do real em 2013.
Enquanto para Armínio Fraga e Gustavo Franco, ex-presidentes do Banco Central (BC), a mudança na taxa de câmbio ocorreu devido ao estresse mundial, e, portanto, o real pode voltar a se valorizar quando a situação econômica melhorar, os principais conselheiros da presidente Dilma Rousseff pensam diferente.
Para Antônio Delfim Netto, a mudança no câmbio foi principalmente dirigida pela equipe econômica. A mudança na cotação do dólar corrigiu, segundo ele, um "pecado capital" do próprio governo petista, que permitiu a hipervalorização do real, destruindo a competitividade da indústria nacional. "O câmbio valorizado foi mantido por tempo demais, promovendo um efeito devastador."
Delfim Netto e Luiz Gonzaga Belluzzo, professor da Unicamp e também conselheiro presidencial, avaliam que uma das principais medidas do governo foi intervir diretamente no mercado de câmbio, instituindo a cobrança de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre o excesso em posição "vendida" em derivativos cambias - o que representa a aposta em um título que prevê a valorização do real.
"Último peru". "Por conta das elevadas taxas de juros, o Brasil foi durante muito tempo o último peru disponível fora do Dia de Ação de Graças. Todo mundo vinha para cá", diz Delfim Netto. Ele diz que, mesmo na mínima histórica (7,25% ao ano), a taxa básica de juros, a Selic, "ainda é o último peru". Mas pondera: "Estamos terminando a festa".
Para Gustavo Franco, no entanto, acreditar na eficácia do IOF é "uma ilusão". Para ele, o dólar atingiu R$ 2 por conta "de um problema muito sério na Europa, que começou exatamente em agosto do ano passado, curiosamente quando o real passou a se desvalorizar".
A desvalorização do real encarece bens importados, o que pode ter efeito na inflação. Para Fraga, os piores problemas com preços ficaram em 2011. "Não acredito que o BC atual tenha qualquer intenção de abandonar o sistema de metas de inflação, mas há também a percepção de que o BC está mais disposto a correr riscos com a inflação, em busca de auxiliar o governo e elevar o ritmo do crescimento." /J.V.
O Fed e as guerras cambiais
Autor(es): Jose Antonio Ocampo
Valor Econômico - 04/10/2012
Valor Econômico - 04/10/2012
A recente decisão do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) de lançar uma terceira rodada de "afrouxamento quantitativo" reacendeu acusações do ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega, de que os EUA desencadearam uma "guerra cambial". Em mercados emergentes que já estão sofrendo com o impacto da rápida apreciação da moeda em sua competitividade, as medidas expansionistas anunciadas nas últimas semanas pelo Banco Central Europeu e pelo Banco do Japão intensificaram a sensação de alarme diante da decisão do Fed.
Minha percepção é de que ambos os lados estão certos. O Fed está certo em adotar novas medidas monetárias expansionistas em face de uma fraca recuperação americana. Além disso, vinculá-las a melhorias no mercado de trabalho foi uma decisão muito importante - uma postura que outros bancos centrais, especialmente o BCE, deveriam seguir.
Com certeza, uma expansão monetária deveria vir acompanhada de uma postura fiscal menos contracionista nos países industrializados. Mas a margem de manobra fiscal nas economias avançadas está mais limitada do que em 2007-2008 e o impasse político nos EUA aprofundou-se, praticamente descartando estímulos adicionais por meio de canais orçamentários. Embora a eficácia de uma nova rodada de flexibilização quantitativa vá ser limitada, como argumenta Mantega, o Fed não tinha alternativa a agir.
As reuniões do FMI/Banco Mundial em Tóquio em outubro, portanto, podem ser a oportunidade ideal para começar a ampliar a agenda internacional monetária - dando luz verde a uma regulamentação coordenada dos fluxos internacionais de capital
Mas Mantega também tem razão. Dado o papel do dólar americano como moeda mundialmente dominante, a política monetária expansionista do Fed gera externalidades significativas para o resto do mundo - efeitos que o Fed certamente não está levando em conta. O problema básico é que há imperfeições essenciais em um sistema monetário internacional baseado no uso de uma moeda nacional como principal moeda de reserva do mundo.
Esse problema foi citado já desde a década de 1960, pelo economista belga Robert Triffin e, mais recentemente, pelo falecido economista italiano Tommaso Padoa-Schioppa. "Os requisitos de estabilidade do sistema como um todo", argumentou Padoa-Schioppa, "são incompatíveis com a prática de políticas econômica e monetária forjadas com base unicamente em razões domésticas".
Em especial, as políticas monetárias expansionistas nos EUA (na verdade, em todos os países avançados) estão gerando altos riscos para as economias emergentes. Como as taxas de juro precisam permanecer muito baixas nos países desenvolvidos pelo menos durante os próximos anos, já existem fortes motivações para a exportação de capital para economias emergentes que proporcionam maiores rendimentos. Mas esses fluxos de capital tendem a sobrevalorizar o câmbio, ampliar os déficits em conta corrente e criar bolhas nos preços dos ativos, efeitos que, no passado, resultaram em crise nessas economias.
Em suma, os benefícios a médio prazo que as economias emergentes poderiam receber de um crescimento mais rápido nos EUA estão agora sendo negados por riscos de curto prazo gerados pelo "tsunami de capital", termo usado pela presidente brasileira, Dilma Rousseff.
O problema básico é a inexistência de uma agenda mais ampla que torne a posição do Fed coerente com a de Mantega e de outras autoridades econômicas de países emergentes. Essa agenda precisa incluir dois temas de reforma monetária mundial que permanecem sem solução: regulamentação mundial coordenada dos fluxos de capital no curto prazo e uma mudança de longo prazo rumo a um novo sistema monetário internacional baseado em uma verdadeira moeda de reserva mundial (possivelmente baseada nos Direitos Especiais de Saque do Internacional do Fundo Monetário).
Os EUA poderiam se beneficiar de tais políticas, pois uma regulamentação para as contas de capital obrigaria os investidores a encontrar oportunidades em seus mercados domésticos, ao passo que uma verdadeira moeda de reserva mundial libertaria os EUA de preocupações e intensas críticas relacionadas com as consequências de sua política monetária sobre a economia mundial. Ao mesmo tempo, os mercados emergentes seriam beneficiados pela política monetária expansionista americana, na medida em que ela faria crescer a demanda por suas exportações.
A diretora do FMI, Christine Lagarde, pediu uma ação coordenada para sustentar a recuperação mundial. Além disso, em outubro o FMI deverá divulgar suas "leis de trânsito" oficiais para a utilização dos regulamentos para as contas de capital. As reuniões do FMI/Banco Mundial em Tóquio em 12 e 13 de outubro, portanto, podem ser a oportunidade ideal para começar a ampliar a agenda internacional monetária - dando luz verde a uma regulamentação coordenada dos fluxos internacionais de capital e inaugurando um debate sobre o futuro do sistema monetário internacional. (Tradução de Sergio Blum)
Jose Antonio Ocampo é professor da Universidade Colúmbia, foi ministro das Finanças da Colômbia e subsecretário-geral da Organização das Nações Unidas para Assuntos Econômicos e Sociais.. Copyright: Project Syndicate, 2012.
'Guerra cambial' está de volta e BCs aumentam intervenções
Autor(es): Por Assis Moreira | De Genebra
Valor Econômico - 09/03/2012
"A guerra cambial está de volta", diz o Royal Bank of Canada (RBC), em meio a movimentos dos bancos centrais em países emergentes tentando frear a excessiva valorização de suas moedas para se contrapor ao excesso de liquidez deflagrada pelo G-4 (Estados Unidos, zona do euro, Grã-Bretanha e Japão).
O Banco Central do Brasil foi, nesta semana, praticamente o único entre os grandes a diminuir as taxas de juros. Os BCs da Austrália, Nova Zelândia, Coreia do Sul e Indonésia mantiveram suas taxas inalteradas.
Já as intervenções no câmbio se propagam. Na América Latina, o RBS nota que o Brasil, Peru e Colômbia vêm comprando dólares regularmente para frear a pressão sobre suas moedas. Mas o Chile também pode começar logo a adquirir dólares no mercado.
Na Ásia, bancos centrais na China, Coreia do Sul, Malásia e Cingapura voltaram a fazer intervenções, com maciças aquisições de moeda americana.
O BC da Austrália também avalia o impacto da moeda sobre o mercado de trabalho e monitora para que o fluxo de capital não provoque valorização excessiva.
"Valorização excessiva de moedas se tornou um tremendo vexame político para alguns bancos centrais nos últimos anos", avalia a consultoria FxPro, de Londres. No Japão, as intervenções têm sido colossais. A Suíça emprega termos militares para avisar que se protegerá com aquisições ilimitadas de moeda estrangeira a fim de evitar mais apreciação do franco suíço.
A expectativa entre bancos internacionais é de reintrodução de controles de capital ou barreiras comerciais, diante da rapidez no aumento do fluxo de capitais e de importações em vários países.
Para o RBS, os investidores vão usar os recursos baratos nos países desenvolvidos, onde as taxas de juros são baixas ou mesmo negativas, para investir nos emergentes com juros mais altos e onde as perspectivas de crescimento também persistem.
Esse excesso de liquidez está impulsionando todos os mercados, criando dilemas para as autoridades dos países emergentes, com suas moedas fortes ameaçando a competitividade no comércio e aquecendo demais suas economias.
O RBS alerta, porém, que a persistência das forças da desalavancagem (com a redução do endividamento) persistem como um risco central, podendo afetar de novo os mercados globais quando desaparecer o ímpeto positivo dado pela expansão deflagrada pelo G-4.
Valor Econômico - 09/03/2012
"A guerra cambial está de volta", diz o Royal Bank of Canada (RBC), em meio a movimentos dos bancos centrais em países emergentes tentando frear a excessiva valorização de suas moedas para se contrapor ao excesso de liquidez deflagrada pelo G-4 (Estados Unidos, zona do euro, Grã-Bretanha e Japão).
O Banco Central do Brasil foi, nesta semana, praticamente o único entre os grandes a diminuir as taxas de juros. Os BCs da Austrália, Nova Zelândia, Coreia do Sul e Indonésia mantiveram suas taxas inalteradas.
Já as intervenções no câmbio se propagam. Na América Latina, o RBS nota que o Brasil, Peru e Colômbia vêm comprando dólares regularmente para frear a pressão sobre suas moedas. Mas o Chile também pode começar logo a adquirir dólares no mercado.
Na Ásia, bancos centrais na China, Coreia do Sul, Malásia e Cingapura voltaram a fazer intervenções, com maciças aquisições de moeda americana.
O BC da Austrália também avalia o impacto da moeda sobre o mercado de trabalho e monitora para que o fluxo de capital não provoque valorização excessiva.
"Valorização excessiva de moedas se tornou um tremendo vexame político para alguns bancos centrais nos últimos anos", avalia a consultoria FxPro, de Londres. No Japão, as intervenções têm sido colossais. A Suíça emprega termos militares para avisar que se protegerá com aquisições ilimitadas de moeda estrangeira a fim de evitar mais apreciação do franco suíço.
A expectativa entre bancos internacionais é de reintrodução de controles de capital ou barreiras comerciais, diante da rapidez no aumento do fluxo de capitais e de importações em vários países.
Para o RBS, os investidores vão usar os recursos baratos nos países desenvolvidos, onde as taxas de juros são baixas ou mesmo negativas, para investir nos emergentes com juros mais altos e onde as perspectivas de crescimento também persistem.
Esse excesso de liquidez está impulsionando todos os mercados, criando dilemas para as autoridades dos países emergentes, com suas moedas fortes ameaçando a competitividade no comércio e aquecendo demais suas economias.
O RBS alerta, porém, que a persistência das forças da desalavancagem (com a redução do endividamento) persistem como um risco central, podendo afetar de novo os mercados globais quando desaparecer o ímpeto positivo dado pela expansão deflagrada pelo G-4.
Guerra cambial e custo Brasil
Autor(es): Márcio Garcia
Valor Econômico - 09/03/2012
O sucesso das metáforas "guerra cambial" e "tsunami monetário" não encontra paralelo nas estratégias de enfrentamento da crise.
O ministro Mantega tornou-se mundialmente famoso ao cunhar, em 2010, a metáfora "guerra cambial" para caracterizar os problemas que as políticas monetárias expansionistas dos países centrais vinham causando a diversos países emergentes, notadamente o Brasil. Em recente viagem à Alemanha, a presidente Dilma reclamou do "tsunami monetário". Infelizmente, o sucesso das metáforas não se vem se refletindo nas estratégias econômicas de enfrentamento da crise. As reações alvoroçadas do governo sugerem que falta diagnóstico correto das causas dos nossos problemas, assemelhando-se mais a ações paliativas estumadas por lobbies setoriais.
É razoável mostrar preocupação com os efeitos colaterais das políticas monetárias expansionistas dos países centrais. Mas não é razoável esperar que tais queixumes venham a alterar tais políticas. A estratégia brasileira deve levar em conta que o "tsunami monetário" vai continuar enquanto persistir a ameaça recessiva nos EUA, Europa e Japão, empurrando para cá capitais em busca de maiores rendimentos, assim ajudando a apreciar o real.
Não há prova de que as medidas de controle sejam eficazes, a médio prazo, para segurar o câmbio
Ressalte-se que, vista de uma perspectiva mais ampla, a atual situação configura problema certamente muito menos grave do que as repetidas crises que vivemos até 2003, com enormes depreciações cambiais. A vida hoje, sobretudo do pobre, é muito melhor do que quando políticos ganhavam eleições reivindicando salário mínimo de US$ 100, o que corresponderia, hoje, a R$ 176, menos do que 30% do atual valor.
Como tudo que dá para rir, também dá para chorar, o que é renda para o trabalhador, é também custo para a indústria manufatureira, que pena com a concorrência externa. Frente a isso, o que faz o governo? Apesar de se conhecer, desde há muito tempo, fatores que causam o alto custo Brasil (carga tributária em permanente ascensão para financiar o grande e ineficiente setor público, elevados custos associados à mão de obra, infraestrutura deficiente, burocracia custosa e ineficaz, justiça morosa e cara, etc.), tudo que se tem ouvido das autoridades econômicas é que lançarão mão de um "arsenal infinito" para impedir que o real se aprecie, ou que lançarão mão de barreiras fortes para proteger a indústria nacional.
As medidas de controles cambiais, agora entronizadas na ortodoxia via estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI), ganharam nova proeminência e credibilidade. O problema é que não há na literatura comprovação de que sejam eficazes, no médio prazo, para depreciar a taxa de câmbio. Caso as economias centrais não voltem a crescer nos próximos meses, a perspectiva é que as políticas monetárias ultraexpansionistas persistam, e, com elas, a entrada excessiva de capitais. As intervenções esterilizadas do Banco Central (BC) ou do Fundo Soberano, via mercado de câmbio à vista ou futuro, são extremamente onerosas. Já os controles de entrada de capitais são sempre porosos. Se durarem muito tempo, acabarão sendo driblados pelas instituições financeiras. Os controles podem ser usados, na melhor das hipóteses, temporariamente, enquanto são tomadas outras medidas, como um ajuste fiscal sério. Fazer dos controles de capitais o ponto central da política econômica é, em médio prazo, estratégia fadada ao fracasso.
Já as medidas protecionistas podem causar dano ainda muito maior à nossa economia. As medidas têm sido invariavelmente casuísticas: um IPI para proteger os carros nacionais, um crédito mais subsidiado para alguns poucos setores que pretensamente empregam mais que os demais, uma isenção para determinados bens, e assim sucessivamente. Nada que, verdadeiramente, ataque nossas reais deficiências. Como já sobejamente demonstrado, as medidas protecionistas são sempre tomadas em caráter temporário, mas tendem invariavelmente a se tornar permanentes, aumentando o custo Brasil e prejudicando ainda mais o aumento da produtividade e competitividade do produto brasileiro. Isso sem contar a perda do prestígio internacional, como demonstrado pela indireta constrangedora da primeira-ministra alemã durante a visita da presidente Dilma.
É sempre bom lembrar que, devido à nossa reduzida capacidade de gerar poupança interna (apenas 17,2% em 2011 contra mais de 40% na China), não parece ser possível atingir a meta de crescimento sustentado a taxas de 4% ou superiores sem contar com significativo ingresso de capital estrangeiro. A posição atual do Brasil como o mercado preferido dos investidores internacionais tem nos permitido contar com os elevados fluxos de capitais necessários para o financiamento do investimento produtivo, indispensável ao crescimento sustentado. Mas outros países também já estiveram em situação parecida, e perderam a oportunidade. Afugentar o capital estrangeiro não é muito difícil, basta errar muito. Mas isso não atende aos interesses de atingir o crescimento sustentado. Melhor seria conviver com a avalanche de capitais fazendo reformas e empreendendo políticas que possam reduzir o custo Brasil.
Márcio G. P. Garcia é PhD por Stanford e professor do Departamento de Economia da PUC-Rio
Valor Econômico - 09/03/2012
O sucesso das metáforas "guerra cambial" e "tsunami monetário" não encontra paralelo nas estratégias de enfrentamento da crise.
O ministro Mantega tornou-se mundialmente famoso ao cunhar, em 2010, a metáfora "guerra cambial" para caracterizar os problemas que as políticas monetárias expansionistas dos países centrais vinham causando a diversos países emergentes, notadamente o Brasil. Em recente viagem à Alemanha, a presidente Dilma reclamou do "tsunami monetário". Infelizmente, o sucesso das metáforas não se vem se refletindo nas estratégias econômicas de enfrentamento da crise. As reações alvoroçadas do governo sugerem que falta diagnóstico correto das causas dos nossos problemas, assemelhando-se mais a ações paliativas estumadas por lobbies setoriais.
É razoável mostrar preocupação com os efeitos colaterais das políticas monetárias expansionistas dos países centrais. Mas não é razoável esperar que tais queixumes venham a alterar tais políticas. A estratégia brasileira deve levar em conta que o "tsunami monetário" vai continuar enquanto persistir a ameaça recessiva nos EUA, Europa e Japão, empurrando para cá capitais em busca de maiores rendimentos, assim ajudando a apreciar o real.
Não há prova de que as medidas de controle sejam eficazes, a médio prazo, para segurar o câmbio
Ressalte-se que, vista de uma perspectiva mais ampla, a atual situação configura problema certamente muito menos grave do que as repetidas crises que vivemos até 2003, com enormes depreciações cambiais. A vida hoje, sobretudo do pobre, é muito melhor do que quando políticos ganhavam eleições reivindicando salário mínimo de US$ 100, o que corresponderia, hoje, a R$ 176, menos do que 30% do atual valor.
Como tudo que dá para rir, também dá para chorar, o que é renda para o trabalhador, é também custo para a indústria manufatureira, que pena com a concorrência externa. Frente a isso, o que faz o governo? Apesar de se conhecer, desde há muito tempo, fatores que causam o alto custo Brasil (carga tributária em permanente ascensão para financiar o grande e ineficiente setor público, elevados custos associados à mão de obra, infraestrutura deficiente, burocracia custosa e ineficaz, justiça morosa e cara, etc.), tudo que se tem ouvido das autoridades econômicas é que lançarão mão de um "arsenal infinito" para impedir que o real se aprecie, ou que lançarão mão de barreiras fortes para proteger a indústria nacional.
As medidas de controles cambiais, agora entronizadas na ortodoxia via estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI), ganharam nova proeminência e credibilidade. O problema é que não há na literatura comprovação de que sejam eficazes, no médio prazo, para depreciar a taxa de câmbio. Caso as economias centrais não voltem a crescer nos próximos meses, a perspectiva é que as políticas monetárias ultraexpansionistas persistam, e, com elas, a entrada excessiva de capitais. As intervenções esterilizadas do Banco Central (BC) ou do Fundo Soberano, via mercado de câmbio à vista ou futuro, são extremamente onerosas. Já os controles de entrada de capitais são sempre porosos. Se durarem muito tempo, acabarão sendo driblados pelas instituições financeiras. Os controles podem ser usados, na melhor das hipóteses, temporariamente, enquanto são tomadas outras medidas, como um ajuste fiscal sério. Fazer dos controles de capitais o ponto central da política econômica é, em médio prazo, estratégia fadada ao fracasso.
Já as medidas protecionistas podem causar dano ainda muito maior à nossa economia. As medidas têm sido invariavelmente casuísticas: um IPI para proteger os carros nacionais, um crédito mais subsidiado para alguns poucos setores que pretensamente empregam mais que os demais, uma isenção para determinados bens, e assim sucessivamente. Nada que, verdadeiramente, ataque nossas reais deficiências. Como já sobejamente demonstrado, as medidas protecionistas são sempre tomadas em caráter temporário, mas tendem invariavelmente a se tornar permanentes, aumentando o custo Brasil e prejudicando ainda mais o aumento da produtividade e competitividade do produto brasileiro. Isso sem contar a perda do prestígio internacional, como demonstrado pela indireta constrangedora da primeira-ministra alemã durante a visita da presidente Dilma.
É sempre bom lembrar que, devido à nossa reduzida capacidade de gerar poupança interna (apenas 17,2% em 2011 contra mais de 40% na China), não parece ser possível atingir a meta de crescimento sustentado a taxas de 4% ou superiores sem contar com significativo ingresso de capital estrangeiro. A posição atual do Brasil como o mercado preferido dos investidores internacionais tem nos permitido contar com os elevados fluxos de capitais necessários para o financiamento do investimento produtivo, indispensável ao crescimento sustentado. Mas outros países também já estiveram em situação parecida, e perderam a oportunidade. Afugentar o capital estrangeiro não é muito difícil, basta errar muito. Mas isso não atende aos interesses de atingir o crescimento sustentado. Melhor seria conviver com a avalanche de capitais fazendo reformas e empreendendo políticas que possam reduzir o custo Brasil.
Márcio G. P. Garcia é PhD por Stanford e professor do Departamento de Economia da PUC-Rio
Brasil tomará 'todas as medidas' para se proteger da guerra cambial, diz Dilma
05/03/2012 11h25 - Atualizado em 05/03/2012 11h29
Do G1, em Brasília, com agências
Ela voltou a criticar política de países desenvolvidos para estancar crise.
Dilma se reúne nesta segunda (5) com chanceler alemã, Angela Merkel.
Em visita a Alemanha, a presidente Dilma Rousseff voltou a criticar nesta segunda-feira (5) a guerra cambial feita pelos países desenvolvidos e disse que a "massa monetária" produzida gera "especulação". Ela disse que Brasil tomará "todas as medidas" para se proteger da guerra cambial.
“Eu reconheço que [a guerra cambial] é um mecanismo de defesa, mas você ganha tempo só. O que o Brasil quer mostrar é que está em andamento uma forma concorrencial de proteção de mercado que é o câmbio, uma forma artificial de proteção do mercado. Somos uma economia soberana. Tomaremos todas as medidas para nos proteger", afirmou a presidente a jornalistas em Hannover, no lobby do hotel Luisenhof.
A presidente voltou a afirmar também que essas políticas geram um efeito “nocivo” sobre as economias emergentes, como o Brasil.
“Eu acho que uma coisa importante é que os países desenvolvidos não só façam políticas expansionistas monetárias, mas façam políticas de expansão do investimento. Porque o investimento não só melhora a demanda interna, mas abre também a demanda externa para os nossos produtos.”
Ainda nesta segunda, Dilma se encontra com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel. O tema do encontro será a crise financeira internacional.
Conforme a agenda oficial da presidente, ela participa às 18h do horário local (14h de Brasília) da cerimônia de abertura da Feira Internacional das Tecnologias da Informação e das Comunicações, a Cebit. Na sequência, vai a jantar oferecido por Merkel e depois tem um encontro privado com a chanceler.
Na semana passada, Dilma classificou de "tsunami monetário" provocado pelos países ricos a política monetária que prejudica a indústria. De acordo com o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, a presidente deverá conduzir a conversa com a chanceler alemã "no mesmo tom" em que vem se manifestando em relação à crise.
Nesta sexta-feira (2), Merkel chegou a dizer que entende as críticas feitas por Dilma. "De certa maneira, eu entendo as dúvidas dela. É por isso que vou tentar dizer a ela que planejamos perseguir reformas desta vez, que nós certamente não vamos adotar medidas semelhantes de novo", declarou.
Programação
Acompanham Dilma na Alemanha os ministros Antonio Patriota (Relações Exteriores), Fernando Pimentl (Desenvolvimento), Marco Antonio Raupp (Ciência e Tecnologia), Paulo Bernardo (Comunicações), Helena Chagas (Comunicação Social), além dos governadores da Bahia e do Rio Grande do Sul, Jaques Wagner e Tarso Genro respectivamente.
Na terça-feira (6), logo cedo, às 9h, Dilma planeja visitar a feira por cerca de duas horas, começando pelo pavilhão do Brasil. Após pronunciamento à imprensa, previsto para as 11h30, a presidente participa de um almoço de trabalho com a Confederação da Indústria da Alemanha e empresários brasileiros e alemães.
Dilma deixa a Alemanha ainda na terça e retorna ao Brasil.
Do G1, em Brasília, com agências
Ela voltou a criticar política de países desenvolvidos para estancar crise.
Dilma se reúne nesta segunda (5) com chanceler alemã, Angela Merkel.
Em visita a Alemanha, a presidente Dilma Rousseff voltou a criticar nesta segunda-feira (5) a guerra cambial feita pelos países desenvolvidos e disse que a "massa monetária" produzida gera "especulação". Ela disse que Brasil tomará "todas as medidas" para se proteger da guerra cambial.
“Eu reconheço que [a guerra cambial] é um mecanismo de defesa, mas você ganha tempo só. O que o Brasil quer mostrar é que está em andamento uma forma concorrencial de proteção de mercado que é o câmbio, uma forma artificial de proteção do mercado. Somos uma economia soberana. Tomaremos todas as medidas para nos proteger", afirmou a presidente a jornalistas em Hannover, no lobby do hotel Luisenhof.
A presidente voltou a afirmar também que essas políticas geram um efeito “nocivo” sobre as economias emergentes, como o Brasil.
“Eu acho que uma coisa importante é que os países desenvolvidos não só façam políticas expansionistas monetárias, mas façam políticas de expansão do investimento. Porque o investimento não só melhora a demanda interna, mas abre também a demanda externa para os nossos produtos.”
Ainda nesta segunda, Dilma se encontra com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel. O tema do encontro será a crise financeira internacional.
Conforme a agenda oficial da presidente, ela participa às 18h do horário local (14h de Brasília) da cerimônia de abertura da Feira Internacional das Tecnologias da Informação e das Comunicações, a Cebit. Na sequência, vai a jantar oferecido por Merkel e depois tem um encontro privado com a chanceler.
Na semana passada, Dilma classificou de "tsunami monetário" provocado pelos países ricos a política monetária que prejudica a indústria. De acordo com o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, a presidente deverá conduzir a conversa com a chanceler alemã "no mesmo tom" em que vem se manifestando em relação à crise.
Nesta sexta-feira (2), Merkel chegou a dizer que entende as críticas feitas por Dilma. "De certa maneira, eu entendo as dúvidas dela. É por isso que vou tentar dizer a ela que planejamos perseguir reformas desta vez, que nós certamente não vamos adotar medidas semelhantes de novo", declarou.
Programação
Acompanham Dilma na Alemanha os ministros Antonio Patriota (Relações Exteriores), Fernando Pimentl (Desenvolvimento), Marco Antonio Raupp (Ciência e Tecnologia), Paulo Bernardo (Comunicações), Helena Chagas (Comunicação Social), além dos governadores da Bahia e do Rio Grande do Sul, Jaques Wagner e Tarso Genro respectivamente.
Na terça-feira (6), logo cedo, às 9h, Dilma planeja visitar a feira por cerca de duas horas, começando pelo pavilhão do Brasil. Após pronunciamento à imprensa, previsto para as 11h30, a presidente participa de um almoço de trabalho com a Confederação da Indústria da Alemanha e empresários brasileiros e alemães.
Dilma deixa a Alemanha ainda na terça e retorna ao Brasil.
É direito do Brasil se defender do "tsunami monetário"
Valor Econômico - 05/03/2012
Ao longo dos últimos anos, os bancos centrais responsáveis pela emissão das principais moedas de reservas do mundo adotaram políticas monetárias expansionistas. Além disso, anunciaram a intenção de manter taxas de juros em patamares baixos, por um período prolongado de tempo.
De 2008 até agora, a expansão dos ativos do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), do Banco Central Europeu (BCE), do Banco da Inglaterra e do Banco Central do Japão totaliza US$ 4,6 trilhões, segundo cálculo apresentado pelo presidente do BC brasileiro, Alexandre Tombini, em sua exposição na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, na semana passada.
No dia seguinte ao pronunciamento de Tombini, o BCE anunciou sua decisão de colocar disponíveis para 800 bancos privados europeus mais € 529 bilhões. Os bancos terão um prazo de três anos para usar os recursos e devolvê-los ao BCE.
Aos senadores, Tombini lembrou também que o Fed já anunciou sua intenção de manter os juros entre 0% e 0,25% ao ano até 2014. O BCE opera com taxa de 1% ao ano, o Banco da Inglaterra, com 0,5% ao ano e o BC do Japão, com 0% e 0,10% ao ano.
O objetivo principal dessas medidas é garantir a solvência dos sistemas financeiros dos países desenvolvidos e facilitar a recuperação de suas economias. O problema é que essas políticas ampliam significativamente a liquidez internacional, direcionando fluxos cada vez maiores de recursos para os países emergentes, entre eles, o Brasil. Foi essa enxurrada de dinheiro que a presidente Dilma Rousseff chamou, na semana passada, de "tsunami monetário".
Um efeito direto da expansão monetária é a redução da aversão dos investidores ao risco. Com isso, os recursos são direcionados para aplicações com maiores chances de retorno imediato, o que atualmente só existe em países emergentes, que mantêm suas economias em crescimento.
O agravante do caso brasileiro é o brutal diferencial entre a taxa de juro vigente e as do mercado internacional, o que motiva operações de arbitragem. Um representante de uma multinacional informou, recentemente, que 30% do caixa de sua empresa está em investimentos financeiros no Brasil. O ingresso dessa enxurrada de recursos tem impacto direto na taxa de câmbio, agravando a apreciação do real.
Os países desenvolvidos tentam superar a grave crise econômica em que se meteram e, para isso, adotaram medidas excepcionais. Nesse ambiente em que prevalecem práticas pouco usuais e questionáveis, o governo brasileiro não pode ficar inerte, sem adotar medidas que protejam a indústria aqui instalada. É um direito do país adotar medidas que evitem, como disse a presidente Dilma, "a canibalização" de seu mercado.
É importante registrar que até mesmo instituições tradicionalmente conservadoras, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), veem a necessidade de intervenção no mercado de câmbio no atual momento. Em recente artigo, os economistas do FMI Jonathan D. Ostry, Atish R. Ghosh e Marcos Chamon defenderam que os bancos centrais de países emergentes adotem medidas com o objetivo de evitar oscilações exageradas de suas moedas, quando elas resultarem de ingresso excessivo de recursos externos no país.
Na semana passada, o governo brasileiro adotou mais uma medida para tentar conter a apreciação do real. Elevou para 6% a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) incidente em empréstimos externos com prazos de até três anos. Essa medida seria parte de um arsenal que o governo prepara para enfrentar os efeitos do "tsunami monetário". Alguns economistas sugerem a adoção do sistema de quarentena para os capitais que ingressarem no país, em que, durante um certo período, ficariam sem direito à remuneração. Outros defendem que o Fundo Soberano seja utilizado, como um auxiliar do BC, na aquisição do excesso de dólares. E outros sugerem que o governo seja mais rigoroso na análise dos empréstimos externos intercompanhias.
O resultado prático dessas medidas, no entanto, parece pouco relevante enquanto o diferencial entre a taxa de juro brasileira e as do mercado internacional continuar no nível atual. A redução dos juros ainda é o melhor caminho a ser trilhado, e o governo Dilma deve criar as condições para que isso ocorra, de forma responsável.
Ao longo dos últimos anos, os bancos centrais responsáveis pela emissão das principais moedas de reservas do mundo adotaram políticas monetárias expansionistas. Além disso, anunciaram a intenção de manter taxas de juros em patamares baixos, por um período prolongado de tempo.
De 2008 até agora, a expansão dos ativos do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), do Banco Central Europeu (BCE), do Banco da Inglaterra e do Banco Central do Japão totaliza US$ 4,6 trilhões, segundo cálculo apresentado pelo presidente do BC brasileiro, Alexandre Tombini, em sua exposição na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, na semana passada.
No dia seguinte ao pronunciamento de Tombini, o BCE anunciou sua decisão de colocar disponíveis para 800 bancos privados europeus mais € 529 bilhões. Os bancos terão um prazo de três anos para usar os recursos e devolvê-los ao BCE.
Aos senadores, Tombini lembrou também que o Fed já anunciou sua intenção de manter os juros entre 0% e 0,25% ao ano até 2014. O BCE opera com taxa de 1% ao ano, o Banco da Inglaterra, com 0,5% ao ano e o BC do Japão, com 0% e 0,10% ao ano.
O objetivo principal dessas medidas é garantir a solvência dos sistemas financeiros dos países desenvolvidos e facilitar a recuperação de suas economias. O problema é que essas políticas ampliam significativamente a liquidez internacional, direcionando fluxos cada vez maiores de recursos para os países emergentes, entre eles, o Brasil. Foi essa enxurrada de dinheiro que a presidente Dilma Rousseff chamou, na semana passada, de "tsunami monetário".
Um efeito direto da expansão monetária é a redução da aversão dos investidores ao risco. Com isso, os recursos são direcionados para aplicações com maiores chances de retorno imediato, o que atualmente só existe em países emergentes, que mantêm suas economias em crescimento.
O agravante do caso brasileiro é o brutal diferencial entre a taxa de juro vigente e as do mercado internacional, o que motiva operações de arbitragem. Um representante de uma multinacional informou, recentemente, que 30% do caixa de sua empresa está em investimentos financeiros no Brasil. O ingresso dessa enxurrada de recursos tem impacto direto na taxa de câmbio, agravando a apreciação do real.
Os países desenvolvidos tentam superar a grave crise econômica em que se meteram e, para isso, adotaram medidas excepcionais. Nesse ambiente em que prevalecem práticas pouco usuais e questionáveis, o governo brasileiro não pode ficar inerte, sem adotar medidas que protejam a indústria aqui instalada. É um direito do país adotar medidas que evitem, como disse a presidente Dilma, "a canibalização" de seu mercado.
É importante registrar que até mesmo instituições tradicionalmente conservadoras, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), veem a necessidade de intervenção no mercado de câmbio no atual momento. Em recente artigo, os economistas do FMI Jonathan D. Ostry, Atish R. Ghosh e Marcos Chamon defenderam que os bancos centrais de países emergentes adotem medidas com o objetivo de evitar oscilações exageradas de suas moedas, quando elas resultarem de ingresso excessivo de recursos externos no país.
Na semana passada, o governo brasileiro adotou mais uma medida para tentar conter a apreciação do real. Elevou para 6% a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) incidente em empréstimos externos com prazos de até três anos. Essa medida seria parte de um arsenal que o governo prepara para enfrentar os efeitos do "tsunami monetário". Alguns economistas sugerem a adoção do sistema de quarentena para os capitais que ingressarem no país, em que, durante um certo período, ficariam sem direito à remuneração. Outros defendem que o Fundo Soberano seja utilizado, como um auxiliar do BC, na aquisição do excesso de dólares. E outros sugerem que o governo seja mais rigoroso na análise dos empréstimos externos intercompanhias.
O resultado prático dessas medidas, no entanto, parece pouco relevante enquanto o diferencial entre a taxa de juro brasileira e as do mercado internacional continuar no nível atual. A redução dos juros ainda é o melhor caminho a ser trilhado, e o governo Dilma deve criar as condições para que isso ocorra, de forma responsável.
Lições de uma guerra cambial
Sergio Leo
Valor Econômico - 05/03/2012
Ao criar obstáculos à entrada de moeda estrangeira no país, na semana passada, o governo apontou para um dos dois temores despertados em Brasília pelo que o ministro Guido Mantega definiu como "guerra cambial". Atacou-se o receio de que o país seja inundado por dinheiro especulativo, em busca de lucros com a diferença entre o baixo custo do capital no mundo e o alto rendimento pago aos investidores no Brasil. Há dúvidas se essa ação do governo será eficaz. E há ceticismo ainda maior em relação a maneira como se tem enfrentado o outro medo em Brasília, o de invasão de importações baratas, capazes de sufocar a indústria nacional.
Não se pode acusar o governo de não ter uma agenda clara e uma rota definida para lidar com os efeitos colaterais dessa guerra cambial, caracterizada por medidas monetárias nos principais mercados do mundo que, por diferentes caminhos, resultam na desvalorização das moedas desses países, tornando seus produtos e mercados mais competitivos.
A decisão de punir com maior imposto os empréstimos internacionais às exportações partiu da avaliação de que esses financiamentos encobriam a entrada de capital para especular no mercado interno, e antecipam um repertório ainda maior de medidas punitivas e de uma possível aceleração da queda de juros.
No caso da política comercial, há integrantes do governo que, em conversas reservadas, assumem que estão dispostos a levantar barreiras a importações mesmo que contrariem compromissos internacionais do país, como as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) - como foi o caso evidente do aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), sobre automóveis importados. Admite-se quebrar as regras com o argumento de que seria ingenuidade respeitá-las quando outros governos as abandonam, e o Brasil, além disso, se defronta com competição desleal turbinada pela desvalorização excessiva dos preços de mercadorias em dólar, euros ou yuan.
As medidas protecionistas, arrumadas na prateleira da defesa comercial, na maioria dos casos, porém, são reação à demanda das empresas instaladas no país. Muitas delas são justificadas e necessárias, como as barreiras a importações com dumping, preço abaixo do normal, ou falsificações, ou ainda a mercadorias subsidiadas ilegalmente pelos seus países de origem. Um sinal de que há racionalidade e não mero protecionismo em muitas das ações nesse campo foi a decisão da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), na semana passada, de mudar as regras de comprovação de norma de origem, para facilitar - e não dificultar - a entrada de mercadorias de países asiáticos que não concedem certificados aos exportadores locais antes do embarque.
Legais ou não, porém, as medidas protecionistas são armadura de pouca resistência. Seu efeito total sobre as importações brasileiras - e, portanto, sobre as contas externas do país - é limitado. Embora tenham garantido a sobrevivência de fabricantes em setores menores, como o de escovas ou de imãs de ferrite, as noventa medidas de defesa comercial dentro das regras da OMC em vigor não chegam perto de 5% dos US$ 255 bilhões de importações registrados no ano passado. E as medidas "criativas" de maior alcance, como o aumento do IPI de automóveis, só mostraram, até agora, como é perigoso improvisar nesse terreno.
O governo, que se prepara para anunciar o novo regime automotivo, com estímulos à instalação de fábricas e criação de pesquisa e desenvolvimento no país, argumenta que os anúncios bilionários de investimento por parte de montadoras estrangeiras, nos últimos meses, são sinal do sucesso do aumento do imposto, em 30 pontos percentuais, decidido no ano passado. Uma afirmação que só pode ser repetida pelos muito governistas ou muito crédulos.
A verdade é que praticamente todos os investimentos dos fabricantes de automóveis já estavam nos planos das empresas, alguns já tinham sido até anunciados. Se o aumento do IPI teve algum efeito foi o de criar incerteza entre esses investidores.
Fala-se no governo em eliminar o aumento do imposto para quem tiver planos de investir no país, mesmo que não cumpra de imediato as exigências de conteúdo nacional - que, aliás, até agora não ganharam definição clara. Na prática, isso significa recuar da decisão sobre o IPI até para montadoras chinesas, que, afinal, também estão vindo fabricar no Brasil. Um outro reconhecimento oficial da inutilidade do aumento do IPI foi o anúncio, pelo Planalto, da possível ruptura do acordo com o México, com o qual o Brasil tem livre comércio de produtos automobilísticos.
Mesmo antes do aumento, a balança comercial já mostrava uma escalada nas importações de automóveis do México que por causa do acordo automotivo, foram isentos do aumento de IPI. E, coerente com seu anúncio de preocupação com o forte influxo de importações, o governo decidiu forçar uma redução nas vendas mexicanas ao país, desta vez para surpresa das montadoras que têm no México um pilar de suas estratégia de produção.
Assim como não quer que o vigor da economia brasileira atraia capitais especulativos tornando o país mais vulnerável aos humores internacionais, a presidente Dilma Rousseff crê que seu projeto de estimular empregos e produção no país a partir das medidas de fortalecimento do mercado interno pode ser sabotado pelo crescimento de importações. É o que explica a pulsão protecionista em Brasília. Mas já há indicações suficientes para mostrar que as importações não são uma doença. São apenas sintoma de uma moléstia de muitas causas, chamada perda de competitividade da economia brasileira.
Sergio Leo é repórter especial e escreve às segundas-feiras
Valor Econômico - 05/03/2012
Ao criar obstáculos à entrada de moeda estrangeira no país, na semana passada, o governo apontou para um dos dois temores despertados em Brasília pelo que o ministro Guido Mantega definiu como "guerra cambial". Atacou-se o receio de que o país seja inundado por dinheiro especulativo, em busca de lucros com a diferença entre o baixo custo do capital no mundo e o alto rendimento pago aos investidores no Brasil. Há dúvidas se essa ação do governo será eficaz. E há ceticismo ainda maior em relação a maneira como se tem enfrentado o outro medo em Brasília, o de invasão de importações baratas, capazes de sufocar a indústria nacional.
Não se pode acusar o governo de não ter uma agenda clara e uma rota definida para lidar com os efeitos colaterais dessa guerra cambial, caracterizada por medidas monetárias nos principais mercados do mundo que, por diferentes caminhos, resultam na desvalorização das moedas desses países, tornando seus produtos e mercados mais competitivos.
A decisão de punir com maior imposto os empréstimos internacionais às exportações partiu da avaliação de que esses financiamentos encobriam a entrada de capital para especular no mercado interno, e antecipam um repertório ainda maior de medidas punitivas e de uma possível aceleração da queda de juros.
No caso da política comercial, há integrantes do governo que, em conversas reservadas, assumem que estão dispostos a levantar barreiras a importações mesmo que contrariem compromissos internacionais do país, como as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) - como foi o caso evidente do aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), sobre automóveis importados. Admite-se quebrar as regras com o argumento de que seria ingenuidade respeitá-las quando outros governos as abandonam, e o Brasil, além disso, se defronta com competição desleal turbinada pela desvalorização excessiva dos preços de mercadorias em dólar, euros ou yuan.
As medidas protecionistas, arrumadas na prateleira da defesa comercial, na maioria dos casos, porém, são reação à demanda das empresas instaladas no país. Muitas delas são justificadas e necessárias, como as barreiras a importações com dumping, preço abaixo do normal, ou falsificações, ou ainda a mercadorias subsidiadas ilegalmente pelos seus países de origem. Um sinal de que há racionalidade e não mero protecionismo em muitas das ações nesse campo foi a decisão da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), na semana passada, de mudar as regras de comprovação de norma de origem, para facilitar - e não dificultar - a entrada de mercadorias de países asiáticos que não concedem certificados aos exportadores locais antes do embarque.
Legais ou não, porém, as medidas protecionistas são armadura de pouca resistência. Seu efeito total sobre as importações brasileiras - e, portanto, sobre as contas externas do país - é limitado. Embora tenham garantido a sobrevivência de fabricantes em setores menores, como o de escovas ou de imãs de ferrite, as noventa medidas de defesa comercial dentro das regras da OMC em vigor não chegam perto de 5% dos US$ 255 bilhões de importações registrados no ano passado. E as medidas "criativas" de maior alcance, como o aumento do IPI de automóveis, só mostraram, até agora, como é perigoso improvisar nesse terreno.
O governo, que se prepara para anunciar o novo regime automotivo, com estímulos à instalação de fábricas e criação de pesquisa e desenvolvimento no país, argumenta que os anúncios bilionários de investimento por parte de montadoras estrangeiras, nos últimos meses, são sinal do sucesso do aumento do imposto, em 30 pontos percentuais, decidido no ano passado. Uma afirmação que só pode ser repetida pelos muito governistas ou muito crédulos.
A verdade é que praticamente todos os investimentos dos fabricantes de automóveis já estavam nos planos das empresas, alguns já tinham sido até anunciados. Se o aumento do IPI teve algum efeito foi o de criar incerteza entre esses investidores.
Fala-se no governo em eliminar o aumento do imposto para quem tiver planos de investir no país, mesmo que não cumpra de imediato as exigências de conteúdo nacional - que, aliás, até agora não ganharam definição clara. Na prática, isso significa recuar da decisão sobre o IPI até para montadoras chinesas, que, afinal, também estão vindo fabricar no Brasil. Um outro reconhecimento oficial da inutilidade do aumento do IPI foi o anúncio, pelo Planalto, da possível ruptura do acordo com o México, com o qual o Brasil tem livre comércio de produtos automobilísticos.
Mesmo antes do aumento, a balança comercial já mostrava uma escalada nas importações de automóveis do México que por causa do acordo automotivo, foram isentos do aumento de IPI. E, coerente com seu anúncio de preocupação com o forte influxo de importações, o governo decidiu forçar uma redução nas vendas mexicanas ao país, desta vez para surpresa das montadoras que têm no México um pilar de suas estratégia de produção.
Assim como não quer que o vigor da economia brasileira atraia capitais especulativos tornando o país mais vulnerável aos humores internacionais, a presidente Dilma Rousseff crê que seu projeto de estimular empregos e produção no país a partir das medidas de fortalecimento do mercado interno pode ser sabotado pelo crescimento de importações. É o que explica a pulsão protecionista em Brasília. Mas já há indicações suficientes para mostrar que as importações não são uma doença. São apenas sintoma de uma moléstia de muitas causas, chamada perda de competitividade da economia brasileira.
Sergio Leo é repórter especial e escreve às segundas-feiras
Governo não assistirá 'impassível' a guerra cambial, diz Mantega
01/03/2012 11h04 - Atualizado em 01/03/2012 11h39
Alexandro Martello
Do G1, em Brasília
Segundo ele, dólar entre R$ 1,50 e R$ 1,60 é 'ruim' para o Brasil.
Informou, porém, que governo não cogita taxar investimento estrangeiro.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou nesta quinta-feira (1) que o governo não ficará assistindo "impassível" (sem fazer nada) a guerra cambial que gera a queda do dólar, encarecendo as exportações brasileira e tornando as compras do exterior mais baratas. Foi publicado nesta quinta-feira (1º) no "Diário Oficial da União" um decreto que aumenta o prazo de incidência do Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF) com alíquota majorada de 6% sobre empréstimos no exterior de dois para três anos.
"Estamos desestimulando a entrada de capital de mais curto prazo no Brasil. Se deve ao fato de que, hoje, há uma grande sobra de liquidez no mercado internacional. Está sobrando dinheiro", disse ele.
Para enfrentar a crise, segundo o ministro, os países considerados mais desenvolvidos estão "emitindo dinheiro". "Não vai para o consumidor. Vai para o setor financeiro, que tem de aplicar este recurso. Como as oportunidades nos países avançados são pequenas, pois não estão crescendo, uma parte vem para os emergentes mais sólidos. Está havendo um ingresso de capital externo no Brasil", explicou Mantega, lembrando que as taxas de juros são mais elevadas no Brasil, possibilitando um ganho em operações de "arbitragem".
De acordo com o ministro da Fazenda, essa ação de países desenvolvimentos, de injetar liquidez nos mercados, caracteriza a chamada "guerra cambial" - expressão cunhada pelo próprio Guido Mantega. "A politica de expansão monetária desvaloriza moedas de outros países e valoriza moeda do Brasil. O governo não ficará assistindo impassível à guerra cambial. Temos de nos defender", afirmou.
Compras de dólares
Ele lembrou que o governo brasileiro, por meio do Banco Central, tem comprado o "excesso" de dólares que vem ingressando no mercado doméstico.
"O BC tem comprado em leilões diários. A tomada de crédito lá fora é em grande escala. Estamos penalizando quando o crédito é de curto prazo. O governo continuará tomando medidas para impedir que o real se valorize, prejudicando as exportações brasileiras", disse ele.
Ao comprar dólares, o governo atua para impedir uma queda maior da cotação da moeda norte-americana. Na avaliação do ministro, um dólar entre R$ 1,50 e R$ 1,60, que vigorou no país, por exemplo, no primeiro semestre de 2011, é "ruim" para a economia brasileira, uma vez que encarece as exportações e barateira os produtos comprados no exterior. Atualmente, a taxa está um pouco acima de R$ 1,70.
"Dólar a R$ 1,50 ou R$ 1,60 é ruim para a economia brasileira. É ruim para a indústria. É ruim para a exportação. Dólar em R$ 1,80 é melhor do que em R$ 1,50. Não estamos buscando nem R$ 1,70 ou R$ 1,80. Gostamos da modalidade de câmbio flutuante. É bom que flutue", concluiu ele.
Sem taxação de investimentos estrangeiros
Mantega acrescentou, porém, que a equipe econômica não cogita taxar os investimentos estrangeiros diretos, que vêm ao Brasil para estimular a produção no país. "O governo não cogita taxar o investimento estrangeiro. Não estamos identificando nenhuma anormalidade nestes investimentos, que geram emprego, paga impostos. É saudável e desejável", declarou.
Alexandro Martello
Do G1, em Brasília
Segundo ele, dólar entre R$ 1,50 e R$ 1,60 é 'ruim' para o Brasil.
Informou, porém, que governo não cogita taxar investimento estrangeiro.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou nesta quinta-feira (1) que o governo não ficará assistindo "impassível" (sem fazer nada) a guerra cambial que gera a queda do dólar, encarecendo as exportações brasileira e tornando as compras do exterior mais baratas. Foi publicado nesta quinta-feira (1º) no "Diário Oficial da União" um decreto que aumenta o prazo de incidência do Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF) com alíquota majorada de 6% sobre empréstimos no exterior de dois para três anos.
"Estamos desestimulando a entrada de capital de mais curto prazo no Brasil. Se deve ao fato de que, hoje, há uma grande sobra de liquidez no mercado internacional. Está sobrando dinheiro", disse ele.
Para enfrentar a crise, segundo o ministro, os países considerados mais desenvolvidos estão "emitindo dinheiro". "Não vai para o consumidor. Vai para o setor financeiro, que tem de aplicar este recurso. Como as oportunidades nos países avançados são pequenas, pois não estão crescendo, uma parte vem para os emergentes mais sólidos. Está havendo um ingresso de capital externo no Brasil", explicou Mantega, lembrando que as taxas de juros são mais elevadas no Brasil, possibilitando um ganho em operações de "arbitragem".
De acordo com o ministro da Fazenda, essa ação de países desenvolvimentos, de injetar liquidez nos mercados, caracteriza a chamada "guerra cambial" - expressão cunhada pelo próprio Guido Mantega. "A politica de expansão monetária desvaloriza moedas de outros países e valoriza moeda do Brasil. O governo não ficará assistindo impassível à guerra cambial. Temos de nos defender", afirmou.
Compras de dólares
Ele lembrou que o governo brasileiro, por meio do Banco Central, tem comprado o "excesso" de dólares que vem ingressando no mercado doméstico.
"O BC tem comprado em leilões diários. A tomada de crédito lá fora é em grande escala. Estamos penalizando quando o crédito é de curto prazo. O governo continuará tomando medidas para impedir que o real se valorize, prejudicando as exportações brasileiras", disse ele.
Ao comprar dólares, o governo atua para impedir uma queda maior da cotação da moeda norte-americana. Na avaliação do ministro, um dólar entre R$ 1,50 e R$ 1,60, que vigorou no país, por exemplo, no primeiro semestre de 2011, é "ruim" para a economia brasileira, uma vez que encarece as exportações e barateira os produtos comprados no exterior. Atualmente, a taxa está um pouco acima de R$ 1,70.
"Dólar a R$ 1,50 ou R$ 1,60 é ruim para a economia brasileira. É ruim para a indústria. É ruim para a exportação. Dólar em R$ 1,80 é melhor do que em R$ 1,50. Não estamos buscando nem R$ 1,70 ou R$ 1,80. Gostamos da modalidade de câmbio flutuante. É bom que flutue", concluiu ele.
Sem taxação de investimentos estrangeiros
Mantega acrescentou, porém, que a equipe econômica não cogita taxar os investimentos estrangeiros diretos, que vêm ao Brasil para estimular a produção no país. "O governo não cogita taxar o investimento estrangeiro. Não estamos identificando nenhuma anormalidade nestes investimentos, que geram emprego, paga impostos. É saudável e desejável", declarou.
Brasil quer discutir guerra cambial na reunião da OMC
O Estado de S. Paulo - 13/12/2011
Desafiando a resistência dos Estados Unidos e da China, o governo brasileiro vai levar a bandeira da "guerra do câmbio" à reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) que ocorre nesta semana em Genebra.
Amanhã, os ministros de Relações Exteriores, Antonio Patriota, e do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, desembarcam em Genebra. O governo será fortemente pressionado por países ricos, que insistem que um compromisso deve ser fechado para impedir governos a elevar tarifas de importação e promover um congelamento dos impostos de aduanas nos níveis atuais. O Brasil rejeita a proposta.
A reunião ministerial da OMC, tida em outros momentos com um dos principais acontecimentos políticos a cada dois anos, é um evento que não consegue atrair nem mesmo ministros. No evento, nada será decidido e a negociação da Rodada Doha sequer entrará na agenda. Na última contagem feita pela organização, pouco mais de 60 dos 152 países que fazem parte da entidade mandariam seus ministros para Genebra.
Com a Rodada Doha em um impasse há anos e sem perspectivas de um acordo, muitos governos dão sinais de estarem ignorando a OMC. Mas as principais potências - como Brasil, UE, China e Estados Unidos - travam uma batalha para definir justamente qual será o perfil da OMC diante da constatação do enterro da Rodada Doha.
O governo brasileiro chega comprometido a mostrar que não há mais como ignorar a questão do câmbio e como a variação da moeda afeta a competitividade de exportações. O Itamaraty chegou a propor que o texto final da reunião ministerial tratasse do assunto, mas foi bloqueado por Washington e Pequim, dois governos que, por motivos opostos, não querem nem ouvir falar do assunto na OMC.
O real valorizado prejudicou as exportações nacionais e permitiu que produtos estrangeiros entrassem no mercado nacional a preços mais baixos. Vários outros governos vivem a mesma situação por causa da desvalorização do dólar. O Brasil conseguiu convencer a entidade a aprovar um plano para debater o assunto dentro da entidade. O primeiro passo seria a realização de um seminário em 2012, sem valor legal e que também não compromete a OMC de tomar decisões. Agora, Brasília vai aproveitar a reunião ministerial da OMC para mandar seu recado.
Congelamento. Mas o Brasil não chega a Genebra apenas para pressionar. A partir de amanhã, será fortemente colocado em alta tensão pelos países ricos. Europeus, americanos, australianos e outros governos da OCDE estão costurando uma aliança para garantir que 50 países usem a reunião da OMC para declarar seu compromissos com o congelamento de todas as tarifas de importação.
O Brasil e outros países emergentes defendem o direito de elevar impostos até as taxas autorizadas sempre que sentirem que a medida é necessária. O combate ao protecionismo tem sido uma das bandeiras da OMC e do G-20 e, desde as primeiras cúpulas, declarações foram feitas de que governos não recorreriam a barreiras como forma de solucionar crises. O problema é que ninguém cumpriu o prometido.
Agora, os países ricos, que sofrem uma estagnação preocupante, querem tentar estabelecer alguma garantia de que continuarão a ter acesso aos mercados dos países emergentes, os únicos que seguem crescendo.
Para o Brasil, porém, aceitar a proposta seria abrir mão de instrumentos que hoje pode usar de forma legal e sem violar as leis da OMC. Os impostos de importação aplicados pelo Brasil atualmente são de cerca de 12%. Mas o País manteve seu direito na OMC de elevar tarifas até 35%. Esse espaço foi defendido por anos como margem de manobra do governo e, recentemente, foi usado e permitiu que a elevação de barreiras promovidas não ferissem as regras internacionais.
Nos últimos dois anos, mais de mil linhas tarifárias foram elevadas no Brasil, de um total de 9 mil que o País conta. Mas nada disso pode ser questionado pelos parceiros comerciais, já que o novo nível ficou ainda dentro dos 35% autorizados pela OMC. Pela declaração proposta pelos americanos, esse direito seria abolido.
Desafiando a resistência dos Estados Unidos e da China, o governo brasileiro vai levar a bandeira da "guerra do câmbio" à reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) que ocorre nesta semana em Genebra.
Amanhã, os ministros de Relações Exteriores, Antonio Patriota, e do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, desembarcam em Genebra. O governo será fortemente pressionado por países ricos, que insistem que um compromisso deve ser fechado para impedir governos a elevar tarifas de importação e promover um congelamento dos impostos de aduanas nos níveis atuais. O Brasil rejeita a proposta.
A reunião ministerial da OMC, tida em outros momentos com um dos principais acontecimentos políticos a cada dois anos, é um evento que não consegue atrair nem mesmo ministros. No evento, nada será decidido e a negociação da Rodada Doha sequer entrará na agenda. Na última contagem feita pela organização, pouco mais de 60 dos 152 países que fazem parte da entidade mandariam seus ministros para Genebra.
Com a Rodada Doha em um impasse há anos e sem perspectivas de um acordo, muitos governos dão sinais de estarem ignorando a OMC. Mas as principais potências - como Brasil, UE, China e Estados Unidos - travam uma batalha para definir justamente qual será o perfil da OMC diante da constatação do enterro da Rodada Doha.
O governo brasileiro chega comprometido a mostrar que não há mais como ignorar a questão do câmbio e como a variação da moeda afeta a competitividade de exportações. O Itamaraty chegou a propor que o texto final da reunião ministerial tratasse do assunto, mas foi bloqueado por Washington e Pequim, dois governos que, por motivos opostos, não querem nem ouvir falar do assunto na OMC.
O real valorizado prejudicou as exportações nacionais e permitiu que produtos estrangeiros entrassem no mercado nacional a preços mais baixos. Vários outros governos vivem a mesma situação por causa da desvalorização do dólar. O Brasil conseguiu convencer a entidade a aprovar um plano para debater o assunto dentro da entidade. O primeiro passo seria a realização de um seminário em 2012, sem valor legal e que também não compromete a OMC de tomar decisões. Agora, Brasília vai aproveitar a reunião ministerial da OMC para mandar seu recado.
Congelamento. Mas o Brasil não chega a Genebra apenas para pressionar. A partir de amanhã, será fortemente colocado em alta tensão pelos países ricos. Europeus, americanos, australianos e outros governos da OCDE estão costurando uma aliança para garantir que 50 países usem a reunião da OMC para declarar seu compromissos com o congelamento de todas as tarifas de importação.
O Brasil e outros países emergentes defendem o direito de elevar impostos até as taxas autorizadas sempre que sentirem que a medida é necessária. O combate ao protecionismo tem sido uma das bandeiras da OMC e do G-20 e, desde as primeiras cúpulas, declarações foram feitas de que governos não recorreriam a barreiras como forma de solucionar crises. O problema é que ninguém cumpriu o prometido.
Agora, os países ricos, que sofrem uma estagnação preocupante, querem tentar estabelecer alguma garantia de que continuarão a ter acesso aos mercados dos países emergentes, os únicos que seguem crescendo.
Para o Brasil, porém, aceitar a proposta seria abrir mão de instrumentos que hoje pode usar de forma legal e sem violar as leis da OMC. Os impostos de importação aplicados pelo Brasil atualmente são de cerca de 12%. Mas o País manteve seu direito na OMC de elevar tarifas até 35%. Esse espaço foi defendido por anos como margem de manobra do governo e, recentemente, foi usado e permitiu que a elevação de barreiras promovidas não ferissem as regras internacionais.
Nos últimos dois anos, mais de mil linhas tarifárias foram elevadas no Brasil, de um total de 9 mil que o País conta. Mas nada disso pode ser questionado pelos parceiros comerciais, já que o novo nível ficou ainda dentro dos 35% autorizados pela OMC. Pela declaração proposta pelos americanos, esse direito seria abolido.
EUA e China bloqueiam 'guerra cambial' na OMC
Autor(es): JAMIL CHADE
O Estado de S. Paulo - 30/11/2011
Por pressão brasileira, tema faria parte do próximo encontro da entidade, mas Casa Branca e Pequim são "totalmente contra" a proposta
Estados Unidos e China bloqueiam a tentativa brasileira de incluir na agenda da reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) a "guerra cambial" e o impacto das flutuações de moedas para as exportações e importações.
O encontro ocorre a partir do dia 14 de dezembro em Genebra, com a presença do chanceler brasileiro, Antonio Patriota. Já a proposta da Casa Branca de sugerir um congelamento de todas as tarifas de importação foi rejeitada pelo Brasil e outros países emergentes, que defendem o direito de elevar impostos até as taxas autorizadas pela organização sempre que sentirem que a medida é necessária.
A OMC vive seu pior momento, sem saber que rumo dar à Rodada Doha e sem conseguir fechar nenhum tipo de acordo entre países sobre temas comerciais. Na reunião ministerial em três semanas, as divergências ficarão mais uma vez claras. Não haverá declaração final, mas apenas um resumo das discussões por falta de consenso.
Um dos pontos principais de conflito é a questão cambial. Nos últimos meses, o governo brasileiro lançou uma campanha para forçar a entidade a lidar com o impacto do câmbio para o comércio. O real valorizado prejudicou as exportações nacionais e permitiu que produtos estrangeiros entrassem no mercado nacional a preços mais baixos. Vários outros governos vivem a mesma situação por conta da desvalorização do dólar.
Guido Mantega, ministro da Fazenda, chegou a conversar com o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, na cúpula do G-20, na França. O Brasil conseguiu convencer a entidade a aprovar um plano para debater o assunto dentro no âmbito da OMC. O primeiro passo seria a realização de um seminário em 2012, sem valor legal e que não comprometeria a OMC a tomar decisões.
Brasília, porém, queria aproveitar a reunião ministerial da organização, que ocorre apenas a cada dois anos, para dar destaque ao assunto e elevar o perfil do debate. A proposta do Itamaraty era a de incluir um parágrafo no documento final apontando que o tema havia sido tratado.
Fontes europeias confirmaram ao Estado que a Casa Branca se colocou "totalmente contra" a proposta. O temor é de que o dólar acabe sendo apontado como o responsável por problemas vividos por outros governos.
A negativa dos Estados Unidos, porém, não significa que o assunto esteja sendo enterrado. O Brasil poderá levantar o tema no discurso que Patriota fará durante o evento. Além disso, o governo insiste que esse debate já faz parte da agenda da OMC para 2012 e que, portanto, tem garantias de que a relação entre o câmbio e o comércio será abordada.
A China, por sua vez, também rejeita ser alvo de pressões por causa de sua moeda e passou os últimos dias minando as chances de a proposta brasileira ser aprovada. Pequim reitera que a definição do yuan cabe ao governo chinês e que uma mudança cambial no valor da moeda ocorrerá no médio e longo prazos.
O Brasil também fez questão de bombardear a proposta americana de adotar um compromisso legal de que todas as tarifas de importação fossem congeladas. O combate ao protecionismo tem sido uma das bandeiras da OMC e do G-20. Desde as primeiras cúpulas, declarações foram feitas de que governos não recorreriam a barreiras como forma de solucionar suas crises. O problema é que ninguém cumpriu o prometido. Agora, os países ricos estagnados querem um acordo para que os emergentes continuem com os mercados abertos.
O Estado de S. Paulo - 30/11/2011
Por pressão brasileira, tema faria parte do próximo encontro da entidade, mas Casa Branca e Pequim são "totalmente contra" a proposta
Estados Unidos e China bloqueiam a tentativa brasileira de incluir na agenda da reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) a "guerra cambial" e o impacto das flutuações de moedas para as exportações e importações.
O encontro ocorre a partir do dia 14 de dezembro em Genebra, com a presença do chanceler brasileiro, Antonio Patriota. Já a proposta da Casa Branca de sugerir um congelamento de todas as tarifas de importação foi rejeitada pelo Brasil e outros países emergentes, que defendem o direito de elevar impostos até as taxas autorizadas pela organização sempre que sentirem que a medida é necessária.
A OMC vive seu pior momento, sem saber que rumo dar à Rodada Doha e sem conseguir fechar nenhum tipo de acordo entre países sobre temas comerciais. Na reunião ministerial em três semanas, as divergências ficarão mais uma vez claras. Não haverá declaração final, mas apenas um resumo das discussões por falta de consenso.
Um dos pontos principais de conflito é a questão cambial. Nos últimos meses, o governo brasileiro lançou uma campanha para forçar a entidade a lidar com o impacto do câmbio para o comércio. O real valorizado prejudicou as exportações nacionais e permitiu que produtos estrangeiros entrassem no mercado nacional a preços mais baixos. Vários outros governos vivem a mesma situação por conta da desvalorização do dólar.
Guido Mantega, ministro da Fazenda, chegou a conversar com o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, na cúpula do G-20, na França. O Brasil conseguiu convencer a entidade a aprovar um plano para debater o assunto dentro no âmbito da OMC. O primeiro passo seria a realização de um seminário em 2012, sem valor legal e que não comprometeria a OMC a tomar decisões.
Brasília, porém, queria aproveitar a reunião ministerial da organização, que ocorre apenas a cada dois anos, para dar destaque ao assunto e elevar o perfil do debate. A proposta do Itamaraty era a de incluir um parágrafo no documento final apontando que o tema havia sido tratado.
Fontes europeias confirmaram ao Estado que a Casa Branca se colocou "totalmente contra" a proposta. O temor é de que o dólar acabe sendo apontado como o responsável por problemas vividos por outros governos.
A negativa dos Estados Unidos, porém, não significa que o assunto esteja sendo enterrado. O Brasil poderá levantar o tema no discurso que Patriota fará durante o evento. Além disso, o governo insiste que esse debate já faz parte da agenda da OMC para 2012 e que, portanto, tem garantias de que a relação entre o câmbio e o comércio será abordada.
A China, por sua vez, também rejeita ser alvo de pressões por causa de sua moeda e passou os últimos dias minando as chances de a proposta brasileira ser aprovada. Pequim reitera que a definição do yuan cabe ao governo chinês e que uma mudança cambial no valor da moeda ocorrerá no médio e longo prazos.
O Brasil também fez questão de bombardear a proposta americana de adotar um compromisso legal de que todas as tarifas de importação fossem congeladas. O combate ao protecionismo tem sido uma das bandeiras da OMC e do G-20. Desde as primeiras cúpulas, declarações foram feitas de que governos não recorreriam a barreiras como forma de solucionar suas crises. O problema é que ninguém cumpriu o prometido. Agora, os países ricos estagnados querem um acordo para que os emergentes continuem com os mercados abertos.
Suíça deflagra nova fase da 'guerra cambial'
Valor Econômico - 08/09/2011
Por Assis Moreira | De Genebra
A decisão do Banco Nacional Suíço (o BC local) de fixar limite mínimo para a cotação do franco suíço em relação ao euro, poderá ter consequências de longo alcance nos mercados globais de divisas. E também intensificar a chamada guerra de moedas, avaliam analistas.
O BC suíço abandonou na prática o regime de câmbio flutuante, ao estabelecer que "não mais tolerará" uma taxa abaixo de 1,20 franco por euro. Declarou-se pronto a comprar divisas em "quantidade ilimitada" para lutar contra a excessiva valorização da moeda helvética.
A expectativa é de que também o Banco do Japão deverá fazer novas intervenções para baixar o valor de sua moeda, embora ninguém espere que BC japonês chegue ao extremo suíço.
Essas ações e eventual QE3 nos EUA podem levar a mais fluxos de capital para regiões em crescimento, e deflagrar uma nova fase na guerra das moedas, com emergentes procurando proteger seus exportadores, limitando os efeitos de valorização real de suas moedas também com intervenções ou mais controle de capital.
Para o estrategista chefe de moedas do UBS, Mansoor Mohi-Uddin, a ação do BC suíço poderá trazer três grandes mudanças nos mercados de câmbio. Primeiro, a Suíça começará a perder seu status de "refúgio". Segundo, as reservas internacionais do BC suíço vão crescer ainda mais. E, terceiro, mesmo o dólar poderá voltar a ser procurado por investidores adversos a risco.
A "opção nuclear" escolhida pelo BC suíço desafia a lógica dos mercados financeiros que procuram refúgio para se proteger de uma zona euro ameaçada de implosão e de um dólar duramente afetado pela dívida e déficit americano. Para o analista Pierre Vaya, o banco suíço julgou que a zona euro e a economia americana não oferecem no mais nenhuma segurança de recuperar a estabilidade no médio prazo.
O BC suíço tentou de tudo para evitar a medida radical. Fez intervenções de mais de € 200 bilhões entre março de 2009 e maio de 2010, mas o franco continuou valorizando, atraindo investidores em busca de refúgio seguro. Nas últimas semanas, as intervenções se multiplicaram. No começo de agosto, o BC jogou 50 bilhões de francos de liquidez nos mercados monetários, além dos 30 bilhões de francos já em circulação. Uma semana mais tarde, outros 80 bilhões de francos foram injetados. Esse montante superou o nível de liquidez emitida no auge da crise financeira, no início de 2009, quando o UBS ameaçava desmoronar e atingir a economia inteira do país.
Pela segunda vez desde os anos 70 a Suíça passou a ter taxa de juro negativa. Quem quer efetuar um depósito na moeda helvética, deve pagar por "esse privilégio", como diz um analista. Enquanto os rendimentos de títulos de dívida de países europeus em crise passam dos 10%, quem compra bônus suíços de dois anos tem juro de -0,01%.
O compromisso assumido pelo BC suíço - e disso dependerá sua credibilidade - é de ter um limite fixo do câmbio entre franco e euro custe o que custar. A seu favor, o BC suíço pode imprimir o montante que quiser de francos sem se preocupar com riscos inflacionários, pelo menos no momento. O país não enfrenta problemas de constrangimento orçamentário, por exemplo. Mas o sucesso da operação dependerá da zona do euro. Se a crise da dívida soberana piorar e a demanda por ativos seguros aumentar, a batalha poderá ser especialmente custosa.
"Parece que as autoridades suíças agora veem as perdas potenciais com intervenções como valendo o custo se a ação protege exportadores e a economia em geral de valorização excessiva da moeda", nota Emile Cardon, do Rabobank.
Para o UBS, a politica monetária expansionista e as novas intervenções no mercado de divisas trazem um risco de inflação importante no longo prazo. O banco revisou para baixo suas previsões conjunturais.
Diante da persistente força do franco - a indústria quer que a cotação chegue a 1,40 franco por euro -, a estimativa de crescimento econômico de 2,7% caiu para 2% este ano, e de 2,2% para 1,3% ano que vem. A inflação sobe para 0,3% este ano e acelera para 1,3% ano que vem.
Para analistas, a ação do BC suíço poderá detonar uma onda de medidas parecidas em outros países. A Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) defendeu que o governo brasileiro também altere seu regime de câmbio flutuante para um administrado pelo Banco Central (BC). A sugestão não cabe apenas ao Brasil, mas a todos os países emergentes que sofrem com o forte ingresso de capitais estrangeiros, que tem ampliado a valorização cambial.
Mas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, avalia que é melhor para o Brasil seguir com o câmbio flutuante, ao invés de adotar decisão similar a da Suiça para conter a valorização de sua moeda. Para ele, o caso suíço reflete uma situação de desespero, e ele tem dúvidas se o país tem lastro para rechaçar um ataque especulativo. (Colaborou Azelma Rodrigues)
Por Assis Moreira | De Genebra
A decisão do Banco Nacional Suíço (o BC local) de fixar limite mínimo para a cotação do franco suíço em relação ao euro, poderá ter consequências de longo alcance nos mercados globais de divisas. E também intensificar a chamada guerra de moedas, avaliam analistas.
O BC suíço abandonou na prática o regime de câmbio flutuante, ao estabelecer que "não mais tolerará" uma taxa abaixo de 1,20 franco por euro. Declarou-se pronto a comprar divisas em "quantidade ilimitada" para lutar contra a excessiva valorização da moeda helvética.
A expectativa é de que também o Banco do Japão deverá fazer novas intervenções para baixar o valor de sua moeda, embora ninguém espere que BC japonês chegue ao extremo suíço.
Essas ações e eventual QE3 nos EUA podem levar a mais fluxos de capital para regiões em crescimento, e deflagrar uma nova fase na guerra das moedas, com emergentes procurando proteger seus exportadores, limitando os efeitos de valorização real de suas moedas também com intervenções ou mais controle de capital.
Para o estrategista chefe de moedas do UBS, Mansoor Mohi-Uddin, a ação do BC suíço poderá trazer três grandes mudanças nos mercados de câmbio. Primeiro, a Suíça começará a perder seu status de "refúgio". Segundo, as reservas internacionais do BC suíço vão crescer ainda mais. E, terceiro, mesmo o dólar poderá voltar a ser procurado por investidores adversos a risco.
A "opção nuclear" escolhida pelo BC suíço desafia a lógica dos mercados financeiros que procuram refúgio para se proteger de uma zona euro ameaçada de implosão e de um dólar duramente afetado pela dívida e déficit americano. Para o analista Pierre Vaya, o banco suíço julgou que a zona euro e a economia americana não oferecem no mais nenhuma segurança de recuperar a estabilidade no médio prazo.
O BC suíço tentou de tudo para evitar a medida radical. Fez intervenções de mais de € 200 bilhões entre março de 2009 e maio de 2010, mas o franco continuou valorizando, atraindo investidores em busca de refúgio seguro. Nas últimas semanas, as intervenções se multiplicaram. No começo de agosto, o BC jogou 50 bilhões de francos de liquidez nos mercados monetários, além dos 30 bilhões de francos já em circulação. Uma semana mais tarde, outros 80 bilhões de francos foram injetados. Esse montante superou o nível de liquidez emitida no auge da crise financeira, no início de 2009, quando o UBS ameaçava desmoronar e atingir a economia inteira do país.
Pela segunda vez desde os anos 70 a Suíça passou a ter taxa de juro negativa. Quem quer efetuar um depósito na moeda helvética, deve pagar por "esse privilégio", como diz um analista. Enquanto os rendimentos de títulos de dívida de países europeus em crise passam dos 10%, quem compra bônus suíços de dois anos tem juro de -0,01%.
O compromisso assumido pelo BC suíço - e disso dependerá sua credibilidade - é de ter um limite fixo do câmbio entre franco e euro custe o que custar. A seu favor, o BC suíço pode imprimir o montante que quiser de francos sem se preocupar com riscos inflacionários, pelo menos no momento. O país não enfrenta problemas de constrangimento orçamentário, por exemplo. Mas o sucesso da operação dependerá da zona do euro. Se a crise da dívida soberana piorar e a demanda por ativos seguros aumentar, a batalha poderá ser especialmente custosa.
"Parece que as autoridades suíças agora veem as perdas potenciais com intervenções como valendo o custo se a ação protege exportadores e a economia em geral de valorização excessiva da moeda", nota Emile Cardon, do Rabobank.
Para o UBS, a politica monetária expansionista e as novas intervenções no mercado de divisas trazem um risco de inflação importante no longo prazo. O banco revisou para baixo suas previsões conjunturais.
Diante da persistente força do franco - a indústria quer que a cotação chegue a 1,40 franco por euro -, a estimativa de crescimento econômico de 2,7% caiu para 2% este ano, e de 2,2% para 1,3% ano que vem. A inflação sobe para 0,3% este ano e acelera para 1,3% ano que vem.
Para analistas, a ação do BC suíço poderá detonar uma onda de medidas parecidas em outros países. A Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) defendeu que o governo brasileiro também altere seu regime de câmbio flutuante para um administrado pelo Banco Central (BC). A sugestão não cabe apenas ao Brasil, mas a todos os países emergentes que sofrem com o forte ingresso de capitais estrangeiros, que tem ampliado a valorização cambial.
Mas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, avalia que é melhor para o Brasil seguir com o câmbio flutuante, ao invés de adotar decisão similar a da Suiça para conter a valorização de sua moeda. Para ele, o caso suíço reflete uma situação de desespero, e ele tem dúvidas se o país tem lastro para rechaçar um ataque especulativo. (Colaborou Azelma Rodrigues)
EUA estão sendo usados para driblar barreiras do Brasil, diz Mantega
Autor(es): Fernando Exman | De Brasília
Valor Econômico - 27/07/2011
O governo não se deixará vencer pela guerra cambial e está de olho nos países exportadores que usam terceiros mercados, inclusive os Estados Unidos, para driblar as barreiras impostas aos produtos que chegam ao Brasil com preços desleais, disse ontem o ministro da Fazenda, Guido Mantega.Ele demonstrou apreensão em relação ao cenário financeiro global e disse que o crescimento da economia brasileira é sustentável. Reiterou que a defesa comercial é uma prioridade do Executivo, que tomará "medidas importantes nesse campo".
"Até os Estados Unidos estão sendo usados como país de triangulação de exportações para o Brasil. A mercadoria sai de um determinado país, vai para os EUA, muda de etiqueta e vem para o Brasil como se fosse uma mercadoria americana. Talvez por isso os EUA estejam com um superávit comercial em relação ao Brasil", disse na segunda reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social no governo Dilma Rousseff.
"Não vamos deixar a guerra cambial nos derrotar com desvalorizações artificiais das taxas de câmbio de outros países. Estaremos atuando na área de política cambial, estamos intensificando a defesa comercial do país", acrescentou o ministro, que concentrou sua exposição na complexidade do cenário externo atual.
Empresários presentes, no entanto, criticaram, sob a condição do anonimato, a demora do governo em adotar medidas efetivas de defesa comercial. De janeiro a junho deste ano, a balança comercial entre o Brasil e os EUA apresentou um déficit de US$ 4 bilhões. Houve déficit também negativo em 2010 (US$ 7,7 bilhões) e 2009 (US$ 4,4 bilhões). De 2000 a 2008, no entanto, a balança comercial bilateral foi superavitária para o Brasil.
Mantega afirmou que um eventual fracasso do governo de Barack Obama na tentativa de chegar a um acordo com o Congresso para elevar o teto do endividamento do país teria efeitos negativos na economia mundial. "Seria uma grande insensatez se não se conseguisse superar essa situação. Acredito na resolução, mas confesso minha apreensão pelo rumo que as coisas estão tomando. Espero que haja sensatez ao fim desta semana e que a coisa se resolva."
Ele disse ainda que a crise financeira dos países europeus vive nova fase: passou de privada dos bancos para soberana. E ponderou que a conjuntura internacional pode atrapalhar os países em desenvolvimento, mas não a ponto de prejudicar o crescimento das suas economias. Ressaltou, entretanto, que o crescimento da economia nacional se mantém sustentável devido à solidez das contas públicas e o aumento da demanda doméstica. Mantega negou que a economia esteja superaquecida e descartou a existência de uma bolha de crédito no setor imobiliário.
Empresários presentes na reunião reforçaram os apelos por medidas concretas de auxílio à indústria, na medida em que segue o cabo de guerra entre os ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento acerca das desonerações tributárias a serem incluídas no pacote de medidas para elevar a competitividade do produto nacional.
Presidente do Conselho de Administração da Gerdau, Jorge Gerdau Johannpeter afirmou que "já está acontecendo" um processo de desindustrialização no Brasil. Ele ponderou que o país mantém uma cultura de trabalhar com um cenário de falta de divisas e dólares e, por isso, precisa se adaptar à atual conjuntura de maior oferta da moeda americana no mercado doméstico. Ele defendeu, por exemplo, que o governo amplie o uso de mecanismos tributários que contenham o ingresso de capitais.
"Se queremos um país desenvolvido, precisaremos ter uma indústria desenvolvida. Do modo que estamos, estamos prejudicando o desenvolvimento industrial", afirmou Gerdau depois da a reunião do Conselhão.
O presidente da Federação da Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, reforçou o coro. Lembrou que a competitividade dos produtos brasileiros vem sendo corroída pelas altas taxas de juros, falta de reformas estruturais e problemas de infraestrutura. "A indústria está passando uma fase muito perigosa", alertou Skaf.
Valor Econômico - 27/07/2011
O governo não se deixará vencer pela guerra cambial e está de olho nos países exportadores que usam terceiros mercados, inclusive os Estados Unidos, para driblar as barreiras impostas aos produtos que chegam ao Brasil com preços desleais, disse ontem o ministro da Fazenda, Guido Mantega.Ele demonstrou apreensão em relação ao cenário financeiro global e disse que o crescimento da economia brasileira é sustentável. Reiterou que a defesa comercial é uma prioridade do Executivo, que tomará "medidas importantes nesse campo".
"Até os Estados Unidos estão sendo usados como país de triangulação de exportações para o Brasil. A mercadoria sai de um determinado país, vai para os EUA, muda de etiqueta e vem para o Brasil como se fosse uma mercadoria americana. Talvez por isso os EUA estejam com um superávit comercial em relação ao Brasil", disse na segunda reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social no governo Dilma Rousseff.
"Não vamos deixar a guerra cambial nos derrotar com desvalorizações artificiais das taxas de câmbio de outros países. Estaremos atuando na área de política cambial, estamos intensificando a defesa comercial do país", acrescentou o ministro, que concentrou sua exposição na complexidade do cenário externo atual.
Empresários presentes, no entanto, criticaram, sob a condição do anonimato, a demora do governo em adotar medidas efetivas de defesa comercial. De janeiro a junho deste ano, a balança comercial entre o Brasil e os EUA apresentou um déficit de US$ 4 bilhões. Houve déficit também negativo em 2010 (US$ 7,7 bilhões) e 2009 (US$ 4,4 bilhões). De 2000 a 2008, no entanto, a balança comercial bilateral foi superavitária para o Brasil.
Mantega afirmou que um eventual fracasso do governo de Barack Obama na tentativa de chegar a um acordo com o Congresso para elevar o teto do endividamento do país teria efeitos negativos na economia mundial. "Seria uma grande insensatez se não se conseguisse superar essa situação. Acredito na resolução, mas confesso minha apreensão pelo rumo que as coisas estão tomando. Espero que haja sensatez ao fim desta semana e que a coisa se resolva."
Ele disse ainda que a crise financeira dos países europeus vive nova fase: passou de privada dos bancos para soberana. E ponderou que a conjuntura internacional pode atrapalhar os países em desenvolvimento, mas não a ponto de prejudicar o crescimento das suas economias. Ressaltou, entretanto, que o crescimento da economia nacional se mantém sustentável devido à solidez das contas públicas e o aumento da demanda doméstica. Mantega negou que a economia esteja superaquecida e descartou a existência de uma bolha de crédito no setor imobiliário.
Empresários presentes na reunião reforçaram os apelos por medidas concretas de auxílio à indústria, na medida em que segue o cabo de guerra entre os ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento acerca das desonerações tributárias a serem incluídas no pacote de medidas para elevar a competitividade do produto nacional.
Presidente do Conselho de Administração da Gerdau, Jorge Gerdau Johannpeter afirmou que "já está acontecendo" um processo de desindustrialização no Brasil. Ele ponderou que o país mantém uma cultura de trabalhar com um cenário de falta de divisas e dólares e, por isso, precisa se adaptar à atual conjuntura de maior oferta da moeda americana no mercado doméstico. Ele defendeu, por exemplo, que o governo amplie o uso de mecanismos tributários que contenham o ingresso de capitais.
"Se queremos um país desenvolvido, precisaremos ter uma indústria desenvolvida. Do modo que estamos, estamos prejudicando o desenvolvimento industrial", afirmou Gerdau depois da a reunião do Conselhão.
O presidente da Federação da Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, reforçou o coro. Lembrou que a competitividade dos produtos brasileiros vem sendo corroída pelas altas taxas de juros, falta de reformas estruturais e problemas de infraestrutura. "A indústria está passando uma fase muito perigosa", alertou Skaf.
Mantega afirma ainda ter armas para usar na "guerra cambial"
Autor(es): Por Chris Gilles e John Paul Rathbone | Financial Times, de Londres
Valor Econômico - 06/07/2011
O Brasil está preparando uma série de medidas adicionais para conter a prejudicial valorização do real, num momento em que a guerra cambial mundial não dá mostras de estar chegando ao fim, segundo Guido Mantega, o ministro da Fazenda do país.
Em entrevista concedida ao "Financial Times" em Londres, Mantega disse que os países do G-20 ainda estão longe de conquistar sua meta de pactuar novas diretrizes para administrar o câmbio. Afirmou ainda haver "brigas entre países", como EUA e China, e que a guerra cambial mundial "absolutamente não acabou".
Valor Econômico - 06/07/2011
O Brasil está preparando uma série de medidas adicionais para conter a prejudicial valorização do real, num momento em que a guerra cambial mundial não dá mostras de estar chegando ao fim, segundo Guido Mantega, o ministro da Fazenda do país.
Em entrevista concedida ao "Financial Times" em Londres, Mantega disse que os países do G-20 ainda estão longe de conquistar sua meta de pactuar novas diretrizes para administrar o câmbio. Afirmou ainda haver "brigas entre países", como EUA e China, e que a guerra cambial mundial "absolutamente não acabou".
Debate sobre câmbio cabe ao FMI, diz relatório da OMC
Valor Econômico - 26/05/2011
O debate sobre possíveis "guerras cambiais" entre países deve ser travado fora da Organização Mundial do Comércio (OMC), até porque as ligações entre política de câmbio e política comercial "são muito menores do que parecem a princípio", concluíram especialistas a serviço da OMC. A conclusão faz parte do relatório final do grupo de especialistas de alto nível, coordenado pelo economista Jagdish Bhagwati e pelo ex-diretor-geral da OMC, Peter Sutherland.
O debate sobre possíveis "guerras cambiais" entre países deve ser travado fora da Organização Mundial do Comércio (OMC), até porque as ligações entre política de câmbio e política comercial "são muito menores do que parecem a princípio", concluíram especialistas a serviço da OMC. A conclusão faz parte do relatório final do grupo de especialistas de alto nível, coordenado pelo economista Jagdish Bhagwati e pelo ex-diretor-geral da OMC, Peter Sutherland.
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