Autor(es): Por Assis Moreira | De Genebra
Valor Econômico - 01/08/2013
O Brasil e a Argentina estão isolados no G-20, grupo das maiores economias desenvolvidas e emergentes, na rejeição de estender até 2016 um compromisso para os países não adotarem medidas afetando comércio e investimentos.
Desde 2008, em cada cúpula de líderes do G-20, o grupo das nações que representam 90% da produção mundial se compromete a rejeitar o protecionismo. Foi renovado em Los Cabos (México), no ano passado, até o fim de 2014, incluindo a promessa de voltar atrás em qualquer nova medida protecionista adotada antes.
Agora, para a cúpula de setembro em São Petersburgo (Rússia), está na mesa de negociações a proposta de estender o compromisso por dois anos, em meio ao reconhecimento de que a economia global não saiu da crise, continua debilitada e o comércio internacional se expande lentamente.
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Grupo quer rever leis e combater suborno internacional
| O Estado de S. Paulo - 25/02/2013 O G-20 defende ainda a revisão de leis de combate à corrupção e o cerco ao suborno transnacional. O assunto é novo no Brasil, mas está entre as metas da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (Enccla), organização formada por entidades de prevenção e repressão ao crime organizado.
O crescimento da atuação de empresas brasileiras, como empreiteiras, em território internacional preocupa autoridades, especialmente em países do continente africano e com elevados índices de corrupção.
As propostas do G-20 não têm força de lei, ou seja, os países não são obrigados a segui-las, mas servem de parâmetro e de indicativo do que se está fazendo no âmbito internacional para combater a corrupção. A criminalização do suborno transnacional está prevista na Convenção da Organização dos Estados Americanos (OEA), onde os países se comprometeram a proibir e punir o oferecimento de benefício de qualquer natureza em troca da realização ou da omissão de ato de funcionário público no exercício de suas funções. Contudo, autoridades brasileiras relatam dificuldades na investigação desses crimes e a falta de cooperação internacional entre os países subdesenvolvidos. Não há registro de condenações nem mesmo de expulsões de servidores públicos que receberam propina de empresas internacionais. Também estão sendo implantadas medidas para avaliar a independência dos funcionários públicos nos países e a proteção dos chamados "denunciantes de boa-fé", sejam eles do setor privado ou do público. O Brasil não tem legislação que trate do assunto, segundo o relatório de monitoramento do G-20.
O governo trabalha para cumprir outra meta estipulada pelo grupo: a responsabilização de pessoas jurídicas. Desde 2010, tramita no Congresso projeto de lei (6.826) que pune empresas por atos de corrupção.
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G-20 faz pacto e abafa 'guerra cambial'
Valor Econômico - 18/02/2013
Por Assis Moreira | De Moscou
As "antigas e novas potências" econômicas que formam o G-20, na expressão de um ministro europeu, tentaram abafar a chamada guerra cambial ao mesmo tempo em que não conseguiram superar a divergência sobre estratégias de retomada do crescimento.
Reunidos em Moscou, os ministros de finanças e presidentes de bancos centrais dos países que representam 90% do PIB mundial e 80% do comércio global estimaram que os riscos "mais extremos" que pesavam sobre a economia se reduziram com medidas adotadas na Europa, nos Estados Unidos, Japão e a resistência da economia chinesa. Mas alertaram que "riscos importantes persistem e que o crescimento mundial é ainda muito fraco, com um desemprego inaceitavelmente elevado".
Nesse cenário, os paises desenvolvidos procuraram sufocar a retórica de guerra cambial provocada pelas políticas monetárias extremamente expansivas. Os emergentes aceitaram não brigar. Todos se comprometeram a não proceder desvalorizações competitivas e a não fixar "metas de taxa de cambio para fins de competitividade".
O comunicado do G-20, que reflete modestamente as discussões ocorridas entre os ministros, também retoma o que já havia dito em outras reuniões, como, por exemplo, que "a política monetária deve visar a estabilidade de preços domésticos e continuar a sustentar a recuperação economica".
Para dar uma satisfação aos emergentes que se sentem afetados por políticas monetárias expansionistas de países desenvolvidos, o G-20 remeteu a discussão para o FMI examinar a questão de liquidez internacional e as consequências sobre as taxas de cambio.
Mas para Pier Paduan, economista-chefe da OCDE, as taxas de cambio estão "mais ou menos em linha com os fundamentos de longo prazo" dos países. E as economias que adotaram flexibilização monetária forte foram motivadas pela demanda fraca e pouco espaço fiscal.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, declarou-se satisfeito com a discussão no G-20. Mas foi tambem o mais explicito em Moscou sobre o persistente risco da guerra cambial. Para ele, esse problema nada mais é que a outra faceta da falta de mercados e de dificuldade de exportações.
"Há um conflito originado pela falta de demanda mundial que leva os países a terem conflitos. Num ano em que o comércio cresce quase zero, tem um grande problema e os países se passam a se acotovelar para exportar. Mesmo em situações normais, há conflitos comerciais, mas eram atenuados porque havia espaço para todos", afirmou.
Agora, acrescentou Mantega, "estamos diante dessa situação que é exacerbada pelo fato de a estratégia europeia de fazer ajuste fiscal ter como saída a exportação. Os paises que não conseguem estimular a economia acham que a saída é exportar. Se todo mundo chegar a essa conclusão, imagina o que acontecerá, é um conflito de todos contra todos".
Mas o racha no G-20 persistiu. A Alemanha isolada insiste na importância da austeridade, estimando que isso gera confiança nos mercados. De outro lado, os EUA, União Europeia, Brasil pedem combinação de rigor fiscal com estímulos. "Essa diferença não foi superada", disse Mantega. A Alemanha não conseguiu acordo para fixação de novas metas de corte de deficit e de divida. Já alguns países, como a França, entenderam que o ritmo da consolidação fiscal pode ser adaptado.
Por Assis Moreira | De Moscou
As "antigas e novas potências" econômicas que formam o G-20, na expressão de um ministro europeu, tentaram abafar a chamada guerra cambial ao mesmo tempo em que não conseguiram superar a divergência sobre estratégias de retomada do crescimento.
Reunidos em Moscou, os ministros de finanças e presidentes de bancos centrais dos países que representam 90% do PIB mundial e 80% do comércio global estimaram que os riscos "mais extremos" que pesavam sobre a economia se reduziram com medidas adotadas na Europa, nos Estados Unidos, Japão e a resistência da economia chinesa. Mas alertaram que "riscos importantes persistem e que o crescimento mundial é ainda muito fraco, com um desemprego inaceitavelmente elevado".
Nesse cenário, os paises desenvolvidos procuraram sufocar a retórica de guerra cambial provocada pelas políticas monetárias extremamente expansivas. Os emergentes aceitaram não brigar. Todos se comprometeram a não proceder desvalorizações competitivas e a não fixar "metas de taxa de cambio para fins de competitividade".
O comunicado do G-20, que reflete modestamente as discussões ocorridas entre os ministros, também retoma o que já havia dito em outras reuniões, como, por exemplo, que "a política monetária deve visar a estabilidade de preços domésticos e continuar a sustentar a recuperação economica".
Para dar uma satisfação aos emergentes que se sentem afetados por políticas monetárias expansionistas de países desenvolvidos, o G-20 remeteu a discussão para o FMI examinar a questão de liquidez internacional e as consequências sobre as taxas de cambio.
Mas para Pier Paduan, economista-chefe da OCDE, as taxas de cambio estão "mais ou menos em linha com os fundamentos de longo prazo" dos países. E as economias que adotaram flexibilização monetária forte foram motivadas pela demanda fraca e pouco espaço fiscal.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, declarou-se satisfeito com a discussão no G-20. Mas foi tambem o mais explicito em Moscou sobre o persistente risco da guerra cambial. Para ele, esse problema nada mais é que a outra faceta da falta de mercados e de dificuldade de exportações.
"Há um conflito originado pela falta de demanda mundial que leva os países a terem conflitos. Num ano em que o comércio cresce quase zero, tem um grande problema e os países se passam a se acotovelar para exportar. Mesmo em situações normais, há conflitos comerciais, mas eram atenuados porque havia espaço para todos", afirmou.
Agora, acrescentou Mantega, "estamos diante dessa situação que é exacerbada pelo fato de a estratégia europeia de fazer ajuste fiscal ter como saída a exportação. Os paises que não conseguem estimular a economia acham que a saída é exportar. Se todo mundo chegar a essa conclusão, imagina o que acontecerá, é um conflito de todos contra todos".
Mas o racha no G-20 persistiu. A Alemanha isolada insiste na importância da austeridade, estimando que isso gera confiança nos mercados. De outro lado, os EUA, União Europeia, Brasil pedem combinação de rigor fiscal com estímulos. "Essa diferença não foi superada", disse Mantega. A Alemanha não conseguiu acordo para fixação de novas metas de corte de deficit e de divida. Já alguns países, como a França, entenderam que o ritmo da consolidação fiscal pode ser adaptado.
G-20 termina sem aliviar a crise da Europa, que é só dela, até a solução, tão fácil como complexa
Brasil S.A - Antônio Machado
Correio Braziliense - 05/11/2011
Quem é contra a luz elétrica, a água encanada, a vacina contra a poliomielite, empregos decentes para todos, coisas assim? Pois é: a cúpula dos chefes de governo do Grupo dos 20 (G-20), em Cannes, terminou repleta de platitudes. Melancólica, numa palavra.
O comunicado final resume o fracasso previsível. "Hoje", disseram os líderes do G-20, "reafirmamos nosso compromisso de trabalharmos juntos e tomarmos decisões para revigorar o crescimento econômico, criar empregos, garantir a estabilidade financeira, promover a inclusão social e fazer a globalização servir às necessidades do povo". Traduzindo: obrigações básicas de qualquer governante, mas que muitos deles que foram a Cannes deixaram de cumprir.
Os europeus, anfitriões da cúpula armada pelo presidente Nicolas Sarkozy, aproveitando-se de a França estar na coordenação rotativa do G-20, esperavam o quê? Tudo o que não se encontra de graça.
E que recusaram ao ex-Terceiro Mundo, quando Brasil, Argentina, México, Tailândia, um sem-fim de países, foram à bancarrota pelo peso de dívidas externas impagáveis, tais como Grécia, Portugal e Irlanda hoje — e talvez Itália e Espanha amanhã.
Os europeus queriam dos países emergentes, únicos com crescimento econômico no mundo, embora minguando, dinheiro de suas reservas de divisas para o tal EFST, fundo criado na Zona do Euro para assumir os títulos da dívida soberana europeia que o mercado repeliu, como os da Grécia insolvente e da Itália sob suspeita, além de aliviar os bancos europeus dessa carga tóxica que os envenena.
Dois presidentes, em especial, foram mais assediados: Hu Jintao, da China, que tem US$ 3,2 trilhões de reservas, e Dilma Rousseff, no caso, talvez menos pelo tamanho do caixa do Brasil, US$ 352,6 bilhões no último dia 3 — já que outros participantes do G-20 têm mais, como Japão e Rússia —, que pela condescendência do governo Lula com tais pleitos em fóruns internacionais. Nenhum afrouxou.
Um assessor do Banco Central da China, Li Daokui, acenou com um aporte de US$ 100 bilhões no EFST, segundo o jornal francês Le Figaro, mas com condições: "Não seria irracional solicitar ao menos um pouco mais de compreensão sobre os interesses chineses".
Pergunta que diz tudo
A presidente foi igualmente incisiva. "Não tenho a menor intenção de fazer uma contribuição direta para o EFSF", disse ela. "Se nem eles têm, por que eu teria?" A pergunta retórica de Dilma encerra toda a questão sobre a crise da Zona do Euro, e não só da Grécia — algo que nem o cogitado e depois negado referendo dos gregos sobre o pacote de austeridade imposto ao país seria capaz de agravar.
Desde o início a Europa tinha a solução contra a crise, que é de insolvência da Grécia, e talvez de Portugal, mas só de liquidez no caso de Itália e Espanha — ambos vitimados pela desconfiança dos mercados por terem uma grande dívida pública à mercê de uma baixa taxa de crescimento econômico. Ao contrário de Grécia e Portugal, as economias da Itália, a terceira maior da área do euro, e a da Espanha, a quarta, são amplas e razoavelmente diversificadas.
A vacina está no euro
Para casos de insolvência, só resta o abatimento parcial ou total da dívida. Para a Grécia, será de 50% da parcela devida a bancos privados, reduzindo para 120% do PIB a dívida total — valor muito alto para um país com base produtiva ínfima. Está mal resolvido.
A situação de Espanha e Itália, e mesmo de Irlanda, onde o ajuste fiscal tem funcionado, pede outro tratamento. Nada diverso do que tem feito o Federal Reserve, nos EUA, e o Banco da Inglaterra, e é o que também se faz no Brasil. O Banco Central Europeu (BCE) teria de garantir a solvência da totalidade da dívida soberana, provendo liquidez a tais papéis até a normalização do mercado.
Crise da alma europeia
E por que isso não foi feito? Por que a Alemanha não deixa, e age assim por ter vivido duas hiperinflações, nos últimos 100 anos, de milhões por cento (repito: milhões), com desdobramentos sabidos. É o que motivou os líderes alemães e franceses, sobretudo, a buscar no pós-guerra a união comercial, culminando com a moeda comum.
A Alemanha tem uma relação complicada com o euro: é o seu virtual guardião, mas se relaciona com os parceiros da moeda comum como se cuidasse do marco, e espera deles o mesmo zelo fiscal que pratica. Se todos conseguirem conviver com isso, o que não é fácil, a crise do euro poderá virar história. Sem tal compreensão, a deterioração vai prosseguir. Mas ficou claro que o problema é da alma europeia, não bem da economia da Zona do Euro e muito menos do G-20.
O que sobrou ao G-20
Depois do happening protagonizado pelo infeliz primeiro-ministro da Grécia, atraindo a atenção com o blefe de chamar os gregos para um referendo sobre o euro, restou pouco tempo para a agenda do G-20. Tudo ficou para depois. A reavaliação da cesta de moedas do FMI, hoje formada por dólar, euro, iene e libra, visando incluir o renminbi (e o real?) será em 2015. Isso implica à China deixar o renminbi flutuar. De concreto, saiu a lista dos 29 bancos grandes demais para quebrar, portanto, alvos de maior fiscalização pelos governos de suas jurisdições. Eles terão de aumentar a provisão de capital contra riscos de inadimplência seriada. Nada disso valeu o deslocamento dos líderes a Cannes, mas foi melhor do que nada.
Correio Braziliense - 05/11/2011
Quem é contra a luz elétrica, a água encanada, a vacina contra a poliomielite, empregos decentes para todos, coisas assim? Pois é: a cúpula dos chefes de governo do Grupo dos 20 (G-20), em Cannes, terminou repleta de platitudes. Melancólica, numa palavra.
O comunicado final resume o fracasso previsível. "Hoje", disseram os líderes do G-20, "reafirmamos nosso compromisso de trabalharmos juntos e tomarmos decisões para revigorar o crescimento econômico, criar empregos, garantir a estabilidade financeira, promover a inclusão social e fazer a globalização servir às necessidades do povo". Traduzindo: obrigações básicas de qualquer governante, mas que muitos deles que foram a Cannes deixaram de cumprir.
Os europeus, anfitriões da cúpula armada pelo presidente Nicolas Sarkozy, aproveitando-se de a França estar na coordenação rotativa do G-20, esperavam o quê? Tudo o que não se encontra de graça.
E que recusaram ao ex-Terceiro Mundo, quando Brasil, Argentina, México, Tailândia, um sem-fim de países, foram à bancarrota pelo peso de dívidas externas impagáveis, tais como Grécia, Portugal e Irlanda hoje — e talvez Itália e Espanha amanhã.
Os europeus queriam dos países emergentes, únicos com crescimento econômico no mundo, embora minguando, dinheiro de suas reservas de divisas para o tal EFST, fundo criado na Zona do Euro para assumir os títulos da dívida soberana europeia que o mercado repeliu, como os da Grécia insolvente e da Itália sob suspeita, além de aliviar os bancos europeus dessa carga tóxica que os envenena.
Dois presidentes, em especial, foram mais assediados: Hu Jintao, da China, que tem US$ 3,2 trilhões de reservas, e Dilma Rousseff, no caso, talvez menos pelo tamanho do caixa do Brasil, US$ 352,6 bilhões no último dia 3 — já que outros participantes do G-20 têm mais, como Japão e Rússia —, que pela condescendência do governo Lula com tais pleitos em fóruns internacionais. Nenhum afrouxou.
Um assessor do Banco Central da China, Li Daokui, acenou com um aporte de US$ 100 bilhões no EFST, segundo o jornal francês Le Figaro, mas com condições: "Não seria irracional solicitar ao menos um pouco mais de compreensão sobre os interesses chineses".
Pergunta que diz tudo
A presidente foi igualmente incisiva. "Não tenho a menor intenção de fazer uma contribuição direta para o EFSF", disse ela. "Se nem eles têm, por que eu teria?" A pergunta retórica de Dilma encerra toda a questão sobre a crise da Zona do Euro, e não só da Grécia — algo que nem o cogitado e depois negado referendo dos gregos sobre o pacote de austeridade imposto ao país seria capaz de agravar.
Desde o início a Europa tinha a solução contra a crise, que é de insolvência da Grécia, e talvez de Portugal, mas só de liquidez no caso de Itália e Espanha — ambos vitimados pela desconfiança dos mercados por terem uma grande dívida pública à mercê de uma baixa taxa de crescimento econômico. Ao contrário de Grécia e Portugal, as economias da Itália, a terceira maior da área do euro, e a da Espanha, a quarta, são amplas e razoavelmente diversificadas.
A vacina está no euro
Para casos de insolvência, só resta o abatimento parcial ou total da dívida. Para a Grécia, será de 50% da parcela devida a bancos privados, reduzindo para 120% do PIB a dívida total — valor muito alto para um país com base produtiva ínfima. Está mal resolvido.
A situação de Espanha e Itália, e mesmo de Irlanda, onde o ajuste fiscal tem funcionado, pede outro tratamento. Nada diverso do que tem feito o Federal Reserve, nos EUA, e o Banco da Inglaterra, e é o que também se faz no Brasil. O Banco Central Europeu (BCE) teria de garantir a solvência da totalidade da dívida soberana, provendo liquidez a tais papéis até a normalização do mercado.
Crise da alma europeia
E por que isso não foi feito? Por que a Alemanha não deixa, e age assim por ter vivido duas hiperinflações, nos últimos 100 anos, de milhões por cento (repito: milhões), com desdobramentos sabidos. É o que motivou os líderes alemães e franceses, sobretudo, a buscar no pós-guerra a união comercial, culminando com a moeda comum.
A Alemanha tem uma relação complicada com o euro: é o seu virtual guardião, mas se relaciona com os parceiros da moeda comum como se cuidasse do marco, e espera deles o mesmo zelo fiscal que pratica. Se todos conseguirem conviver com isso, o que não é fácil, a crise do euro poderá virar história. Sem tal compreensão, a deterioração vai prosseguir. Mas ficou claro que o problema é da alma europeia, não bem da economia da Zona do Euro e muito menos do G-20.
O que sobrou ao G-20
Depois do happening protagonizado pelo infeliz primeiro-ministro da Grécia, atraindo a atenção com o blefe de chamar os gregos para um referendo sobre o euro, restou pouco tempo para a agenda do G-20. Tudo ficou para depois. A reavaliação da cesta de moedas do FMI, hoje formada por dólar, euro, iene e libra, visando incluir o renminbi (e o real?) será em 2015. Isso implica à China deixar o renminbi flutuar. De concreto, saiu a lista dos 29 bancos grandes demais para quebrar, portanto, alvos de maior fiscalização pelos governos de suas jurisdições. Eles terão de aumentar a provisão de capital contra riscos de inadimplência seriada. Nada disso valeu o deslocamento dos líderes a Cannes, mas foi melhor do que nada.
G-20 fecha acordo para conter disparada de alimentos
O Globo - 24/06/2011
Plano prevê aumento da produção e acompanhamento dos dados de estoques. Brasil se diz pronto a produzir mais
PARIS. Os ministros da Agricultura do grupo das 20 principais economias mundiais, o G-20, concordaram ontem em adotar medidas para estabilizar os preços dos alimentos. O plano de ação inclui o aumento da capacidade de produção agrícola, elevando a transparência do mercado por meio de uma nova base de dados sobre as reservas globais, e o fim das restrições à exportação de comida para países em dificuldade, afirmou o ministro francês de Agricultura, Bruno Le Maire. Além disso, serão ampliadas as pesquisas sobre novos tipos de trigo.
Plano prevê aumento da produção e acompanhamento dos dados de estoques. Brasil se diz pronto a produzir mais
PARIS. Os ministros da Agricultura do grupo das 20 principais economias mundiais, o G-20, concordaram ontem em adotar medidas para estabilizar os preços dos alimentos. O plano de ação inclui o aumento da capacidade de produção agrícola, elevando a transparência do mercado por meio de uma nova base de dados sobre as reservas globais, e o fim das restrições à exportação de comida para países em dificuldade, afirmou o ministro francês de Agricultura, Bruno Le Maire. Além disso, serão ampliadas as pesquisas sobre novos tipos de trigo.
O G-20, a França e os subsídios
Autor(es): Assis Moreira
Valor Econômico - 17/06/2011
Os ministros de Agricultura do G-20, dos principais países desenvolvidos e emergentes, lançarão em Paris, semana que vem, um plano de ação visando a volatilidade nos mercados de commodities e reforço da segurança alimentar. O pacote, porém, dificilmente terá o efeito de curto prazo que queria a França, na presidência do grupo.
Sob pressão de exportadores como Brasil, Argentina e Estados Unidos, a França recuou nas ideias "audaciosas" para limitar os preços. Os franceses pararam de insistir na ideia de intervenção nos mercados físicos de produtos agrícolas, o que levaria à formação de estoques pelos governos e mais uso de subsídios que distorcem a agricultura.
Valor Econômico - 17/06/2011
Os ministros de Agricultura do G-20, dos principais países desenvolvidos e emergentes, lançarão em Paris, semana que vem, um plano de ação visando a volatilidade nos mercados de commodities e reforço da segurança alimentar. O pacote, porém, dificilmente terá o efeito de curto prazo que queria a França, na presidência do grupo.
Sob pressão de exportadores como Brasil, Argentina e Estados Unidos, a França recuou nas ideias "audaciosas" para limitar os preços. Os franceses pararam de insistir na ideia de intervenção nos mercados físicos de produtos agrícolas, o que levaria à formação de estoques pelos governos e mais uso de subsídios que distorcem a agricultura.
Brasil é o mais empreendedor do G-20
Autor(es): agencia o globo: Ronaldo D"Ercole e Paulo Justus
O Globo - 27/04/2011
Pesquisa do Sebrae mostra melhor resultado em 11 anos, à frente dos EUA
SÃO PAULO. Com mais de 21 milhões de pessoas tocando negócios próprios, o Brasil registrou em 2010 a maior taxa de empreendedorismo entre os países do G-20 (grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo), revela a "Pesquisa Global Enterpreneurship Monitor", a GEM 2010, divulgada ontem pelo Sebrae. O país teve seu melhor resultado em 11 anos, alcançando Taxa de Empreendedores em Estágio Inicial (TEA, que inclui negócios recém-criados ou já funcionando há menos de três anos e meio) de 17,5% da população adulta - índice superior ao obtido por China (14,4%), Argentina (14,2%), Austrália (7,8%) e Estados Unidos (7,6%).
O Globo - 27/04/2011
Pesquisa do Sebrae mostra melhor resultado em 11 anos, à frente dos EUA
SÃO PAULO. Com mais de 21 milhões de pessoas tocando negócios próprios, o Brasil registrou em 2010 a maior taxa de empreendedorismo entre os países do G-20 (grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo), revela a "Pesquisa Global Enterpreneurship Monitor", a GEM 2010, divulgada ontem pelo Sebrae. O país teve seu melhor resultado em 11 anos, alcançando Taxa de Empreendedores em Estágio Inicial (TEA, que inclui negócios recém-criados ou já funcionando há menos de três anos e meio) de 17,5% da população adulta - índice superior ao obtido por China (14,4%), Argentina (14,2%), Austrália (7,8%) e Estados Unidos (7,6%).
Uma proposta modesta para o G-20
Autor(es): Jose Antonio Ocampo
Valor Econômico - 04/04/2011
Em março, em encontro organizado em Pequim pela Iniciativa para o Diálogo Político (IPD, na sigla em inglês), da Columbia University, e pela Universidade Central de Economia e Finanças, da China, estudiosos e autoridades monetárias discutiram como reformar o sistema monetário internacional. Afinal, mesmo que o sistema não tenha sido a causa direta dos recentes desequilíbrios e instabilidades na economia mundial, mostrou ser ineficiente em resolvê-los.
A reforma vai, é claro, exigir discussões e deliberações extensas, mas o consenso em Pequim foi o de que o G-20 deveria adotar uma proposta modesta neste ano: uma expansão limitada do atual sistema do Fundo Monetário Internacional (FMI) de Direitos Especiais de Saque (DES). A proposta, embora de abrangência limitada, poderia desempenhar papel importante para iniciar as discussões de reformas mais profundas e ao mesmo tempo ajudar a levar a frágil economia mundial de volta à saúde e alcançar o objetivo anunciado na declaração de Pittsburgh do G-20: crescimento forte, sustentável e equilibrado.
Valor Econômico - 04/04/2011
Em março, em encontro organizado em Pequim pela Iniciativa para o Diálogo Político (IPD, na sigla em inglês), da Columbia University, e pela Universidade Central de Economia e Finanças, da China, estudiosos e autoridades monetárias discutiram como reformar o sistema monetário internacional. Afinal, mesmo que o sistema não tenha sido a causa direta dos recentes desequilíbrios e instabilidades na economia mundial, mostrou ser ineficiente em resolvê-los.
A reforma vai, é claro, exigir discussões e deliberações extensas, mas o consenso em Pequim foi o de que o G-20 deveria adotar uma proposta modesta neste ano: uma expansão limitada do atual sistema do Fundo Monetário Internacional (FMI) de Direitos Especiais de Saque (DES). A proposta, embora de abrangência limitada, poderia desempenhar papel importante para iniciar as discussões de reformas mais profundas e ao mesmo tempo ajudar a levar a frágil economia mundial de volta à saúde e alcançar o objetivo anunciado na declaração de Pittsburgh do G-20: crescimento forte, sustentável e equilibrado.
G-20 avalia medidas contra oscilação de preços
Autor(es): Assis Moreira | De Genebra
Valor Econômico - 28/03/2011
O G-20, que reúne as maiores economias desenvolvidas e emergentes do mundo, começou a examinar propostas concretas para estimular o aumento da produção agrícola em países em desenvolvimento em uma tentativa de evitar novas crises de oferta e de preços. O objetivo é anunciar as medidas no encontro de ministros do grupo, que será realizada de 22 e 23 de junho, em Paris.
Valor Econômico - 28/03/2011
O G-20, que reúne as maiores economias desenvolvidas e emergentes do mundo, começou a examinar propostas concretas para estimular o aumento da produção agrícola em países em desenvolvimento em uma tentativa de evitar novas crises de oferta e de preços. O objetivo é anunciar as medidas no encontro de ministros do grupo, que será realizada de 22 e 23 de junho, em Paris.
Bancos brasileiros serão alvo do G-20
AE - Agencia Estado - 23/03/2011
GENEBRA, BRASÍLIA E SÃO PAULO - Bancos brasileiros como o Itaú e o Bradesco serão alvo do G-20 - grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo - a partir do segundo semestre, sob o risco de terem de garantir níveis de capitalização superiores aos demais bancos no mundo. A informação é do presidente do banco central suíço, Philipp Hildebrand, ao confirmar ontem que o grupo começará a debater a nova regulação para grandes bancos nacionais que podem representar riscos à economia mundial se quebrarem. Fontes no governo brasileiro prometem uma "intensa negociação" sobre os eventuais limites impostos às instituições nacionais.
GENEBRA, BRASÍLIA E SÃO PAULO - Bancos brasileiros como o Itaú e o Bradesco serão alvo do G-20 - grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo - a partir do segundo semestre, sob o risco de terem de garantir níveis de capitalização superiores aos demais bancos no mundo. A informação é do presidente do banco central suíço, Philipp Hildebrand, ao confirmar ontem que o grupo começará a debater a nova regulação para grandes bancos nacionais que podem representar riscos à economia mundial se quebrarem. Fontes no governo brasileiro prometem uma "intensa negociação" sobre os eventuais limites impostos às instituições nacionais.
Ministra francesa diz que explicará tudo direitinho a Mantega no G-20
Valor Econômico - 18/02/2011
A ministra de Finanças da França, Christine Lagarde, suspira quando o Valor pergunta se ela acha que já tranquilizou o Brasil sobre os planos de regulação do mercado agrícola e de combate à volatilidade, que estão no centro da agenda francesa no G-20.
"Eu vou tentar explicar ao Guido Mantega bem direitinho o que propomos, não tem ameaça de jeito nenhum", afirmou. O ministro da Fazenda brasileiro saiu de Brasília avisando que o Brasil não aceitaria de maneira nenhuma controle de preço no mercado agrícola. Mas chegou mudo a Paris.
"Controle de preço? Não é controle de preço, "pas de tout, pas de tout" [de jeito nenhum]", repetiu Lagarde enfatizando a frase. "Espero que vocês compreendam."
Quando o Valor insiste que continua difícil entender ao certo o que a França deseja, a ministra menciona até melhora na informação meteorológica, bem diferente do discurso de semanas atrás do presidente Sarkozy, que mencionara problemas de preço de produtos para a pecuária francesa.
"A França não quer administrar os preços agrícolas, não quer fazer pressão sobre as economias para reduzir preço, exportação ou competitividade", disse Lagarde. "O que propomos para discussão é a transparência, a informação adequada, para que o produtor, o fabricante agroalimentar e o consumidor não paguem o custo de especulação indevida baseada em rumor e falta de informação. Informação meteorológica pode ser vista como trivial, mas tem sua importância na agricultura."
Enquanto isso, a imprensa local reflete esse recuo. "A presidência francesa [do G-20] tenta desmontar as polêmicas", diz o site da France 24, uma TV estatal.
O Brasil se mobilizou depois da primeira reunião técnica do G-20, este ano, para matar na origem sinalizações francesas na direção de intervenção no mercado agrícola. Apesar do novo discurso francês, países exportadores ainda acham que Paris quer voltar a dar mais subsídios para seus agricultores.
Hoje e amanhã, Lagarde comandará a reunião de ministros de finanças e bancos centrais do G-20 também com outras preocupações. A China continua dando indicações contraditórias - se aceita ou não indicadores para identificar desequilíbrios macroeconômicos e medidas para corrigi-los.
"Isso é muito debatido, e alguns países não gostam de ser identificados por seguir uma ou outra política", disse Lagarde. Em linhas gerais, todo mundo está de acordo que é necessária uma reforma estrutural na Europa, consumo maior na Ásia e menor em outros países. A China deveria exportar menos e importar mais.
Curiosamente, a valise com material sobre o G-20, distribuído pelo governo francês, inclui um pen drive com letras maiúsculas na caixinha: "Made in China".
A ministra de Finanças da França, Christine Lagarde, suspira quando o Valor pergunta se ela acha que já tranquilizou o Brasil sobre os planos de regulação do mercado agrícola e de combate à volatilidade, que estão no centro da agenda francesa no G-20.
"Eu vou tentar explicar ao Guido Mantega bem direitinho o que propomos, não tem ameaça de jeito nenhum", afirmou. O ministro da Fazenda brasileiro saiu de Brasília avisando que o Brasil não aceitaria de maneira nenhuma controle de preço no mercado agrícola. Mas chegou mudo a Paris.
"Controle de preço? Não é controle de preço, "pas de tout, pas de tout" [de jeito nenhum]", repetiu Lagarde enfatizando a frase. "Espero que vocês compreendam."
Quando o Valor insiste que continua difícil entender ao certo o que a França deseja, a ministra menciona até melhora na informação meteorológica, bem diferente do discurso de semanas atrás do presidente Sarkozy, que mencionara problemas de preço de produtos para a pecuária francesa.
"A França não quer administrar os preços agrícolas, não quer fazer pressão sobre as economias para reduzir preço, exportação ou competitividade", disse Lagarde. "O que propomos para discussão é a transparência, a informação adequada, para que o produtor, o fabricante agroalimentar e o consumidor não paguem o custo de especulação indevida baseada em rumor e falta de informação. Informação meteorológica pode ser vista como trivial, mas tem sua importância na agricultura."
Enquanto isso, a imprensa local reflete esse recuo. "A presidência francesa [do G-20] tenta desmontar as polêmicas", diz o site da France 24, uma TV estatal.
O Brasil se mobilizou depois da primeira reunião técnica do G-20, este ano, para matar na origem sinalizações francesas na direção de intervenção no mercado agrícola. Apesar do novo discurso francês, países exportadores ainda acham que Paris quer voltar a dar mais subsídios para seus agricultores.
Hoje e amanhã, Lagarde comandará a reunião de ministros de finanças e bancos centrais do G-20 também com outras preocupações. A China continua dando indicações contraditórias - se aceita ou não indicadores para identificar desequilíbrios macroeconômicos e medidas para corrigi-los.
"Isso é muito debatido, e alguns países não gostam de ser identificados por seguir uma ou outra política", disse Lagarde. Em linhas gerais, todo mundo está de acordo que é necessária uma reforma estrutural na Europa, consumo maior na Ásia e menor em outros países. A China deveria exportar menos e importar mais.
Curiosamente, a valise com material sobre o G-20, distribuído pelo governo francês, inclui um pen drive com letras maiúsculas na caixinha: "Made in China".
G-20 exige do Brasil equidistância
O Globo - 18/02/2011
Primeiro, muda a realidade; depois, as instituições se adaptam. O G-20, por exemplo, cujos ministros se reúnem hoje e amanhã em Paris, é expressão da mudança na distribuição do poder mundial a partir do final da Segunda Guerra, em 45. Se há duas décadas bastava reunir as sete maiores economias do planeta (G-7) para debater questões de interesse do mundo, o processo acelerado de globalização dos últimos 15 anos, com a cristalização dos chamados emergentes, forçou, felizmente, a ampliação daquele clube fechado.
Este G-7 + 13 cada vez mais se fortalece como fórum de definições-chave em conjunturas difíceis como a atual. Na agenda do encontro de Paris, uma sequência da cúpula realizada em Seul no final do ano passado, encontra-se, entre outos temas, a definição de indicadores para alertar sobre desequilíbrios nas economias.
O pano de fundo da pauta é o fato de as duas maiores economias, a americana e a chinesa, provocarem desbalanceamentos em todo o planeta, enquanto tentam resolver problemas internos efetivos. Os americanos, em ações compreensíveis para estimular sua economia e, por tabela, a geração de empregos, praticam forte política monetária expansionista, desvalorizam, assim, a moeda e inundam o mundo de dólares. Estes vão financiar operações especulativas com matérias-primas e ainda forçam uma indesejada valorização de outras moedas, caso do real.
Por sua vez, os chineses insistem em conservar desvalorizado de forma artificial o yuan, a fim de manter as exportações em ascensão e, desta forma, sustentar o crescimento interno em alta velocidade, necessário para absorver as centenas de milhões de chineses ainda na miséria no interior do país. Com isso, a China retarda a recuperação dos Estados Unidos - impedidos pelo câmbio de vender mais para os chineses - e invade os mercados, inclusive o brasileiro, com produtos baratos.
No caso do Brasil, Paris será um teste para a aplicação prática da esboçada política externa mais responsável, pragmática, não antiamericanista apenas por ranço ideológico. A diplomacia companheira jogava sobre os Estados Unidos todas as responsabilidades pelas atuais mazelas globais. Mas, na verdade, americanos e chineses são sócios nesta questão, e é preciso muita negociação para EUA e China, cada vez mais interdependentes, articularem suas políticas econômicas com a Europa e emergentes.
Atual presidente do G-20, o francês Nicolas Sarkozy defende a regulação dos mercados de derivativos e de commodities. Via derivativos coloca-se em debate o controverso controle do fluxo de capitais, tão ao gosto de autoridades brasilienses. Mas, quanto às commodities, não há negociação possível por parte do Brasil e dos EUA. Nenhum grande produtor agrícola tem interesse no assunto, por óbvio. Ora, se não fossem os superávits obtidos pelas exportações de produtos primários, o déficit externo brasileiro em contas correntes já teria explodido.
Não deverá ser conclusiva a rodada de Paris do G-20. Mas nem por isso é desimportante na tentativa de o mundo compartilhar problemas e soluções, e como oportunidade de o Brasil recalibrar sua diplomacia.
Primeiro, muda a realidade; depois, as instituições se adaptam. O G-20, por exemplo, cujos ministros se reúnem hoje e amanhã em Paris, é expressão da mudança na distribuição do poder mundial a partir do final da Segunda Guerra, em 45. Se há duas décadas bastava reunir as sete maiores economias do planeta (G-7) para debater questões de interesse do mundo, o processo acelerado de globalização dos últimos 15 anos, com a cristalização dos chamados emergentes, forçou, felizmente, a ampliação daquele clube fechado.
Este G-7 + 13 cada vez mais se fortalece como fórum de definições-chave em conjunturas difíceis como a atual. Na agenda do encontro de Paris, uma sequência da cúpula realizada em Seul no final do ano passado, encontra-se, entre outos temas, a definição de indicadores para alertar sobre desequilíbrios nas economias.
O pano de fundo da pauta é o fato de as duas maiores economias, a americana e a chinesa, provocarem desbalanceamentos em todo o planeta, enquanto tentam resolver problemas internos efetivos. Os americanos, em ações compreensíveis para estimular sua economia e, por tabela, a geração de empregos, praticam forte política monetária expansionista, desvalorizam, assim, a moeda e inundam o mundo de dólares. Estes vão financiar operações especulativas com matérias-primas e ainda forçam uma indesejada valorização de outras moedas, caso do real.
Por sua vez, os chineses insistem em conservar desvalorizado de forma artificial o yuan, a fim de manter as exportações em ascensão e, desta forma, sustentar o crescimento interno em alta velocidade, necessário para absorver as centenas de milhões de chineses ainda na miséria no interior do país. Com isso, a China retarda a recuperação dos Estados Unidos - impedidos pelo câmbio de vender mais para os chineses - e invade os mercados, inclusive o brasileiro, com produtos baratos.
No caso do Brasil, Paris será um teste para a aplicação prática da esboçada política externa mais responsável, pragmática, não antiamericanista apenas por ranço ideológico. A diplomacia companheira jogava sobre os Estados Unidos todas as responsabilidades pelas atuais mazelas globais. Mas, na verdade, americanos e chineses são sócios nesta questão, e é preciso muita negociação para EUA e China, cada vez mais interdependentes, articularem suas políticas econômicas com a Europa e emergentes.
Atual presidente do G-20, o francês Nicolas Sarkozy defende a regulação dos mercados de derivativos e de commodities. Via derivativos coloca-se em debate o controverso controle do fluxo de capitais, tão ao gosto de autoridades brasilienses. Mas, quanto às commodities, não há negociação possível por parte do Brasil e dos EUA. Nenhum grande produtor agrícola tem interesse no assunto, por óbvio. Ora, se não fossem os superávits obtidos pelas exportações de produtos primários, o déficit externo brasileiro em contas correntes já teria explodido.
Não deverá ser conclusiva a rodada de Paris do G-20. Mas nem por isso é desimportante na tentativa de o mundo compartilhar problemas e soluções, e como oportunidade de o Brasil recalibrar sua diplomacia.
França defende no G-20 metas para cada país
Autor(es): Andrei Neto
O Estado de S. Paulo - 18/02/2011
Franceses defendem a criação de indicadores de desequilíbrio macroeconômico.
Anfitrião do G-20 ministerial, o governo da França vai se contentar se conseguir selar até amanhã "acordo de princípios" para a criação de indicadores de desequilíbrio macroeconômicos - a prioridade número 1 do evento. Ontem, negociadores de diferentes países advertiram para a dificuldade de que um consenso seja costurado até o final de semana. França e Alemanha concordam, mas os Estados Unidos não teriam pressa para firmar o compromisso.
Desde a quarta-feira, negociadores franceses e alemães acertaram uma proposta comum que incluiria cinco critérios nos indicadores: saldo de contas correntes, taxas de câmbio reais, reservas de câmbio, déficit e dívida pública e poupança privada. Ontem, ao término da conferência do Instituto Internacional de Finanças (IIF), a ministra da Economia da França, Christine Lagarde, reafirmou a prioridade. "Nós teremos dado um grande passo à frente se chegarmos a um acordo de princípios sobre os elementos que nos permitem medir os desequilíbrios", afirmou.
Uma das dificuldades da negociação é o receio de cada país, em especial da China, dos Estados Unidos e também da Alemanha, de ser acusado de responsável por parte dos desequilíbrios. "É um tema que é objeto de um debate intenso neste momento e que o será nos próximos dias, porque alguns países não querem ser identificados como responsáveis por esta ou aquela política", disse Lagarde. "Tentemos antes de mais nada um acordo sobre os indicadores. A seguir, será o momento de passar os países na peneira, tomando cuidado para não estigmatizar os maus alunos."
Ontem mesmo, porém, a Secretaria do Tesouro dos EUA que não existe necessidade de firmar o acordo em Paris. Em meias palavras, os americanos divergem da prioridade francesa. Washington argumenta que o G-20 de Seul, da Coreia do Sul, realizado em novembro, concordou que os indicadores devam ser definidos até o fim do primeiro semestre de 2011 pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
Desconfianças. Outro objeto de esforço diplomático do Palácio do Eliseu é reduzir as desconfianças internacionais sobre as propostas da França. Para isso, o governo francês pisa em ovos a cada declaração. Nas negociações sobre a reforma do sistema monetário internacional (SMI), por exemplo, a dificuldade é expor a insatisfação dos países do Ocidente em relação à subvalorização do yuan em relação ao euro e ao dólar e ao câmbio dirigido do Banco Central da China sem, entretanto, minar a capacidade de diálogo com os chineses.
À rádio France Info, Lagarde fez críticas à autoridade monetária chinesa, mas ao mesmo tempo elogiou o potencial do yuan como uma das divisas de referência global. "É preciso que o yuan não seja tão administrado como o é e que ela seja também uma moeda internacional, conversível e flutuante como são a maior parte das moedas dos países desenvolvidos."
O Estado de S. Paulo - 18/02/2011
Franceses defendem a criação de indicadores de desequilíbrio macroeconômico.
Anfitrião do G-20 ministerial, o governo da França vai se contentar se conseguir selar até amanhã "acordo de princípios" para a criação de indicadores de desequilíbrio macroeconômicos - a prioridade número 1 do evento. Ontem, negociadores de diferentes países advertiram para a dificuldade de que um consenso seja costurado até o final de semana. França e Alemanha concordam, mas os Estados Unidos não teriam pressa para firmar o compromisso.
Desde a quarta-feira, negociadores franceses e alemães acertaram uma proposta comum que incluiria cinco critérios nos indicadores: saldo de contas correntes, taxas de câmbio reais, reservas de câmbio, déficit e dívida pública e poupança privada. Ontem, ao término da conferência do Instituto Internacional de Finanças (IIF), a ministra da Economia da França, Christine Lagarde, reafirmou a prioridade. "Nós teremos dado um grande passo à frente se chegarmos a um acordo de princípios sobre os elementos que nos permitem medir os desequilíbrios", afirmou.
Uma das dificuldades da negociação é o receio de cada país, em especial da China, dos Estados Unidos e também da Alemanha, de ser acusado de responsável por parte dos desequilíbrios. "É um tema que é objeto de um debate intenso neste momento e que o será nos próximos dias, porque alguns países não querem ser identificados como responsáveis por esta ou aquela política", disse Lagarde. "Tentemos antes de mais nada um acordo sobre os indicadores. A seguir, será o momento de passar os países na peneira, tomando cuidado para não estigmatizar os maus alunos."
Ontem mesmo, porém, a Secretaria do Tesouro dos EUA que não existe necessidade de firmar o acordo em Paris. Em meias palavras, os americanos divergem da prioridade francesa. Washington argumenta que o G-20 de Seul, da Coreia do Sul, realizado em novembro, concordou que os indicadores devam ser definidos até o fim do primeiro semestre de 2011 pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
Desconfianças. Outro objeto de esforço diplomático do Palácio do Eliseu é reduzir as desconfianças internacionais sobre as propostas da França. Para isso, o governo francês pisa em ovos a cada declaração. Nas negociações sobre a reforma do sistema monetário internacional (SMI), por exemplo, a dificuldade é expor a insatisfação dos países do Ocidente em relação à subvalorização do yuan em relação ao euro e ao dólar e ao câmbio dirigido do Banco Central da China sem, entretanto, minar a capacidade de diálogo com os chineses.
À rádio France Info, Lagarde fez críticas à autoridade monetária chinesa, mas ao mesmo tempo elogiou o potencial do yuan como uma das divisas de referência global. "É preciso que o yuan não seja tão administrado como o é e que ela seja também uma moeda internacional, conversível e flutuante como são a maior parte das moedas dos países desenvolvidos."
Brasil veta no G-20 regras para câmbio
Autor(es): Andrei Netto
O Estado de S. Paulo - 18/02/2011
Governo se opõe à criação de diretrizes globais para o controle do fluxo de capitais estrangeiros em cada país e ao limite para acúmulo de reservas.
O Brasil não aceitará no encontro de ministros de Economia e presidentes de bancos centrais do G-20 (dos 20 países mais influentes do mundo), cujo início oficial acontece hoje, em Paris, a criação de diretrizes globais para o controle do fluxo de capital externo. O Brasil também não aceita limites para o acúmulo de reservas internacionais.
Os dois temas são vistos pelos negociadores brasileiros como aqueles com maior potencial de atrito entre países desenvolvidos e emergentes. Se o veto brasileiro às propostas persistir, os dois temas não devem ser objeto de acordo na cúpula do G-20, em novembro, em Cannes.
Manual. As posições do Brasil foram confirmadas por fontes envolvidas nas negociações. No que diz respeito ao fluxo de capitais, o País só aceita a criação de uma espécie de manual em que constem os exemplos de políticas nacionais. No caso do Brasil, seria incluído o exemplo da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), elevada de 2% para 4% em novembro de 2010, que incide sobre investimentos estrangeiros em renda fixa e ações. Esse compêndio não teria caráter coercitivo.
Em suas propostas para o G-20, a França defende a "melhor regulação dos fluxos de capitais" - na prática, um enquadramento ou eliminação das ações implementadas. Na segunda-feira, a ministra da Economia da França, Christine Lagarde, insinuou que as medidas de controle do fluxo de capitais, usadas também na Ásia, são protecionistas. "Países como o Brasil e a Coreia do Sul implantaram barreiras ou obrigações para limitar os fluxos de capital internacional. É preciso questionar a natureza dessas obrigações."
Ontem, Luiz Pereira da Silva, diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, classificou a adoção do IOF de medida macroprudencial, recusando o rótulo de protecionismo. "A nossa proposta é, em vez de tentar focalizar em uma cartilha ou em uma espécie de "guide lines" (diretrizes), compartilharmos, através de uma lista mais exaustiva, de todas as experiências internacionais, tudo o que os outros países estão fazendo para esse tipo de administração."
"Se você quiser enquadrar isso numa espécie de receituário pronto, pode eliminar graus de liberdade necessários para os países conduzirem suas políticas em razão do que eles estão observando no contexto de suas economias", disse ele.
Outro negociador vindo de Brasília confirmou a falta de disposição para negociar regras para o controle de fluxos de capital. "O Brasil está passando por uma experiência nova e usando ferramentas novas. Não faz sentido pular direto para "guide lines"."
Além disso, o governo brasileiro também não aceita que políticas de controle de fluxos de capital passem a ser fiscalizadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), como propôs Lagarde.
"Não é uma atitude desejável porque no fundo vai acabar tentando colocar uma espécie de selo de aprovação para o país", disse Pereira. "Sinalizar de uma maneira muito específica quais devam ser os procedimentos tira a discricionariedade da política econômica dos países, que é um elemento importante para gerenciar esses fluxos."
Reservas. Sobre o acúmulo de reservas internacionais, o Brasil também descartou a criação de qualquer tipo de limite para os emergentes. "Essa é uma questão muito delicada. Não adianta querer colocar um número mágico", avalia o executivo do BC. Sobre volume das reservas brasileiras, de US$ 300 bilhões - ou 13% do PIB -, Pereira disse que é "um nível adequado".
As posições rígidas do Brasil, claro, não significam um rompimento com os demais parceiros do G-20 nas negociações em Paris. Os negociadores reiteram que se mantêm abertos às discussões, e que a reunião de hoje e amanhã é só o início de um processo que chegará ao auge na cúpula de Cannes, em novembro.
"Estamos definindo o campo de jogo. O resultado no fim do ano ainda está muito aberto", ponderou um dos negociadores. Porém, como o G-20 é um fórum de decisões consensuais, o eventual bloqueio do Brasil - se confirmado - impedirá que as duas propostas sejam adotadas na cúpula de novembro.
PARA ENTENDER
O G-20 é o grupo dos países mais ricos e tornou-se o fórum preferencial para discussão das questões relativas ao sistema financeiro internacional, reuninco 85% do PIB global. O G-20 ministerial é uma reunião de ministros da Economia e presidentes de bancos centrais, preparatório para a cúpula do G-20, em novembro. Neste ano, haverá mais duas reuniões: em Washington, em abril, e em outubro, de novo em Paris. Entre os temas mais controversos em discussão hoje e amanhã estão os critérios para definir "desequilíbrio macroeconômico"; guerra fiscal (em especial a flutuação do yuan); regulação do mercado de commodities; controle do fluxo de capitais: e o limite para acumulação de reservas.
O Estado de S. Paulo - 18/02/2011
Governo se opõe à criação de diretrizes globais para o controle do fluxo de capitais estrangeiros em cada país e ao limite para acúmulo de reservas.
O Brasil não aceitará no encontro de ministros de Economia e presidentes de bancos centrais do G-20 (dos 20 países mais influentes do mundo), cujo início oficial acontece hoje, em Paris, a criação de diretrizes globais para o controle do fluxo de capital externo. O Brasil também não aceita limites para o acúmulo de reservas internacionais.
Os dois temas são vistos pelos negociadores brasileiros como aqueles com maior potencial de atrito entre países desenvolvidos e emergentes. Se o veto brasileiro às propostas persistir, os dois temas não devem ser objeto de acordo na cúpula do G-20, em novembro, em Cannes.
Manual. As posições do Brasil foram confirmadas por fontes envolvidas nas negociações. No que diz respeito ao fluxo de capitais, o País só aceita a criação de uma espécie de manual em que constem os exemplos de políticas nacionais. No caso do Brasil, seria incluído o exemplo da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), elevada de 2% para 4% em novembro de 2010, que incide sobre investimentos estrangeiros em renda fixa e ações. Esse compêndio não teria caráter coercitivo.
Em suas propostas para o G-20, a França defende a "melhor regulação dos fluxos de capitais" - na prática, um enquadramento ou eliminação das ações implementadas. Na segunda-feira, a ministra da Economia da França, Christine Lagarde, insinuou que as medidas de controle do fluxo de capitais, usadas também na Ásia, são protecionistas. "Países como o Brasil e a Coreia do Sul implantaram barreiras ou obrigações para limitar os fluxos de capital internacional. É preciso questionar a natureza dessas obrigações."
Ontem, Luiz Pereira da Silva, diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, classificou a adoção do IOF de medida macroprudencial, recusando o rótulo de protecionismo. "A nossa proposta é, em vez de tentar focalizar em uma cartilha ou em uma espécie de "guide lines" (diretrizes), compartilharmos, através de uma lista mais exaustiva, de todas as experiências internacionais, tudo o que os outros países estão fazendo para esse tipo de administração."
"Se você quiser enquadrar isso numa espécie de receituário pronto, pode eliminar graus de liberdade necessários para os países conduzirem suas políticas em razão do que eles estão observando no contexto de suas economias", disse ele.
Outro negociador vindo de Brasília confirmou a falta de disposição para negociar regras para o controle de fluxos de capital. "O Brasil está passando por uma experiência nova e usando ferramentas novas. Não faz sentido pular direto para "guide lines"."
Além disso, o governo brasileiro também não aceita que políticas de controle de fluxos de capital passem a ser fiscalizadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), como propôs Lagarde.
"Não é uma atitude desejável porque no fundo vai acabar tentando colocar uma espécie de selo de aprovação para o país", disse Pereira. "Sinalizar de uma maneira muito específica quais devam ser os procedimentos tira a discricionariedade da política econômica dos países, que é um elemento importante para gerenciar esses fluxos."
Reservas. Sobre o acúmulo de reservas internacionais, o Brasil também descartou a criação de qualquer tipo de limite para os emergentes. "Essa é uma questão muito delicada. Não adianta querer colocar um número mágico", avalia o executivo do BC. Sobre volume das reservas brasileiras, de US$ 300 bilhões - ou 13% do PIB -, Pereira disse que é "um nível adequado".
As posições rígidas do Brasil, claro, não significam um rompimento com os demais parceiros do G-20 nas negociações em Paris. Os negociadores reiteram que se mantêm abertos às discussões, e que a reunião de hoje e amanhã é só o início de um processo que chegará ao auge na cúpula de Cannes, em novembro.
"Estamos definindo o campo de jogo. O resultado no fim do ano ainda está muito aberto", ponderou um dos negociadores. Porém, como o G-20 é um fórum de decisões consensuais, o eventual bloqueio do Brasil - se confirmado - impedirá que as duas propostas sejam adotadas na cúpula de novembro.
PARA ENTENDER
O G-20 é o grupo dos países mais ricos e tornou-se o fórum preferencial para discussão das questões relativas ao sistema financeiro internacional, reuninco 85% do PIB global. O G-20 ministerial é uma reunião de ministros da Economia e presidentes de bancos centrais, preparatório para a cúpula do G-20, em novembro. Neste ano, haverá mais duas reuniões: em Washington, em abril, e em outubro, de novo em Paris. Entre os temas mais controversos em discussão hoje e amanhã estão os critérios para definir "desequilíbrio macroeconômico"; guerra fiscal (em especial a flutuação do yuan); regulação do mercado de commodities; controle do fluxo de capitais: e o limite para acumulação de reservas.
BC antecipa novas regras para os bancos
Autor(es): Fabio Graner
O Estado de S. Paulo - 18/02/2011
Comunicado divulga medidas para atuação das instituições definidas pelo Comitê de Basileia, por orientação do G-20.
O Banco Central publicou ontem orientações preliminares e um cronograma de implementação de regras mais rígidas de atuação dos bancos. Com base em medidas prudenciais sugeridas pelo chamado Comitê de Basileia, o BC informa que nos próximos anos o sistema financeiro nacional terá de lidar com novidades, como um cálculo mais rigoroso da reserva de capital para os bancos, a criação de dois colchões extras para situações de adversidade econômico-financeira, além de novos índices de medição de riscos.
O calendário definido pela autoridade brasileira antecipa a implementação sugerida no fórum da Basileia, que seguiu orientação do G-20 (o grupo das 20 economias mais ricas do planeta) com base nas avaliações sobre as causas da crise financeira internacional iniciada em 2008.
Segundo o BC, ao final do processo de implementação das regras de Basileia III, a reserva total de capital dos bancos poderá chegar a 13% (hoje, a norma brasileira prevê um mínimo de 11%, que já está acima dos 8% previstos na regulação internacional).
Além disso, os cálculos serão feitos com base em conceitos mais restritivos, que excluem da conta alguns ativos como créditos tributários e ações mantidas pela tesouraria dos bancos, entre outros. De outro lado, limitam em parte o conceito de capital a ações e lucros retidos, sem considerar por exemplo alguns créditos que são capital e dívida.
Preparação. O comunicado número 20.615 publicado pelo BC ainda não é uma norma. Apenas busca prestar informações a todos os participantes do sistema financeiro sobre os rumos da legislação prudencial da indústria bancária e seu provável período de implantação, para já deixar o segmento preparado para as alterações na legislação, que começarão a ocorrer no fim deste ano.
"A divulgação busca fornecer elementos para as instituições financeiras planejarem adequadamente suas necessidades de capital e de liquidez, de forma a permitir uma adaptação eficiente aos novos padrões prudenciais", diz nota à imprensa. "As recomendações de Basileia III visam a aperfeiçoar a capacidade das instituições financeiras de absorver choques provenientes do sistema financeiro ou dos demais setores da economia."
A nova legislação vai instituir também dois colchões extras de proteção para os bancos. O primeiro, chamado "capital de conservação", será requerido sempre que os bancos derem lucro. Esse capital começa a ser exigido em 2016, a uma alíquota de 0,625%, e será de 2,5% dos ativos do banco a partir de 2019. Essa reserva poderá ser usada em anos de prejuízo da instituição.
O outro colchão que será instituído é chamado de "capital contracíclico", que será definido pelo BC a partir de 2014, a uma taxa máxima de 0,625%, chegando a 2,5% a partir de 2019. Outra iniciativa é a criação de dois índices de liquidez, um de curto prazo - com início em 2015, embora comece a ser monitorado a partir do ano que vem - e um de longo prazo, a partir de 2018.
Planejamento
Nota à imprensa
Trecho do comunicado do BC
"A divulgação busca fornecer elementos para as instituições financeiras planejarem adequadamente suas necessidades de capital e de liquidez, de forma a permitir uma daptação eficiente aos novos padrões prudenciais"
O Estado de S. Paulo - 18/02/2011
Comunicado divulga medidas para atuação das instituições definidas pelo Comitê de Basileia, por orientação do G-20.
O Banco Central publicou ontem orientações preliminares e um cronograma de implementação de regras mais rígidas de atuação dos bancos. Com base em medidas prudenciais sugeridas pelo chamado Comitê de Basileia, o BC informa que nos próximos anos o sistema financeiro nacional terá de lidar com novidades, como um cálculo mais rigoroso da reserva de capital para os bancos, a criação de dois colchões extras para situações de adversidade econômico-financeira, além de novos índices de medição de riscos.
O calendário definido pela autoridade brasileira antecipa a implementação sugerida no fórum da Basileia, que seguiu orientação do G-20 (o grupo das 20 economias mais ricas do planeta) com base nas avaliações sobre as causas da crise financeira internacional iniciada em 2008.
Segundo o BC, ao final do processo de implementação das regras de Basileia III, a reserva total de capital dos bancos poderá chegar a 13% (hoje, a norma brasileira prevê um mínimo de 11%, que já está acima dos 8% previstos na regulação internacional).
Além disso, os cálculos serão feitos com base em conceitos mais restritivos, que excluem da conta alguns ativos como créditos tributários e ações mantidas pela tesouraria dos bancos, entre outros. De outro lado, limitam em parte o conceito de capital a ações e lucros retidos, sem considerar por exemplo alguns créditos que são capital e dívida.
Preparação. O comunicado número 20.615 publicado pelo BC ainda não é uma norma. Apenas busca prestar informações a todos os participantes do sistema financeiro sobre os rumos da legislação prudencial da indústria bancária e seu provável período de implantação, para já deixar o segmento preparado para as alterações na legislação, que começarão a ocorrer no fim deste ano.
"A divulgação busca fornecer elementos para as instituições financeiras planejarem adequadamente suas necessidades de capital e de liquidez, de forma a permitir uma adaptação eficiente aos novos padrões prudenciais", diz nota à imprensa. "As recomendações de Basileia III visam a aperfeiçoar a capacidade das instituições financeiras de absorver choques provenientes do sistema financeiro ou dos demais setores da economia."
A nova legislação vai instituir também dois colchões extras de proteção para os bancos. O primeiro, chamado "capital de conservação", será requerido sempre que os bancos derem lucro. Esse capital começa a ser exigido em 2016, a uma alíquota de 0,625%, e será de 2,5% dos ativos do banco a partir de 2019. Essa reserva poderá ser usada em anos de prejuízo da instituição.
O outro colchão que será instituído é chamado de "capital contracíclico", que será definido pelo BC a partir de 2014, a uma taxa máxima de 0,625%, chegando a 2,5% a partir de 2019. Outra iniciativa é a criação de dois índices de liquidez, um de curto prazo - com início em 2015, embora comece a ser monitorado a partir do ano que vem - e um de longo prazo, a partir de 2018.
Planejamento
Nota à imprensa
Trecho do comunicado do BC
"A divulgação busca fornecer elementos para as instituições financeiras planejarem adequadamente suas necessidades de capital e de liquidez, de forma a permitir uma daptação eficiente aos novos padrões prudenciais"
Importando a confusão e somando com a nossa
Autor(es): Washington Novaes
O Estado de S. Paulo - 18/02/2011
Dificilmente em qualquer outra época se terão juntado tantos fatores externos e internos para dificultar o diagnóstico e a adoção de caminhos eficazes para resolver em âmbito global ou de cada país a grave crise econômico-financeira-produtiva-social-ambiental do mundo de hoje. A tal ponto que dificilmente a reunião de hoje e amanhã do G-20 chegará a consensos produtivos. Da mesma forma que, no nosso panorama interno, são enormes e evidentes as dificuldades para avançar nos ásperos caminhos da contenção da inflação sem perder o embalo do crescimento.
Não é novidade que o presidente da França, Nicolas Sarkozy, insistirá em criar uma taxação internacional sobre operações financeiras, na esperança de deter a especulação, que gira mais de US$ 600 trilhões (Estado, 28/1), num mundo onde o produto bruto anual de todas as nações juntas anda pelos US$ 60 trilhões anuais. E como a crise financeira e a ameaça de "débâcles" vivem rondando todos os países, inclusive os industrializados, parte desse dinheiro especulativo invade cada vez mais o mundo real das commodities (agropecuárias, minerais), em busca de garantias reais - e é, na visão de Sarkozy, o principal fator da alta do preço dos alimentos no mundo (Estado, 30/1).
Para a ONU (19/1), as "respostas momentâneas descoordenadas à crise cambial e ao desemprego", conjugadas com medidas de austeridade fiscal, "ameaçam a recuperação econômica do mundo", assim como dificultam avanços nas tentativas de acudir quase 1 bilhão de pessoas que passam fome e centenas de milhões à beira desse precipício.
O preço dos alimentos no mundo é hoje o mais alto de todos os tempos, diz o Earth Policy Institute, na hora em que, a cada dia, mais 219 mil pessoas se somam à população (80 milhões por ano) e a produção agrícola vem em boa parte de zonas áridas ou com problemas hídricos. Até 2070, diz Jacques Diouf, diretor-geral da Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO), da ONU, será preciso aumentar a produção de alimentos no mundo em 70% (100% nos países mais pobres). Como se fará isso em meio à especulação financeira e aos subsídios dos países mais ricos (US$ 365 bilhões anuais só aos produtores da OCDE, segundo a Folha de S.Paulo, 6/2), que condicionam a oferta a outras razões (balanço comercial, mercado financeiro etc.)?
O preço da cesta de alimentos já é o mais alto desde 1990, segundo a FAO (Estado, 4/2). E não é novidade que no oligopolizado mercado futuro de commodities um mesmo lote de soja ou trigo chega a passar (no papel ou no computador) de mão em mão até 40 vezes, antes de se concretizarem a venda final e o consumo.
Quando se olha a questão por outro ângulo - o dos custos dos produtos agrícolas -, a perplexidade não é menor. O Brasil já é o maior importador de agrotóxicos no mundo. Consome em torno de 14 litros por hectare cultivado - além de 180 mil toneladas anuais de fertilizantes. A importação de fertilizantes cresceu mais de 200% em uma década e chegou a 80% do total (era de 20% há 30 anos). Importamos 74% do nitrogênio, 49% do fósforo e 92% do potássio. A importação total de defensivos anda pela casa dos R$ 12 bilhões anuais.
Mas os alimentos "não são o vilão da inflação", diz o ministro da Agricultura, quando se discute a alta de preços (23/12). O ex-ministro Rubens Ricupero lhe dá razão em parte, ao lembrar que os preços atuais também recuperam as graves perdas da década de 80 (Folha de S.Paulo, 6/2) - embora ele não esqueça a especulação financeira com commodities e os preços oligopolizados dos insumos químicos e agrotóxicos. Mas o fato é que o índice de commodities agropecuárias (soja, carne, trigo, açúcar) do Banco Central já acusava em outubro de 2010 alta de 46%; na energia (petróleo, gás, cana), 17%; e nos metais, 5,9%. Nouriel Roubini, um dos raros economistas que previram a crie mundial de 2008, acha que a atual situação "pode levar à instabilidade econômica e política" (27/1).
Mas a especulação não é só nas commodities. As altas taxas de juros no Brasil atraem legiões de investidores, já que elas estão em zero ou pouco acima nos países mais ricos. O governo brasileiro precisa, por isso, comprar moeda estrangeira (US$ 41,4 bilhões, quase o dobro do capital que entrou no País), aumentando as despesas com juros. Cresce a dívida pública (R$ 1,694 trilhão). Os problemas cambiais levam a um déficit da indústria em suas relações com o exterior. O governo tem de recorrer a impostos compulsórios para bancos com posições "vendidas" no câmbio. Amiúdam-se as projeções em torno de expectativas de aumentos da taxa de inflação ou alertas (como nas atas do Copom). O ministro da Fazenda chegou a falar em expurgos nos índices de inflação nos alimentos e combustíveis - mas parece haver desistido. O fato é que o IGP-M de 2010 (11,32%) é o mais alto desde 2004, com forte participação dos preços de alimentos. Os preços do boi gordo na Bolsa subiram em 2010 mais de 36%, para chegar a R$ 117,18 a arroba. Caem as expectativas dos economistas para o crescimento do PIB este ano.
Segundo os pecuaristas, a alta da carne foi para recuperar as perdas de 2004 a 2007 (15/2). O mercado só se estabilizará, segundo eles, em 2014. E, para atender às expectativas de exportação em 2011 e ao aumento do consumo per capita para 38 quilos anuais, será preciso aumentar ainda mais a produção. Onde expandir? No Cerrado, dizem alguns dirigentes do setor (Estado, 11/2). Mesmo na Amazônia não será tão problemático, dizem outros - e os dados mais recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) já apontam para certa reversão de tendência ali, com o desmatamento no segundo semestre mais alto que o de igual período de 2009.
O jeito é ir pondo a culpa de tudo no crescimento da China e da Índia. Com a distância, as contestações demoram.
O Estado de S. Paulo - 18/02/2011
Dificilmente em qualquer outra época se terão juntado tantos fatores externos e internos para dificultar o diagnóstico e a adoção de caminhos eficazes para resolver em âmbito global ou de cada país a grave crise econômico-financeira-produtiva-social-ambiental do mundo de hoje. A tal ponto que dificilmente a reunião de hoje e amanhã do G-20 chegará a consensos produtivos. Da mesma forma que, no nosso panorama interno, são enormes e evidentes as dificuldades para avançar nos ásperos caminhos da contenção da inflação sem perder o embalo do crescimento.
Não é novidade que o presidente da França, Nicolas Sarkozy, insistirá em criar uma taxação internacional sobre operações financeiras, na esperança de deter a especulação, que gira mais de US$ 600 trilhões (Estado, 28/1), num mundo onde o produto bruto anual de todas as nações juntas anda pelos US$ 60 trilhões anuais. E como a crise financeira e a ameaça de "débâcles" vivem rondando todos os países, inclusive os industrializados, parte desse dinheiro especulativo invade cada vez mais o mundo real das commodities (agropecuárias, minerais), em busca de garantias reais - e é, na visão de Sarkozy, o principal fator da alta do preço dos alimentos no mundo (Estado, 30/1).
Para a ONU (19/1), as "respostas momentâneas descoordenadas à crise cambial e ao desemprego", conjugadas com medidas de austeridade fiscal, "ameaçam a recuperação econômica do mundo", assim como dificultam avanços nas tentativas de acudir quase 1 bilhão de pessoas que passam fome e centenas de milhões à beira desse precipício.
O preço dos alimentos no mundo é hoje o mais alto de todos os tempos, diz o Earth Policy Institute, na hora em que, a cada dia, mais 219 mil pessoas se somam à população (80 milhões por ano) e a produção agrícola vem em boa parte de zonas áridas ou com problemas hídricos. Até 2070, diz Jacques Diouf, diretor-geral da Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO), da ONU, será preciso aumentar a produção de alimentos no mundo em 70% (100% nos países mais pobres). Como se fará isso em meio à especulação financeira e aos subsídios dos países mais ricos (US$ 365 bilhões anuais só aos produtores da OCDE, segundo a Folha de S.Paulo, 6/2), que condicionam a oferta a outras razões (balanço comercial, mercado financeiro etc.)?
O preço da cesta de alimentos já é o mais alto desde 1990, segundo a FAO (Estado, 4/2). E não é novidade que no oligopolizado mercado futuro de commodities um mesmo lote de soja ou trigo chega a passar (no papel ou no computador) de mão em mão até 40 vezes, antes de se concretizarem a venda final e o consumo.
Quando se olha a questão por outro ângulo - o dos custos dos produtos agrícolas -, a perplexidade não é menor. O Brasil já é o maior importador de agrotóxicos no mundo. Consome em torno de 14 litros por hectare cultivado - além de 180 mil toneladas anuais de fertilizantes. A importação de fertilizantes cresceu mais de 200% em uma década e chegou a 80% do total (era de 20% há 30 anos). Importamos 74% do nitrogênio, 49% do fósforo e 92% do potássio. A importação total de defensivos anda pela casa dos R$ 12 bilhões anuais.
Mas os alimentos "não são o vilão da inflação", diz o ministro da Agricultura, quando se discute a alta de preços (23/12). O ex-ministro Rubens Ricupero lhe dá razão em parte, ao lembrar que os preços atuais também recuperam as graves perdas da década de 80 (Folha de S.Paulo, 6/2) - embora ele não esqueça a especulação financeira com commodities e os preços oligopolizados dos insumos químicos e agrotóxicos. Mas o fato é que o índice de commodities agropecuárias (soja, carne, trigo, açúcar) do Banco Central já acusava em outubro de 2010 alta de 46%; na energia (petróleo, gás, cana), 17%; e nos metais, 5,9%. Nouriel Roubini, um dos raros economistas que previram a crie mundial de 2008, acha que a atual situação "pode levar à instabilidade econômica e política" (27/1).
Mas a especulação não é só nas commodities. As altas taxas de juros no Brasil atraem legiões de investidores, já que elas estão em zero ou pouco acima nos países mais ricos. O governo brasileiro precisa, por isso, comprar moeda estrangeira (US$ 41,4 bilhões, quase o dobro do capital que entrou no País), aumentando as despesas com juros. Cresce a dívida pública (R$ 1,694 trilhão). Os problemas cambiais levam a um déficit da indústria em suas relações com o exterior. O governo tem de recorrer a impostos compulsórios para bancos com posições "vendidas" no câmbio. Amiúdam-se as projeções em torno de expectativas de aumentos da taxa de inflação ou alertas (como nas atas do Copom). O ministro da Fazenda chegou a falar em expurgos nos índices de inflação nos alimentos e combustíveis - mas parece haver desistido. O fato é que o IGP-M de 2010 (11,32%) é o mais alto desde 2004, com forte participação dos preços de alimentos. Os preços do boi gordo na Bolsa subiram em 2010 mais de 36%, para chegar a R$ 117,18 a arroba. Caem as expectativas dos economistas para o crescimento do PIB este ano.
Segundo os pecuaristas, a alta da carne foi para recuperar as perdas de 2004 a 2007 (15/2). O mercado só se estabilizará, segundo eles, em 2014. E, para atender às expectativas de exportação em 2011 e ao aumento do consumo per capita para 38 quilos anuais, será preciso aumentar ainda mais a produção. Onde expandir? No Cerrado, dizem alguns dirigentes do setor (Estado, 11/2). Mesmo na Amazônia não será tão problemático, dizem outros - e os dados mais recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) já apontam para certa reversão de tendência ali, com o desmatamento no segundo semestre mais alto que o de igual período de 2009.
O jeito é ir pondo a culpa de tudo no crescimento da China e da Índia. Com a distância, as contestações demoram.
Brasil resiste no G-20 a crítica ao acúmulo de reservas
Autor(es): Assis Moreira | De Paris
Valor Econômico - 17/02/2011
Brasil, China e vários emergentes resistem no G-20 ao uso das reservas internacionais como um indicador para sinalizar desequilíbrios, o que poderia levar os países a adotar medidas para reequilibrar seu crescimento econômico.
O Valor apurou que a preocupação do Brasil e de outros emergentes é que esse tipo de indicador abra caminho para o Fundo Monetário Internacional (FMI) tentar estabelecer depois qual seria o valor adequado de reservas.
O debate no G-20 ocorre uma semana após auditoria independente no FMI ter mostrado que vários emergentes tiveram a impressão, durante a crise global, de que o Fundo os empurrava a reduzir o ritmo de acumulação de reservas "excessivas". Para alguns deles, o Fundo cedia às pressões políticas de países ricos para corrigir os desequilíbrios mundiais de uma maneira mais adequada a seus interesses nacionais.
O diretor-executivo do Brasil e mais oito países no FMI, Paulo Nogueira Batista Jr., confirmou que, como testemunha das discussões de missões do FMI no Brasil, em 2007 e 2008, "é correto o que o relatório diz sobre essa percepção" entre funcionários do país.
Emergentes expandiram suas reservas de 4% do PIB global, em 1990, para mais de 20%, em média, atualmente. As reservas servem de precaução contra saídas abruptas de capital. Servem também para fornecer liquidez às instituições financeiras nacionais. São usadas como instrumentos para estabilidade financeira interna e externa.
Segundo a França, que ocupa a presidência rotativa do G-20, o montante total de reservas (excluindo ouro), ao final de 2009, alcançou US$ 9,247 trilhões, numa alta de 162% desde fins de 2004. Os emergentes detêm mais de 75% das reservas cambiais mundiais. A China, com US$ 2,847 trilhões, detém 31% do total; o Japão, 11%; a Arábia Saudita e a Rússia, 5%. O Brasil tem 3% do total.
No G-20, o Banco Central Europeu (BCE), os Estados Unidos e a Alemanha são os que mais defendem redução da acumulação de reservas, o que é visto como uma maneira de fazer países como a China apreciarem mais rapidamente sua moeda e importar mais, ao invés de poupar no ritmo atual.
Mas também a Coreia do Sul, Indonésia e Argentina estão com o Brasil e a China. A situação brasileira, em todo caso, é considerada mais confortável. As reservas de US$ 300 bilhões em proporção do PIB são consideradas normais. Uma fonte europeia contou que volumes altos no Brasil podem ser justificados por causa do fluxo de capitais.
A França, por seu lado, insiste que os desequilíbrios macroeconômicos estão aumentando. Exemplifica que entre 1998 e 2007, a soma de déficits e excedentes dos países do G-20 passou de US$ 540 bilhões (2,3% do PIB do grupo) para US$ 2,5 trilhões (5,6% do PIB). Em proporção de riqueza mundial, os desequilíbrios de balança de pagamentos foram multiplicados por dois.
Outro exemplo é o fluxo de capitais "instáveis". A crise de 2008-2009 causou uma diminuição de entradas líquidas de capitais de US$ 1,150 trilhão nos emergentes. A saída de capital durante a crise alcançou US$ 45 bilhões no Brasil, US$ 262 bilhões na China e US$ 270 bilhões na Rússia. Pelo menos 26 episódios de parada brutal de fluxos de capital foram identificados desde 2008.
Os franceses sugerem entendimentos para favorecer fluxos de capitais estáveis e "gestão mais cooperativa" das reservas internacionais. A Alemanha se juntou ontem ao esforço da França para arrancar até sábado indicadores mesmo genéricos para identificar os desequilíbrios numa economia.
Uma barganha está em curso, para conciliar interesses da China e Alemanha, os países com maiores superávits comerciais, e os Estados Unidos, com o maior déficit, por indicadores ditos qualitativos, portanto, sem objetivos quantitativos para países individuais. Reduz bastante o exercício e facilita para a China engolir o entendimento. "Mas está tudo em aberto", insistiu um negociador, lembrando que tanto as reservas como as contas correntes continuam causando polêmica no G-20.
Valor Econômico - 17/02/2011
Brasil, China e vários emergentes resistem no G-20 ao uso das reservas internacionais como um indicador para sinalizar desequilíbrios, o que poderia levar os países a adotar medidas para reequilibrar seu crescimento econômico.
O Valor apurou que a preocupação do Brasil e de outros emergentes é que esse tipo de indicador abra caminho para o Fundo Monetário Internacional (FMI) tentar estabelecer depois qual seria o valor adequado de reservas.
O debate no G-20 ocorre uma semana após auditoria independente no FMI ter mostrado que vários emergentes tiveram a impressão, durante a crise global, de que o Fundo os empurrava a reduzir o ritmo de acumulação de reservas "excessivas". Para alguns deles, o Fundo cedia às pressões políticas de países ricos para corrigir os desequilíbrios mundiais de uma maneira mais adequada a seus interesses nacionais.
O diretor-executivo do Brasil e mais oito países no FMI, Paulo Nogueira Batista Jr., confirmou que, como testemunha das discussões de missões do FMI no Brasil, em 2007 e 2008, "é correto o que o relatório diz sobre essa percepção" entre funcionários do país.
Emergentes expandiram suas reservas de 4% do PIB global, em 1990, para mais de 20%, em média, atualmente. As reservas servem de precaução contra saídas abruptas de capital. Servem também para fornecer liquidez às instituições financeiras nacionais. São usadas como instrumentos para estabilidade financeira interna e externa.
Segundo a França, que ocupa a presidência rotativa do G-20, o montante total de reservas (excluindo ouro), ao final de 2009, alcançou US$ 9,247 trilhões, numa alta de 162% desde fins de 2004. Os emergentes detêm mais de 75% das reservas cambiais mundiais. A China, com US$ 2,847 trilhões, detém 31% do total; o Japão, 11%; a Arábia Saudita e a Rússia, 5%. O Brasil tem 3% do total.
No G-20, o Banco Central Europeu (BCE), os Estados Unidos e a Alemanha são os que mais defendem redução da acumulação de reservas, o que é visto como uma maneira de fazer países como a China apreciarem mais rapidamente sua moeda e importar mais, ao invés de poupar no ritmo atual.
Mas também a Coreia do Sul, Indonésia e Argentina estão com o Brasil e a China. A situação brasileira, em todo caso, é considerada mais confortável. As reservas de US$ 300 bilhões em proporção do PIB são consideradas normais. Uma fonte europeia contou que volumes altos no Brasil podem ser justificados por causa do fluxo de capitais.
A França, por seu lado, insiste que os desequilíbrios macroeconômicos estão aumentando. Exemplifica que entre 1998 e 2007, a soma de déficits e excedentes dos países do G-20 passou de US$ 540 bilhões (2,3% do PIB do grupo) para US$ 2,5 trilhões (5,6% do PIB). Em proporção de riqueza mundial, os desequilíbrios de balança de pagamentos foram multiplicados por dois.
Outro exemplo é o fluxo de capitais "instáveis". A crise de 2008-2009 causou uma diminuição de entradas líquidas de capitais de US$ 1,150 trilhão nos emergentes. A saída de capital durante a crise alcançou US$ 45 bilhões no Brasil, US$ 262 bilhões na China e US$ 270 bilhões na Rússia. Pelo menos 26 episódios de parada brutal de fluxos de capital foram identificados desde 2008.
Os franceses sugerem entendimentos para favorecer fluxos de capitais estáveis e "gestão mais cooperativa" das reservas internacionais. A Alemanha se juntou ontem ao esforço da França para arrancar até sábado indicadores mesmo genéricos para identificar os desequilíbrios numa economia.
Uma barganha está em curso, para conciliar interesses da China e Alemanha, os países com maiores superávits comerciais, e os Estados Unidos, com o maior déficit, por indicadores ditos qualitativos, portanto, sem objetivos quantitativos para países individuais. Reduz bastante o exercício e facilita para a China engolir o entendimento. "Mas está tudo em aberto", insistiu um negociador, lembrando que tanto as reservas como as contas correntes continuam causando polêmica no G-20.
Versões sobre acordo no G-20 são divergentes
Autor(es): Andrei Netto
O Estado de S. Paulo - 17/02/2011
Às vésperas da reunião ministerial do G-20, em Paris, as versões divergem sobre um acordo a respeito da pauta prioritária do evento: a definição de indicadores de desequilíbrio macroeconômico. Na Alemanha, negociadores informaram que um acordo será firmado sobre cinco itens: saldo de contas correntes, taxas de câmbio reais, reservas de câmbio, déficit e dívida pública e poupança privada.
O acordo sobre os indicadores é o objetivo número 1 do G-20 ministerial de Paris, já que o governo francês avalia a criação do critério como base para as demais discussões. Até a segunda-feira, porém, as discussões ainda prosseguiam sem um denominador comum, segundo admitiu a ministra de Economia da França, Christine Lagarde.
Ontem, a agência de notícias Dow Jones publicou extratos de um rascunho do que seria o comunicado final do G-20 ministerial. Nesse texto provisório, os ministros afirmam que houve acordo sobre um "conjunto limitado" de indicadores de desequilíbrio macroeconômico, mas não dizem quais. Na prática, isso significaria que os critérios podem não ser definidos até sábado - postergando mais uma vez uma decisão já adiada em novembro de 2010, pela cúpula de Seul. O documento afirma que uma posição definitiva deverá ser encontrada até a reunião ministerial de abril, em Washington.
O texto também considera preocupantes as manifestações de desequilíbrio mundial. "Enquanto a maior parte das economias desenvolvidas está observando um modesto crescimento e um alto desemprego persistente, as economias em desenvolvimento apresentam crescimento robusto, parte delas com sinais de superaquecimento", diz o documento provisório.
O Estado de S. Paulo - 17/02/2011
Às vésperas da reunião ministerial do G-20, em Paris, as versões divergem sobre um acordo a respeito da pauta prioritária do evento: a definição de indicadores de desequilíbrio macroeconômico. Na Alemanha, negociadores informaram que um acordo será firmado sobre cinco itens: saldo de contas correntes, taxas de câmbio reais, reservas de câmbio, déficit e dívida pública e poupança privada.
O acordo sobre os indicadores é o objetivo número 1 do G-20 ministerial de Paris, já que o governo francês avalia a criação do critério como base para as demais discussões. Até a segunda-feira, porém, as discussões ainda prosseguiam sem um denominador comum, segundo admitiu a ministra de Economia da França, Christine Lagarde.
Ontem, a agência de notícias Dow Jones publicou extratos de um rascunho do que seria o comunicado final do G-20 ministerial. Nesse texto provisório, os ministros afirmam que houve acordo sobre um "conjunto limitado" de indicadores de desequilíbrio macroeconômico, mas não dizem quais. Na prática, isso significaria que os critérios podem não ser definidos até sábado - postergando mais uma vez uma decisão já adiada em novembro de 2010, pela cúpula de Seul. O documento afirma que uma posição definitiva deverá ser encontrada até a reunião ministerial de abril, em Washington.
O texto também considera preocupantes as manifestações de desequilíbrio mundial. "Enquanto a maior parte das economias desenvolvidas está observando um modesto crescimento e um alto desemprego persistente, as economias em desenvolvimento apresentam crescimento robusto, parte delas com sinais de superaquecimento", diz o documento provisório.
Nova proposta francesa no G-20 agrada ao Brasil
Autor(es): Andrei Netto
O Estado de S. Paulo - 17/02/2011
Fazenda fica satisfeita com explicação de que a França vai propor regulamentar operações com derivativos financeiros de commodities
Ministros de Economia e presidentes de bancos centrais de países desenvolvidos e emergentes voltam à mesa de negociações, amanhã, em Paris, para a primeira reunião ministerial do G-20 em 2011. Como de praxe nos últimos encontros, eles estarão em lados opostos, divididos em questões como a criação de indicadores de desequilíbrios econômicos, na regulação de commodities e no controle de fluxos de capitais.
Apesar das divergências, o Brasil chega satisfeito pelo avanço da proposta dos anfitriões.
A reunião de ministros, que será realizada entre amanhã e sábado, é a primeira preparatória para a cúpula do G-20 de Cannes, em novembro. O evento é marcado por uma pauta ambiciosa - e polêmica - estabelecida pelos franceses. O centro do atrito entre países ricos e emergentes está na ideia de "reduzir desequilíbrios" que permeia os projetos defendidos pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy.
É esse objetivo que está por trás de propostas como a criação de limites para o controle de fluxo de capitais e para a especulação sobre derivados de commodities no mercado financeiro, além da reorganização do sistema monetário internacional.
Brasil. Um dos atritos dos anfitriões foi com o Brasil. Em recente discurso, Sarkozy defendeu em linguagem cifrada a regulação no mercado de matérias-primas, sem exemplificar que se referia à regulação de produtos financeiros derivados dessas mercadorias.
"Será que entre o produtor e o comprador não há vocação a regular, a organizar o mercado? Isso é tudo o que a França pede", afirmou. "Não façamos ideologia. Regulemos, organizemos, para que se trate de um verdadeiro mercado de tal forma que ninguém possa perturbar a lei da oferta e da procura."
Diante da rejeição de países como Brasil e Argentina, Christine Lagarde veio a público na segunda-feira defender uma proposta menos radical. Segundo ela, seu país não pretende propor a regulação dos preços das matérias-primas. Em recado direto ao Brasil, afirmou: "Repito aos nossos amigos brasileiros: não queremos administrar preços". Em contrapartida, reiterou o desejo de levar aos membros do G-20 a proposta de regulamentação das transações de produtos derivativos financeiros de commodities.
Ontem, assessores do ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, que estarão em Paris no G-20, avaliaram como positiva a postura de Lagarde, mais moderada que a de Sarkozy. O governo brasileiro considera "um avanço" que os anfitriões do G-20 já não falem em regulação do preço das matérias-primas. "Já é um passo. Sinaliza com uma posição menos intransigente no G-20", disse um assessor ao Estado.
Além do tema da regulação, há outros pontos de atrito entre as proposições que estarão na mesa de discussões até sábado e os interesses do País. Um deles diz respeito à criação de normas para a acumulação de reservas internacionais. O Brasil, que nesta semana chegou ao recorde de US$ 300 bilhões acumulados, tem restrições à proposta franco-alemã de estabelecer regras para a poupança externa.
O Estado de S. Paulo - 17/02/2011
Fazenda fica satisfeita com explicação de que a França vai propor regulamentar operações com derivativos financeiros de commodities
Ministros de Economia e presidentes de bancos centrais de países desenvolvidos e emergentes voltam à mesa de negociações, amanhã, em Paris, para a primeira reunião ministerial do G-20 em 2011. Como de praxe nos últimos encontros, eles estarão em lados opostos, divididos em questões como a criação de indicadores de desequilíbrios econômicos, na regulação de commodities e no controle de fluxos de capitais.
Apesar das divergências, o Brasil chega satisfeito pelo avanço da proposta dos anfitriões.
A reunião de ministros, que será realizada entre amanhã e sábado, é a primeira preparatória para a cúpula do G-20 de Cannes, em novembro. O evento é marcado por uma pauta ambiciosa - e polêmica - estabelecida pelos franceses. O centro do atrito entre países ricos e emergentes está na ideia de "reduzir desequilíbrios" que permeia os projetos defendidos pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy.
É esse objetivo que está por trás de propostas como a criação de limites para o controle de fluxo de capitais e para a especulação sobre derivados de commodities no mercado financeiro, além da reorganização do sistema monetário internacional.
Brasil. Um dos atritos dos anfitriões foi com o Brasil. Em recente discurso, Sarkozy defendeu em linguagem cifrada a regulação no mercado de matérias-primas, sem exemplificar que se referia à regulação de produtos financeiros derivados dessas mercadorias.
"Será que entre o produtor e o comprador não há vocação a regular, a organizar o mercado? Isso é tudo o que a França pede", afirmou. "Não façamos ideologia. Regulemos, organizemos, para que se trate de um verdadeiro mercado de tal forma que ninguém possa perturbar a lei da oferta e da procura."
Diante da rejeição de países como Brasil e Argentina, Christine Lagarde veio a público na segunda-feira defender uma proposta menos radical. Segundo ela, seu país não pretende propor a regulação dos preços das matérias-primas. Em recado direto ao Brasil, afirmou: "Repito aos nossos amigos brasileiros: não queremos administrar preços". Em contrapartida, reiterou o desejo de levar aos membros do G-20 a proposta de regulamentação das transações de produtos derivativos financeiros de commodities.
Ontem, assessores do ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, que estarão em Paris no G-20, avaliaram como positiva a postura de Lagarde, mais moderada que a de Sarkozy. O governo brasileiro considera "um avanço" que os anfitriões do G-20 já não falem em regulação do preço das matérias-primas. "Já é um passo. Sinaliza com uma posição menos intransigente no G-20", disse um assessor ao Estado.
Além do tema da regulação, há outros pontos de atrito entre as proposições que estarão na mesa de discussões até sábado e os interesses do País. Um deles diz respeito à criação de normas para a acumulação de reservas internacionais. O Brasil, que nesta semana chegou ao recorde de US$ 300 bilhões acumulados, tem restrições à proposta franco-alemã de estabelecer regras para a poupança externa.
França recua ante o Brasil para evitar racha no G-20
Autor(es): Assis Moreira | De Paris
Valor Econômico - 16/02/2011
Às vésperas da reunião ministerial do G-20, em Paris, a França ensaia um recuo para evitar uma rota de colisão com o Brasil sobre como controlar a disparada dos preços dos alimentos e regular os mercados agrícolas, após a reação do país a suas sugestões. O Valor apurou que o governo francês deflagrou um esforço adicional para explicar ao Brasil que não quer "prejudicar" os países exportadores nem buscar o controle de preços das commodities agrícolas, e sim deter a especulação com derivativos.
A França busca visivelmente evitar uma polarização no grupo das maiores economias do mundo sobre medidas envolvendo o mercado agrícola. Mas um negociador europeu admitiu que ainda é difícil decifrar o que os franceses realmente querem, porque continuam "medindo o pulso" sobre o tema. Diante da reação de países como o Brasil, alguns negociadores acreditam que Paris não vai insistir muito em questões como a formação de estoques reguladores regionais, por exemplo.
A preocupação com os preços dos alimentos está no centro da agenda francesa no G-20. Primeiro, pela situação atual de explosão dos valores e, segundo, pela aproximação da eleição presidencial na França. O presidente Nicolas Sarkozy quer mostrar que apoia seus agricultores, que tendem para a extrema-direita.
A França continua a ser um dos dez maiores exportadores de produtos agrícolas, o que permitiu que o superávit da balança comercial do país no ano passado superasse € 7 bilhões. O governo francês vem insistindo em vincular volatilidade de preços e segurança alimentar. Para o Brasil, isso tem pouco sentido. A volatilidade dos preços agrícolas sempre existiu. O que se pode tentar buscar é previsibilidade para consumidores e produtores, dentro de mecanismos de mercado e não de intervenção estatal. O Banco Mundial alertou ontem sobre "níveis perigosos" dos preços dos alimentos, que poderiam causar instabilidade política.
Por sua vez, organizações internacionais mostram que o auxílio dos países desenvolvidos para a agricultura de nações mais pobres caiu de 11,5% de toda a ajuda concedida em 1983/84 para 3,5% em 2008/09. Ao mesmo tempo, os gastos com agricultura pelos governos declinou na Ásia, África e América Latina.
O rápido aumento da renda nos países emergentes mudou o padrão da demanda, aumentando os preços dos alimentos com mais proteínas, como carnes e pescado. Só na China, o consumo de carne mais que dobrou em 20 anos e pode dobrar de novo até 2030. Para o Brasil, uma solução que o G-20 deve discutir é o estímulo à produção e o fim das barreiras à importação de produtos agrícolas.
Valor Econômico - 16/02/2011
Às vésperas da reunião ministerial do G-20, em Paris, a França ensaia um recuo para evitar uma rota de colisão com o Brasil sobre como controlar a disparada dos preços dos alimentos e regular os mercados agrícolas, após a reação do país a suas sugestões. O Valor apurou que o governo francês deflagrou um esforço adicional para explicar ao Brasil que não quer "prejudicar" os países exportadores nem buscar o controle de preços das commodities agrícolas, e sim deter a especulação com derivativos.
A França busca visivelmente evitar uma polarização no grupo das maiores economias do mundo sobre medidas envolvendo o mercado agrícola. Mas um negociador europeu admitiu que ainda é difícil decifrar o que os franceses realmente querem, porque continuam "medindo o pulso" sobre o tema. Diante da reação de países como o Brasil, alguns negociadores acreditam que Paris não vai insistir muito em questões como a formação de estoques reguladores regionais, por exemplo.
A preocupação com os preços dos alimentos está no centro da agenda francesa no G-20. Primeiro, pela situação atual de explosão dos valores e, segundo, pela aproximação da eleição presidencial na França. O presidente Nicolas Sarkozy quer mostrar que apoia seus agricultores, que tendem para a extrema-direita.
A França continua a ser um dos dez maiores exportadores de produtos agrícolas, o que permitiu que o superávit da balança comercial do país no ano passado superasse € 7 bilhões. O governo francês vem insistindo em vincular volatilidade de preços e segurança alimentar. Para o Brasil, isso tem pouco sentido. A volatilidade dos preços agrícolas sempre existiu. O que se pode tentar buscar é previsibilidade para consumidores e produtores, dentro de mecanismos de mercado e não de intervenção estatal. O Banco Mundial alertou ontem sobre "níveis perigosos" dos preços dos alimentos, que poderiam causar instabilidade política.
Por sua vez, organizações internacionais mostram que o auxílio dos países desenvolvidos para a agricultura de nações mais pobres caiu de 11,5% de toda a ajuda concedida em 1983/84 para 3,5% em 2008/09. Ao mesmo tempo, os gastos com agricultura pelos governos declinou na Ásia, África e América Latina.
O rápido aumento da renda nos países emergentes mudou o padrão da demanda, aumentando os preços dos alimentos com mais proteínas, como carnes e pescado. Só na China, o consumo de carne mais que dobrou em 20 anos e pode dobrar de novo até 2030. Para o Brasil, uma solução que o G-20 deve discutir é o estímulo à produção e o fim das barreiras à importação de produtos agrícolas.
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