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Venezuela nega pressão do Brasil por pagamento de dívidas

Claudia Jardim
De Caracas para a BBC Brasil
Atualizado em 31 de outubro, 2013 - 07:41 (Brasília) 09:41 GMT



O ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Elias Jaua, negou que a crise de desabastecimento que atinge o país tenha virado ponto de tensão na relação com o Brasil.

Em entrevista à BBC Brasil, ele desmentiu que o desembarque em Caracas de uma comissão especial enviada por Brasília tenha tido como objetivo a cobrança de dívidas do governo venezuelano com empresários brasileiros.

"A presidente Dilma (Roussef) enviou uma comissão para ver de que maneira podemos ampliar as importações e fazer frente à guerra econômica que estamos enfrentando", afirmou o ministro Jaua. "Em nenhum momento foi tratado este assunto (dívida)", acrescentou.

Mozarildo anuncia que senadores irão a Roraima analisar impasse em área de fronteira



Primeiro a discursar em Plenário nesta quinta-feira (31), o senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) informou que um grupo de senadores membros da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) irá a Roraima para tratar de impasse na fronteira com a Venezuela. O grupo será formado por Mozarildo, Ângela Portela (PT-RR) e Osvaldo Sobrinho (PTB-MT).

O senador explicou que parte da cidade fronteiriça de Pacaraima (RR) foi incluída na chamada zona não edificável, que é o trecho da fronteira entre o Brasil e algum outro país, nesse caso a Venezuela, onde ficam proibidas edificações. Entretanto, reclamou o senador, essa parte de Pacaraima já conta com residências, que agora podem acabar sendo demolidas por ordem judicial.

Segundo Mozarildo, o grupo de senadores buscará um acordo entre ambos os países para que as pessoas que moram nessa área não sejam prejudicadas.

O senador aproveitou para comemorar a aprovação, na quarta-feira (30), do projeto de sua autoria que cria o Grupo Parlamentar Brasil-Venezuela.

- Estamos dando passos concretos para que a nossa relação com a Venezuela seja uma relação produtiva, a favor, principalmente, da Amazônia, que é a parte do Brasil que faz fronteira com aquele país.

Fonte: Agência Senado

Brasil agora cobra calotes da Venezuela

VALDO CRUZ
RENATA AGOSTINI

BRASÍLIA – Depois de estimular negócios com a Venezuela, o governo do Brasil agora cobra do país vizinho “calotes temporários” de exportações de empresas brasileiras feitas neste ano. Em alguns casos, o atraso nos pagamentos de produtos vendidos ao mercado venezuelano, que vive um momento de escassez, chega a quatro meses.

A situação já preocupa os empresários brasileiros, especialmente os que começaram a negociar mais recentemente com a Venezuela, e levou o governo a enviar uma missão ao país para tentar solucionar o problema.

Suprema felicidade

Autor: José Casado
O GLOBO - 29/10

Venezuelanos não têm nem papel higiênico, mas seu presidente leva vida de rei, com mordomias e séquito de 120 mil pessoas, em gabinete que custa US$ 700 milhões ao ano

O "socialismo bolivariano do século XXI" não fracassou. Talvez seja apenas uma peça de humor político mal compreendida.

Na semana passada, por exemplo, enquanto o Banco Central confirmava a falta de papel higiênico em 79% dos estabelecimentos comerciais da Venezuela, o presidente Nicolás Maduro discursava sobre a criação do "Ministério do Poder Popular para a Suprema Felicidade". O anúncio presidencial aconteceu enquanto emissários de Dilma Rousseff cobravam, em Caracas, o pagamento de cerca de US$ 800 milhões em dívidas pendentes com exportadores brasileiros.

Maduro recebe Fernando Pimentel para revisar cooperação com Brasil

Venezuela e Brasil assinaram dezenas de acordos cooperação nas áreas de energia, alimentação, indústria, tecnologia, entre outros.

Publicado em 22/10/2013, às 08h00

Foto: LEO RAMIREZ / AFP

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, recebeu na segunda-feira (21) em Caracas o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil, Fernando Pimentel, para revisar a cooperação bilateral.

Brasil vive minicrise, admite Mantega

Correio Braziliense - 27/08/2013

O ministro diz que governo não permitirá que a alta do dólar, diante da fuga de recursos para os EUA, seja repassada à inflação. Ele prevê PIB de 4% em 2014
O ministro Guido Mantega disse ontem, em São Paulo, que o Brasil atravessa uma “minicrise” como resultado da fuga de dólares para os Estados Unidos diante das expectativas sobre o fim dos estímulos econômicos do Fed, o banco central norte-americano. “É uma minicrise que estamos vivendo, mas ela trará um impacto muito menor do que as anteriores, porque a economia mundial está em recuperação”, afirma ele em evento do Grupo de Líderes Empresariais (Lide). Segundo o ministro, o país está preparado para se defender das turbulências, graças a fundamentos sólidos e reservas internacionais de US$ 370 bilhões.

A estratégia do governo para evitar a valorização do dólar em relação ao real tem sido oferecer swaps cambiais, que aumentam a disponibilidade da moeda norte-americana no mercado futuro. O objetivo dessas operações, que devem totalizar mais US$ 60 bilhões até o fim do ano, é proporcionar tranquilidade às empresas que possuem obrigações em dólar programadas para os próximos meses. “O Banco Central está empenhado em não deixar que haja oscilação excessiva do câmbio”, afirmou.

Dilma reafirma críticas a países ricos

Autor(es): LEONENCIO NOSSA
O Estado de S. Paulo - 25/09/2012

Presidente recebe líder da CE, Durão Barroso, e se diz descontente com injeção maciça de recursos para reanimar suas economias

A presidente Dilma Rousseff aproveitou um encontro ontem com o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, para deixar claro o descontentamento do Brasil com a forma como os países ricos têm combatido a crise. Com injeções maciças de recursos para animar suas economias, a Europa, os Estados Unidos e o Japão promovem a perda de competitividade dos produtos do Brasil e outros países emergentes.
O recado será repetido hoje, no discurso que Dilma vai fazer na abertura da 67.ª assembleia geral das Organizações das Nações Unidas (ONU). Ela usará boa parte dos 30 minutos para discutir a crise financeira internacional. Dilma passou a manhã e parte da tarde de ontem no hotel para fechar o texto, segundo assessores. No discurso, fará críticas a medidas dos países desenvolvidos, como a injeção de dinheiro novo nas economias.
Sem referências diretas, Dilma questionará os bancos centrais dos Estados Unidos e da Europa. Ela não repetirá o termo "tsunami monetário", mas o sentido será o mesmo, disseram assessores. A presidente ainda citará temas tradicionais, como a mudança na estrutura do Conselho de Segurança da ONU.
Ao contrário dos Estados Unidos, que tornaram tensa a relação com o Brasil ao criticar, de forma dura, a decisão de elevar as tarifas de importação de 100 produtos, Durão Barroso preferiu manter o tom conciliador. Após o encontro de cerca de duas horas com Dilma, ele comentou que a conversa foi "cordial" e que ela é "ótima pessoa". Ele não fez críticas ao suposto protecionismo brasileiro.
Barroso avaliou que a crise na Europa "honestamente vai durar algum tempo". Na conversa com jornalistas, recorreu a metáfora do futebol para comentar a situação europeia: "Nós já passamos a primeira parte do jogo e agora estamos na segunda e, contrariando o que previam os apostadores, não perdemos jogadores. O que eu peço é que não percamos a concentração."
Visita ao Brasil. Logo após a entrevista, o chanceler Antonio de Aguiar Patriota afirmou que a "longa conversa" de Dilma e Barroso serviu para aprofundar o debate sobre a zona do euro, a questão europeia e as relações econômicas entre o Brasil e a comunidade. Patriota disse que Barroso visitará o Brasil em janeiro de 2013 para mais uma rodada de diálogo. A intenção é retomar as negociações de um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia e avaliar acordos entre Brasil e Portugal.
O governo brasileiro está preocupado com os efeitos da terceira rodada de afrouxamento da política econômica americana, que promete comprar até US$ 40 bilhões por mês em títulos públicos e privados, injetando recursos na economia.

"O que você gostaria que fizéssemos?", pergunta chanceler

Valor Econômico - 06/03/2012

Depois de ter ouvido a chanceler Angela Merkel reclamar de protecionismo unilateral, a presidente Dilma Rousseff disse para a líder alemã, durante jantar, que o Brasil não tem outra alternativa diante da inundação de liquidez internacional, a não ser proteger seu mercado. Segundo o relato do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, Dilma criticou a inundação de liquidez, levando Merkel a perguntar: "O que você gostaria que nós fizéssemos?"

A presidente apontou três pontos, segundo o ministro: "Primeiro que esterilizem o quanto antes essa enxurrada de euros, que gera um problema enorme para nós, pois grande parte vai para especulação. Segundo, temos disposição de fazer uma boa parceria com a Alemanha, desde que haja reciprocidade, como investimentos. E terceiro, não temos como manter a situação, temos que tomar algumas medidas de proteção à moeda para proteger o mercado."

Merkel respondeu repetindo o que já vem dizendo desde a semana passada: que os efeitos da liquidez são para durar três anos, prazo das megaoperações do Banco Central Europeu de € 1 trilhão, dando tempo para a zona do euro fazer reformas, retomar o crescimento e melhorar a competitividade.

O essencial do jantar de trabalho abordou temas bilaterais, segundo o assessor internacional Marco Aurélio Garcia. Os dois ministros de Finanças vão se reunir para discutir sobre como superar o impasse num acordo para evitar bitributação.

Segundo Garcia, a frase de Merkel sobre protecionismo "foi um pequeno comentário que lá no jantar não persistiu". Por sua vez, Dilma não exemplificou que tipo de medida para proteger o mercado poderá adotar proximamente. O assessor elogiou o "entendimento" entre as duas líderes, que ele resumiu assim: "Uns transmitem umas opiniões e outros transmitem as outras, e se concorda que são temas relevantes."

Em discurso na feira de telecomunicações, a presidente brasileira anunciou que até dezembro o Programa Nacional de Banda Larga ativará uma rede de fibra óptica de 31 mil quilômetros, que chegará às capitais dos 27 Estados e cobrirá metade da população.

Confirmou que o governo licitará em maio as faixas para a implementação dos telefones móveis de quarta geração. E contratará ainda neste ano a construção de cabos ópticos submarinos para ligar o Brasil à América do Norte, Europa e África, que deve baratear o custo das conexões.

Segundo a presidente, em 2011 o Brasil foi o terceiro maior mercado de computadores pessoais do mundo e o quinto maior mercado de telefones celulares. "E pela primeira vez na história de meu país, mais da metade dos 190 milhões de brasileiros pertencem às classes médias", completou.

A expectativa em Hannover é de que o setor de telecomunicações globalmente tenha crescimento de 4% neste ano, sobretudo graças aos emergentes. Eric Schmidt, presidente da Google, apresentou um cenário do futuro, incluindo automóveis sem motoristas e computadores com sensores para identificar doenças.

Dilma: países ricos estão inundando o mundo com um "tsunami monetário"

Por Yvna Sousa | Valor

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff criticou hoje a ação de países ricos que tem provocado um “tsunami monetário” para tentar conter a crise financeira internacional. Segundo ela, são atitudes "perversas" e danosas a países em crescimento como o Brasil.

Ela afirmou que medidas precisam ser tomadas “impedindo que os métodos de saída da crise dos países desenvolvidos impliquem na canibalização dos mercados dos países emergentes, e garantindo que nosso mercado interno cresça qualitativamente".

Ao citar que o governo brasileiro pretende alcançar, em 2012, uma taxa de investimento de 20% do PIB, Dilma disse que ao invés de buscarem novos investimentos, esses países adotam uma “política monetária absolutamente inconsequente”.

Sem nomear diretamente nenhum país, Dilma afirmou que "eles compensam essa rigidez fiscal com uma política monetária absolutamente inconsequente, do ponto de vista do que ela produz sobre os mercados internacionais”, declarou.

"É por isso que nos preocupamos, sim, com esse tsunami monetário que os países desenvolvidos, que não usam políticas fiscais de ampliação da capacidade de investimento para sair da crise em que estão metidos, e que literalmente despejam 4,7 trilhões de euros no mundo”, disse.

Dilma fez as críticas em evento com a presença de empresários da construção civil e da indústria pesada, hoje, no Palácio do Planalto.

“Teremos que criar outros instrumentos de combate dos processos que vão ser desencadeados por esses 4,7 trilhões euros”, disse a presidente.

(Yvna Sousa | Valor)

Europa respira por aparelhos

Autor(es): Martin Wolf
Valor Econômico - 01/02/2012

As autoridades econômicas estão mais otimistas do que há dois meses. O principal motivo é a crença de que o Banco Central Europeu (BCE), sob a inteligente liderança de Mario Draghi, acabou com o risco de implosão financeira da região do euro. Como destacou Mark Carney, o respeitado presidente do Banco do Canadá e sucessor de Draghi no Conselho de Estabilidade Financeira (FSB, na sigla em inglês), no Fórum Econômico Mundial, em Davos: "Não haverá um evento no estilo do Lehman na Europa. Isso é importante."

Os prêmios dos swaps de crédito, contratos de derivativos para proteção contra calotes, dos bancos italianos e espanhóis caíram desde o lançamento das operações de refinanciamento de longo prazo de três anos do BCE, em dezembro. Também diminuiu a diferença entre o rendimento dos bônus alemães e o dos títulos de dívidas de alguns países mais vulneráveis.

Se isso significa que a crise da região do euro acabou? Absolutamente, não. O BCE salvou a região do euro de um ataque cardíaco. Seus membros, no entanto, deparam-se com uma longa convalescência pela frente, agravada pela insistência de que a inanição fiscal é o remédio certo para pacientes fragilizados.

A revisão para baixo das previsões de crescimento, na semana passada, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra os riscos. O FMI agora projeta recessão na região do euro neste ano, com declínio de 0,5% no Produto Interno Bruto (PIB) total. A previsão é de declínios acentuados no PIB da Itália e Espanha, com estagnação na França e Alemanha. Trata-se de um cenário terrível para países que procuram reduzir os déficits fiscais. As estimativas para outros países de alta renda estão longe de ser satisfatórias, mas a região do euro é a região mais perigosa da economia mundial: é apenas lá que vemos governos importantes - Itália e Espanha - ameaçados por uma perda de capacidade creditícia.

A região do euro não tem tais mecanismos internos.

Como Donald Tsang, executivo-chefe de Hong Kong, ressaltou em Davos: "Nunca estive tão assustado como estou agora". Observadores mais atentos têm noção de que há pouco a separá-los de uma onda de inadimplência de bancos e governos dentro da região do euro, cujas repercussões mundiais seriam medonhas.

O BCE conseguiu diminuir o risco de um colapso imediato no setor bancário, mas o que os observadores bem informados desejam ver são sistemas de proteção contra a possibilidade de que, por exemplo, o desmoronamento da Grécia, incluindo sua saída da região do euro, provoque pânico em relação às perspectivas de países muito mais importantes. Em discurso corajoso em Berlim, na semana passada, Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, assumiu esse desejo como uma de suas três tarefas, juntamente com a aceleração do crescimento e a maior integração.

O que esses observadores querem ver é um compromisso de que os países vulneráveis da região do euro ganharão o tempo e o tratamento necessários para se recuperar. Naturalmente, também querem ver um comprometimento de recursos por parte da região do euro que deixe clara a determinação de seus países em assegurar esse resultado. Por que, verdadeiramente, deveríamos esperar que um país relativamente pobre como a China contribua para resgatar uma região do euro que mostrou pouca vontade ou capacidade de curar a si mesma?

Infelizmente, o problema não é apenas de vontade. É de falta de um diagnóstico correto. Esse é um problema que o BCE não pode corrigir. A Alemanha, como país credor, opõe-se a uma "união de transferências" e insiste que a disciplina fiscal é tudo. Está certa quanto ao primeiro ponto e errada quanto ao segundo.

Um processo de longo prazo de transferência de recursos para membros não competitivos seria um desastre, enfraquecendo os receptores e falindo os fornecedores. Mas a indisciplina fiscal não é tudo. Assim como não foi a causa dominante do colapso - que foi a concessão relaxada de empréstimos para captadores privados imprudentes -, a disciplina fiscal não é a cura.

Além disso, se o setor privado estiver com superávit estrutural financeiro para reduzir suas dívidas, as autoridades monetárias podem eliminar déficits fiscais estruturais se e somente se o país tiver um superávit estrutural em conta corrente. A Alemanha deveria entender isso porque é precisamente isso que está fazendo. Os países atingidos por crises financeiras quase sempre têm grandes superávits financeiros estruturais do setor privado. Para que esses países, de fato, eliminem os déficits fiscais estruturais, também precisarão ter superávits estruturais em conta corrente, assim como a Alemanha. No entanto, todos os países não podem ter esses superávits ao mesmo tempo, a não ser que a região do euro os tenha como um todo.

É impossível que países isoladamente sejam curados sem mudanças de contrapartida em outros lugares. Como disse Lagarde, em Berlim, "recorrer a cortes orçamentários generalizados, por todo o continente, apenas aumentará as pressões recessivas". O aperto fiscal deve ser seletivo. Ainda mais importante, o sinal de que o processo de ajuste está funcionando - tornando, portanto, desnecessárias as transferências fiscais de longo prazo que a Alemanha acertadamente detesta - seria uma demanda elevada no núcleo da região do euro, com a inflação bem acima da média do bloco, uma imagem invertida do que se via antes da crise.

O tom mais forte de otimismo em relação à região do euro que ouvi em Davos baseia-se no fato de que uma ruptura da união monetária traria resultados calamitosos. Pessoas desesperadas, no entanto, são capazes de atos desesperados. Os países-membros agora precisam do tempo necessário e da oportunidade para se ajustarem. Sistemas fortes de proteção dariam o tempo necessário, mas apenas mudanças na competitividade proporcionariam a oportunidade. Sem nenhum dos dois, a crise certamente vai voltar. (Tradução de Sabino Ahumada)

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

Tchecos e britânicos fora de pacto fiscal da UE

O Globo - 31/01/2012

Os dois países rejeitam a imposição de regras orçamentárias mais rígidas. Bloco promete 20 bi para criar empregos

BRUXELAS, LONDRES, NOVA YORK e RIO. O pacto fiscal por uma maior austeridade orçamentária na União Europeia (UE) foi aprovado ontem na reunião de cúpula do bloco - mas enfraquecido. A República Tcheca juntou-se ao Reino Unido ao recusar-se a assinar o pacto que prevê regras mais rígidas e sanções para quem não mantiver seu déficit sob controle. Agora, o pacto só tem o apoio de 25 dos 27 países da UE.

No mês passado, o premier britânico David Cameron entrou em choque com o resto da UE ao vetar uma mudança no tratado do bloco que permitiria sanções contra Estados fiscalmente indisciplinados.

- Transformar em lei uma visão germânica de como se deve conduzir uma economia, e que essencialmente torna o keynesianismo ilegal não é algo que faremos - disse à agência de notícias Reuters um representante do governo britânico.

Merkel só discute fundo de resgate maior em março

O pacto, que fora traçado no início de dezembro, prevê que o chamado déficit estrutural (cálculo que exclui variações cíclicas do Produto Interno Bruto, PIB) não ultrapasse 0,5% do PIB nominal no ano. Essa regra terá de ser incluída na Constituição de cada Estado membro. Também está prevista uma multa de 0,1% do PIB para o país que não cumprir essa regra.

O presidente do Parlamento Europeu, o alemão Martin Schulz, no entanto, disse aos líderes da UE que o novo pacto fiscal era desequilibrado porque não consegue combinar rigor orçamentário com investimento em obras públicas para criar empregos.

- É hora de nos concentrarmos nas verdadeiras questões. É hora de discutirmos como vamos tirar a Europa da crise - disse Schulz.

Também foi acertado que o Mecanismo Europeu de Estabilidade, de 500 bilhões, entrará em vigor em julho, um ano antes do previsto originalmente. Mas ainda há pressão de Estados Unidos, China e Fundo Monetário Internacional (FMI) para que o poder de fogo desse novo fundo de resgate seja reforçado.

O mecanismo vai substituir o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (Feef), de 440 bilhões. A pressão de diversos países e do FMI é para que os recursos de ambos sejam somados, o que ampliaria a capacidade da UE de ajudar países em dificuldade. Mas a Alemanha é contra. A chanceler alemã, Angela Merkel, já avisou que não discutirá o assunto antes da próxima reunião de cúpula, em março.

Juncker: é inaceitável comissário para Grécia

O objetivo da cúpula era discutir estratégias para estimular o crescimento da economia e a criação de empregos ao mesmo tempo em que os governos cortam gastos e aumentam impostos para sanear suas finanças. Os líderes prometeram usar os 20 bilhões do Orçamento da UE para 2007-2013, que não foram gastos, na criação de empregos especialmente para os jovens.

- Temos de apresentar orçamentos equilibrados e, ao mesmo tempo, concentrar-nos em crescimento e empregos - disse a primeira-ministra da Dinamarca, Helle Thorning-Schmidt. - É possível fazer as duas coisas ao mesmo tempo, e é importante entender que são dois lados de mesma moeda.

A cúpula ainda foi afetada por uma greve geral convocada pelos sindicatos belgas, em protesto contra os planos de austeridade do governo, que incluem a elevação da idade de aposentadoria e a redução do seguro-desemprego. Praticamente todos os meios de transporte público foram paralisados, e os chefes de Estado e de governo da UE demoraram a aterrissar no aeroporto de Bruxelas.

Outro tema da reunião foi a Grécia, cujas negociações com os credores privados, sobre a reestruturação de uma dívida de 200 bilhões, ainda estão em aberto. Até que se chegue a um acordo, os líderes da UE não podem avançar com o segundo pacote de resgate para o governo grego, de 130 bilhões.

A Alemanha provocou indignação na Grécia ao propor que um comissário assumisse o controle das finanças públicas gregas a fim de assegurar o cumprimento das metas fiscais. O ministro de Finanças grego, Evangelos Venizelos, disse que fazer o país escolher entre a dignidade nacional e a ajuda financeira era ignorar as lições da História. O presidente do Eurogrupo (que reúne os ministros de Finanças da UE), Jean-Claude Juncker, também criticou a proposta alemã:

- Sou totalmente contra a ideia de impor um comissário da dívida apenas para a Grécia. Isso é inaceitável - afirmou.

Devido à polêmica, a própria Merkel voltou atrás na ideia ao chegar a Bruxelas, apesar de ainda exigir reformas por parte da Grécia.

- Estamos tendo uma discussão que não deveríamos ter. Trata-se de como a Europa pode apoiar a Grécia para que esta cumpra suas metas - disse a chanceler.

Tanto o presidente do Conselho da UE, Herman von Rompuy, como o presidente francês, Nicolas Sarkozy, disseram que deve haver um acordo em Atenas até o fim desta semana.

A falta de acordo sobre a dívida grega pesou nos mercados ontem. Na Ásia, Tóquio recuou 0,54%, enquanto Hong Kong caiu 1,66% e Xangai, 1,47%. Na Europa, fecharam em queda Londres (1,09%), Frankfurt (1,04%) e Paris (1,60%).

Bolsa de SP recua 0,21%,
e dólar avança 0,57%

O mercado também olhou para Portugal. O retorno sobre seus bônus de dez anos atingiu 15,4%. Essa taxa, que é proporcionalmente inversa à demanda dos investidores, é a maior da zona do euro depois da Grécia.

O índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, fechou com ligeira queda de 0,05%, depois de recuar cerca de 1% pela manhã. O S&P, mais amplo, recuou 0,25%, enquanto o Nasdaq caiu 0,16%.

Já a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) recuou 0,21%, aos 62.770 pontos pelo Ibovespa, seu principal índice, devido à queda das ações de construtoras e bancos. O dólar comercial avançou 0,57%, a R$1,749, acompanhando o movimento internacional. O euro recuou 0,7% frente ao dólar em Nova York, para US$1,3131.

Crise europeia pode beneficiar o Brasil

Valor Econômico - 27/01/2012

Armadores de longo curso que atuam nos tráfegos da Costa Leste da América do Sul avaliam que o Brasil poderá até se beneficiar no atual cenário de crise na Europa. "Por conta da depressão do consumo no mercado europeu, pode haver incremento na corrente de tráfego do Brasil com a China, até porque o país asiático tem sua produção destinada principalmente à Europa", afirmou o diretor comercial da NYK, Arthur Bezerra.

O armador japonês suspendeu o serviço direto entre o Brasil e a Europa há cerca de dois anos. "Esse tráfego da Europa vinha demonstrando muita dificuldade em trazer retorno aceitável. A crise detonada em 2008 só contribuiu para deteriorar um pouco mais as condições", afirmou o executivo da NYK.

Atualmente, a companhia japonesa opera dois serviços diretos a partir do Brasil: com a Ásia e com a Costa Leste dos Estados Unidos. No ano passado, até novembro, o resultado combinado das duas linhas da NYK cresceu 4%. O incremento foi primariamente causado pelo aumento das importações. Nos dois tráfegos (Ásia e EUA) a importação respondeu por 9% de crescimento nos volumes, com as exportações caindo 2%. Na importação o carro-chefe foi o tráfego da Ásia, que aumentou 12%. "Isso só demonstra um mercado doméstico forte. Obviamente tem o efeito câmbio, mas principalmente o mercado doméstico bem aquecido. A perspectiva é de crescimento continuado", afirmou Bezerra.

O resultado final de 2012 dependerá de como a crise vai afetar o comércio exterior, pondera. "O crescimento pode não ser tão grande, talvez de 5%", disse Bezerra. "Com o domínio da importação, que continuará a crescer mais que a exportação", acrescentou o executivo.

Também a CMA CGM concentra as apostas nas compras brasileiras do exterior. "Hoje temos uma crise política que provavelmente vai se tornar uma crise econômica na Europa. Neste momento, a situação aqui parece um pouco mais positiva. Até para a exportação os clientes estão com perspectivas razoavelmente positivas", afirmou Marc Bourdon, diretor-geral da companhia francesa no Brasil.

Bourdon aposta no crescimento das importações - especialmente da Ásia - e na força do mercado doméstico para blindar os resultados no país. Terceiro maior armador do mundo, a CMA CGM opera atualmente nove linhas saindo ou chegando ao Brasil - a maioria delas em associação com outras companhias.

Enrique Arteaga, diretor para a Costa Leste da América do Sul do grupo CSAV, avaliou que, frente à crise, o desempenho individual de cada empresa vai depender de ações coletivas: "O ajuste de capacidade do mercado como um todo permitirá que as empresas, individualmente, retornem a níveis de rentabilidade sustentáveis", disse Arteaga via email. A saída para a crise, segundo ele, passa não só por ajuste de capacidade, mas também por redução de custos, melhoria da eficiência, ampliação de prazos de crédito e readequação da estrutura de ativos das empresas de navegação.

O diretor afirmou que outra preocupação das empresas de navegação se refere aos altos custos praticados e aos gargalos de infraestrutura nos portos brasileiros, o que aumenta despesas tanto de armadores quanto de exportadores. Arteaga afirmou que as empresas de navegação têm dificuldade de repassar ao mercado a alta de custos derivada, em parte, das ineficiências portuárias.

A CSAV está focada, segundo Arteaga, em um plano agressivo que permitirá à empresa situar-se no topo em termos de performance no setor. "Esse plano já está em grande parte implementado e os resultados foram perceptíveis no quarto trimestre de 2011." (FP e FG)

A resiliência da América do Sul

Autor(es): Paulo M. Levy
Valor Econômico - 23/01/2012

A resiliência da América Latina na esteira da crise financeira de 2008 foi notável, especialmente quando comparada ao desempenho da região nos anos 1980 e 1990. Mas, enquanto a economia mundial depara-se com incertezas renovadas, a região precisa encontrar novas estratégias para reduzir o impacto potencial de mercados financeiros voláteis e da estagnação prolongada nas economias mais ricas do mundo.

Embora o crescimento na América Latina se correlacione com as tendências globais, há uma boa chance de que em 2012 as economias da região voltem a superar o desempenho dos países industriais. A contração do comércio mundial e a redução dos fluxos financeiros provavelmente desaceleração o crescimento em certa medida, mas o ritmo anual deverá continuar próximo à média de 4% da região entre 2000 e 2008.

Um motivo para essa previsão é que a liquidez abundante nos mercados internacionais e a continuidade da demanda elevada na China e Índia podem impedir os preços das commodities - especialmente dos produtos agrícolas - de caírem tanto como durante a crise de 2008-2009. Os ganhos nas relações de troca foram cruciais para o crescimento da América Latina, dado o baixo índice de poupança doméstica da região, porque encorajam os investimentos, mas têm relativamente pouco impacto negativo no balanço de conta corrente.

As fortes entradas de capitais, especialmente de investimentos externos diretos, e a recuperação das relações de troca desde 2009 deixaram a região menos vulnerável a choques externos - ou seja, à repetição da repentina reversão de fluxos de capitais observada no final de 2008 e início de 2009. Mais importante, a maioria dos países latino-americanos agora tem em vigor medidas anticíclicas para suavizar qualquer impacto externo negativo.

Por exemplo, quando surgiram os primeiros sinais de turbulência, muitos países que estavam apertando sua política monetária, interromperam as altas de juros ou, como o Brasil, começaram a reduzi-los. A maioria dos recentes ajustes nos países latino-americanos, além disso, impediu que suas posições orçamentárias e déficits em conta corrente se tornassem fontes de vulnerabilidade.

Esse parece ser o caso, por exemplo, do Peru, onde políticas fiscais sólidas mantiveram os déficits e a inflação sob controle. Isso também é verdadeiro na Colômbia, onde a forte arrecadação orçamentária poderia permitir um aumento temporário nos gastos para conter riscos externos. As exceções dignas de atenção são a Argentina e a Venezuela, onde as tensões macroeconômicas reduziram o espaço para ações anticíclicas, e no México, cujo destino está ligado, pelos amplos laços comerciais, ao dos Estados Unidos.

O Brasil, maior país e um dos mais prósperos da região, reflete muitas das tendências econômicas na América Latina. Depois do surgimento da crise financeira mundial no último trimestre de 2008, as taxas de juros do Brasil caíram acentuadamente, o crédito teve forte expansão e a política fiscal deixou de ser neutra e passou a ser altamente expansionista. O financiamento maciço do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) pelo Tesouro brasileiro também agiu como proteção contra o declínio nos investimentos.

O estímulo proporcionado por essas políticas levou a um forte crescimento, tanto no consumo como nos investimentos, com o que a atividade econômica recuperou-se rapidamente. Embora a valorização do real tenha mantido os preços de bens comercializáveis sob controle, os dos bens não comercializáveis, especialmente os de serviços, continuaram como fonte de pressão inflacionária. Para combater a aceleração da alta dos preços, as autoridades adotaram medidas no fim de 2010 para esfriar a demanda doméstica sobreaquecida, primeiro por meio de restrições ao crédito e maiores exigências de reservas para os bancos - as chamadas medidas "macroprudenciais" - e depois por meio da retomada da alta das taxas de juros.

Mas a deterioração repentina das condições financeiras externas e as perspectivas de estagnação prolongada na Europa e EUA, levaram o Brasil a reverter as políticas no fim de agosto. O Banco Central já cortou seus juros básicos em 150 pontos base, para 10,5%, e a tendência de baixa prevista deverá levar as taxas reais para seus menores patamares históricos no período pós-crise.

O preço a pagar, no entanto, pode muito bem ser que a inflação anual continue significativamente acima da meta de 4,5%. De fato, mais recentemente, as restrições de crédito adotadas no fim de 2010 foram relaxadas, como forma de estimular a demanda dos consumidores.

Além disso, a política fiscal brasileira deverá mudar de restritiva para neutra ou ligeiramente expansionista neste ano. O governo prometeu promover a mudança de forma mais suave do que em 2009-2010, permitindo, portanto, flexibilidade para reduzir as taxas de juros no longo prazo.

Neste ano, o governo elevou o salário mínimo em 14% seguindo a atual regra de ajuste, com forte impacto nos benefícios da previdência social, e deverá retomar os investimentos públicos que foram reprimidos em 2010. Essas medidas, somada à redução na arrecadação com impostos, deverão reduzir o superávit primário e contribuir para reanimar a demanda.

A América Latina obteve progresso substancial em sua estrutura de políticas macroeconômicas, dando a suas autoridades mais espaço de manobra para suavizar o impacto dos choques internos. Mas administrar a demanda é apenas parte do trabalho quando se trata de alimentar o crescimento econômico de longo prazo. Depois de terem conduzido seus países com sucesso pela crise, as autoridades da América Latina deveriam dedicar maior atenção à retomada dos esforços de reforma voltados a melhorar a competitividade e assegurar a sustentabilidade de altos índices de crescimento. (Tradução de Sabino Ahumada)

Paulo M. Levy analista econômico do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Copyright: Project Syndicate, 2012.

BANCO MUNDIAL PREVÊ CRISE IGUAL À DE 2008 É ALERTA EMERGENTES

BANCO MUNDIAL REBAIXA PROJEÇÕES GLOBAIS E ALERTA EMERGENTES PARA RISCOS

Autor(es): CLÁUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE
O Estado de S. Paulo - 19/01/2012

Principal perigo, segundo a instituição, vem da Europa, num cenário em que não há espaço fiscal para países adotarem medidas de estímulo

O Banco Mundial, assim como fez a ONU na terça-feira, rebaixou todas as projeções de expansão global para 2012 e alertou os países em desenvolvimento para a possibilidade de a situação se agravar ainda mais. A instituição prevê forte desaceleração do crescimento, redução no fluxo de capitais, desvalorização do mercado acionário, queda no preço das commodities e aumento do spread sobre a dívida soberana.

"O risco de uma crise global similar à que ocorreu em setembro de 2008 é real", afirmou em Pequim o economista-chefe da instituição, o chinês Justin Yifu Lin, durante divulgação do levantamento Prospectos para a Economia Global (PEG), realizado duas vezes por ano.

O principal risco vem da Europa, que pode arrastar o mundo para uma situação de congelamento dos mercados financeiros globais, afetando de maneira dramática os países cujas necessidades de financiamento externo superam 5% do Produto Interno Bruto (PIB).

A repetição de uma turbulência global teria impactos negativos mais profundos e duradouros agora, em razão do menor espaço fiscal para os países adotarem medidas de estímulo ao crescimento, alertou a instituição.

Na avaliação de Hans Timmer, diretor de Projetos de Desenvolvimento do Banco Mundial e responsável pela coordenação do PEG, "2012, ou o Ano do Dragão para a China, será muito difícil para a economia global". A probabilidade de a situação mundial se degradar de maneira generalizada é grande o bastante para ganhar destaque nas projeções do Banco Mundial, ainda que não seja o panorama considerado mais plausível.

"É um cenário de crise, e não é frequente falarmos da crise antes que ela ocorra. Mas, mesmo que não seja o mais provável desenlace, é importante o bastante para ser discutido e para os países em desenvolvimento começarem a se preparar para as consequências negativas de uma eventual segunda onda de crise vinda de países ricos", ressaltou Timmer.

Projeções. Na hipótese de as piores previsões se confirmarem, a instituição prevê redução de 4 pontos porcentuais nas já baixas estimativas de crescimento divulgadas ontem.

A estimativa agora é de expansão de 5,4% nos países em desenvolvimento e de 1,4% nos ricos, comparados a 6,2% e 2,7% no levantamento divulgado em junho. Menos 4 pontos sobre esses índices significaria quase estagnação no mundo emergente e forte recessão entre os desenvolvidos.

Depois de um ano e meio em que estiveram imunes à turbulência no mundo desenvolvido, os países em desenvolvimento começaram a ser afetados pelo contágio financeiro em agosto, com redução no fluxo de capitais, queda no mercado acionário e aumento do spread sobre a dívida soberana. Segundo Timmer, o mundo perdeu desde julho o equivalente a 9,5% do PIB mundial com a desvalorização nas bolsas de valores.

Esse contágio ocorreu no momento em que grandes emergentes como Brasil, Índia e Turquia desaceleravam em razão de medidas de aperto monetário adotadas para combater a inflação e a alta no preço de ativos.

Mesmo que o cenário-base do Banco Mundial se realize, as nações em desenvolvimento vão ver um "modesto" fluxo de capital estrangeiro para suas economias, depois da acentuada redução dos últimos meses.

A previsão é que esses recursos representem 3,3% do PIB dos países emergentes em 2012 e 3,7% no ano seguinte, bem abaixo dos 8% em 2007 e da média de 10% da última década, prevê a instituição. Na hipótese de agravamento da crise, haverá uma reversão no fluxo de capitais e esse deverá ser o principal canal de transmissão da crise dos países ricos para os emergentes.

A expansão do comércio mundial deverá desacelerar de estimados 6,6% em 2011 para 4,7% neste ano, antes de voltar a crescer a 6,8% em 2013. Mas, caso o panorama pessimista se concretize, as exportações poderão ter contração semelhante à de 2008, avalia a instituição.

A previsão para a zona do euro é de contração de 0,3% em 2012 e, segundo Timmer, até mesmo a Alemanha deverá entrar em recessão no primeiro trimestre. E esse é o cenário mais otimista.

Emergentes. O Banco Mundial aconselha os países emergentes a começarem a se preparar para uma situação adversa, com identificação de novas fontes de receita fiscal e aumento da eficiência no gasto público, que dê espaço para medidas de estímulo.

A instituição sugere ainda a busca de novas fontes de crescimento e o uso do estímulo fiscal em áreas que criem empregos e possam sustentar a expansão no longo prazo. Os bancos devem ser submetidos a testes de estresse e ser recapitalizados, caso haja indícios de que enfrentarão dificuldades no eventual agravamento da crise.

Unctad alerta para risco de uma recessão mundial

Autor(es): agência o globo: Andrea Freitas*
O Globo - 18/01/2012

O órgão da ONU diz que economia global terá uma expansão de 2,6% em 2012. Brasil crescerá 2,7%

RIO E GENEBRA. Com uma redução expressiva das previsões que fez há seis meses, o relatório "Situação e Perspectivas da Economia Mundial", elaborado pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), admite que os problemas nos Estados Unidos e na Europa "podem levar a uma nova recessão global". Neste ano, a economia mundial deve ficar longe do crescimento de 2010 - de 4% - e ter uma expansão de 2,6% (em junho a projeção era de 3,6%) e no próximo, de 3,2%.

As perspectivas da Unctad estão atreladas a uma contenção da crise da dívida soberana na Europa. Segundo o órgão da ONU, a incapacidade dos políticos europeus e americanos de lidar com a crise de desemprego e de prevenir o estouro da dívida soberana, assim como a fragilidade do setor financeiro, estão entre os principais fatores de risco para a economia global.

A Unctad alerta para o perigo das políticas de austeridade fiscal adotadas nos países desenvolvidos em crise, porque podem dificultar a recuperação da economia e contribuir ainda mais para o crescimento do desemprego. Os EUA devem ter crescimento de 1,5% este ano e de 2% em 2013. A União Europeia deve ter expansão de 0,7% em 2012 e de 1,7% no próximo ano. Já a zona do euro deve crescer 0,4% e 1,3%, respectivamente.

Segundo o documento, os países em desenvolvimento devem continuar movendo o mundo. A projeção é de crescimento de 5,4% este ano. No próximo, de 5,8% - longe dos 7,1% de 2010.

O Brasil deve registrar uma expansão econômica de 2,7% em 2012 e de 3,8% em 2013. A projeção deste ano é bem menor que a anunciada pelo órgão em junho: 5,3%.

A América do Sul deve crescer 3,6% em 2012 - abaixo dos 5,2% projetados em junho - e 4,5% em 2013. Em 2011, a região teria crescido 4,6%, graças à criação de vagas. "Isto ocorreu especialmente no Brasil", diz o órgão.

O relatório indica que uma recessão nos EUA e na Europa podem ameaçar a América Latina. E a desaceleração da China - que este ano deve crescer 8,7% e no próximo, 8,5% -, "debilitaria as exportações de manufaturas e reduziria os preços das matérias-primas".

Crise do euro traz incertezas para o país

Autor(es): Gustavo Loyola
Valor Econômico - 02/01/2012

O desempenho da economia brasileira em 2011 pode ser considerado razoável diante das incertezas e dificuldades que permearam as principais economias do mundo no ano passado. As perspectivas de crescimento para o novo ano são mais positivas, não obstante a provável continuidade do cenário turbulento na zona do euro e do baixo crescimento econômico nos países desenvolvidos. Porém, não pode ser descartada a possibilidade de um desempenho pior da economia brasileira decorrente do agravamento da crise fiscal e financeira da Europa.

A desaceleração do crescimento do PIB brasileiro em 2011 não foi apenas resultado das incertezas derivadas da situação crítica na zona do euro. Contribuíram também para o menor crescimento do PIB a queda do ritmo dos gastos públicos e a política monetária restritiva praticada no primeiro semestre do ano passado. Em certa medida, a economia brasileira pagou em 2011 pelos excessos de 2010, quando o governo tardou demais em retirar os estímulos introduzidos no calor da crise desencadeada pela falência do Lehman Brothers, em setembro de 2008. A aceleração inflacionária resultante do excessivo aquecimento da economia em 2010 demandou a aplicação de freios que contribuíram para a quase parada da economia no terceiro trimestre de 2011.

Para o ano que inicia, o cenário de crescimento tende a ser positivo, muito embora nos pareça pouco provável a materialização das previsões do ministério da Fazenda, que espera um crescimento do PIB ao redor dos 5%. Não apenas esse percentual está acima do crescimento do PIB potencial, como também as condições externas relativamente adversas dificultam a obtenção de tal expansão da economia brasileira, sem risco inflacionário. Desse modo, a expectativa do Banco Central de crescimento em torno de 3,5% afigura-se mais realista.

Com relação ao setor externo, o ano de 2011 encerrou-se sem que tenha havido o encaminhamento de uma solução para a crise fiscal na zona do euro. As medidas até aqui decididas pelas lideranças políticas da Comunidade Europeia vão, no geral, na direção correta, faltando-lhes, contudo, o sentido de urgência e de profundidade que a situação requer. O processo decisório tem sido altamente alimentador de volatilidade nos mercados financeiros, fato que mantém as incertezas num nível elevado e leva à paralisia o mercado de crédito na Europa.

Nesse contexto, mesmo que não haja uma ruptura ("default" da Itália e/ou crise bancária sistêmica), as perspectivas de crescimento são medíocres para a Europa nos próximos anos. A maioria dos países da zona do euro caiu prisioneira de uma armadilha da qual será difícil se livrar no curto prazo. De um lado, a política monetária se tornou impotente pela aguda aversão ao risco dos bancos que impede a expansão do crédito. Ao mesmo tempo, a política fiscal age na direção da contração econômica, tendo em vista as evidentes dificuldades de rolagem das dívidas soberanas. De outro lado, com as notáveis exceções da Alemanha, da Holanda e dos países nórdicos, as economias europeias padecem de graves problemas estruturais que implicam baixo potencial de crescimento econômico e elevada taxa de desemprego.

Felizmente, as perspectivas para 2012 são melhores para a economia americana cujos indicadores de atividade têm se mostrado positivos nos últimos meses. A despeito da paralisia no âmbito fiscal, fruto do abismo de visões entre democratas e republicanos, a política do Fed tem sido capaz de estimular a economia, graças principalmente a ações ousadas de expansão quantitativa da moeda e do crédito. Adicionalmente, as condições estruturais nos EUA são mais favoráveis ao crescimento do que na Europa.

Por outro lado, de central importância para o Brasil é o desempenho da economia chinesa, tendo em vista suas repercussões no mercado de "commodities". As previsões neste particular são também razoáveis para o corrente ano, esperando-se um crescimento do PIB chinês da ordem de 8%, suficiente para evitar queda mais sensível dos preços dos principais produtos de exportação brasileiros. Porém, as condições para nossas exportações devem a ser mais adversas em 2012 comparativamente ao ano anterior.

Frente a tal cenário externo, com a continuidade da baixa de juros já sinalizada pelo BC e a presença de outros estímulos (aumento substancial do salário-mínimo real, por exemplo), a economia brasileira pode buscar em 2012 um crescimento próximo ao seu potencial, mas a taxa de inflação deve ficar acima do centro da meta, embora em nível inferior à observada em 2011. Caso haja um agravamento da crise externa, o Brasil conta com instrumentos contracíclicos suficientes para reagir à piora do cenário, o que nos pode poupar de uma queda brusca do crescimento, embora alguma desaceleração possa vir a ocorrer.

Em síntese, não há motivos para pessimismo com a economia brasileira em 2012, mas igualmente não se deve esperar um desempenho espetacular. O que é preocupante, isto sim, é a ausência de iniciativas governamentais com vistas a aumentar a taxa de investimento e a produtividade, motores do crescimento no longo prazo. Mas isso é tema para outro artigo.

Gustavo Loyola, doutor em economia pela EPGE/FGV, foi presidente do Banco Central e é sócio-diretor da Tendências Consultoria Integrada, em São Paulo. Escreve mensalmente às segundas-feiras.

Crise europeia também afeta instituições no Brasil

Valor Econômico - 02/01/2012

Mesmo sólidos e com boas perspectivas de crescimento, os bancos brasileiros também sentiram em suas ações respingos da aversão ao risco causada pela crise. Entre as instituições financeiras, o Santander sofreu a maior queda em valor de mercado entre as empresas listadas em bolsas, perdendo mais de R$ 28,199 bilhões no ano.

O banco tem buscado se desfazer de ativos para levantar recursos em várias de suas filiais para fortalecer a matriz, na Espanha, que terá de atender a novos requerimentos de capital em breve. O receio entre investidores é que a seriedade da situação na Espanha acabe contagiando a subsidiária, embora o Santander afirme ter um modelo de subsidiárias autônomas.

Segundo estudo da Economática, os 23 bancos listados em bolsa no Brasil perderam R$ 70,86 bilhões em valor de mercado neste ano - queda que só não foi maior que a das empresas ligadas do setor de petróleo e gás e mineração.

Apesar do cenário nebuloso na bolsa, o analista de bancos do J.P. Morgan Frederic de Mariz avalia que, como um todo, o desempenho do setor no ano foi bom.

Para ele, 2011 começou com resultado muito forte, mas o segundo trimestre mudou essa tendência, com as medidas de restrição ao crédito impostas pelo Banco Central e com o impacto da crise europeia.

De acordo com o analista, em 2012, a crise impactou muito mais confiança do que os negócios e a qualidade da carteira de crédito foi o tema mais importante do ano, embora ele não considere esse um problema sistêmico.

O Morgan Stanley vê um início de ano difícil para as bolsas em toda a América Latina, mas que uma eventual resolução política europeia deve "ajudar a construir os pilares de um sistema econômico mais sólido e a terminar o ano no azul".

Mais sujeitos a pressões externas por conta do longo prazo de suas carteiras e da dificuldade de financiamento, os bancos pequenos e médios devem ser os principais afetados pela crise: "Em momentos de aversão ao risco, o investidor tende a procurar investir em bancos maiores", diz o analista do J.P. Morgan.

Ainda assim, o analista não acredita que exista um risco sistêmico no segmento: "A maioria desses bancos conta com um balanço e uma liquidez muito sólida, a preocupação é com o médio prazo, se os bancos estão com tanto dinheiro em caixa, é porque ele não está sendo investido".

O índice Ibovespa, principal índice acionário da bolsa brasileira encerrou 2011 com o terceiro pior desempenho desde o início do Plano Real, fechando a 56.754 pontos, uma queda de 18,11%.

Perspectiva piora para o comércio internacional

Autor(es): Assis Moreira | De Genebra
Valor Econômico - 23/12/2011

As perspectivas para o comércio mundial em 2012 são "bem mais preocupantes" do que se previa até pouco tempo atrás, alerta Guillermo Valles, diretor de Comércio Internacional e Commodities da Agência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad).

Maior deterioração econômica, alta volatilidade nas taxas de câmbio, risco de queda nos preços de commodities, desaceleração nas economias emergentes e crescentes pressões protecionistas globalmente tendem a afetar mais o fluxo de comércio nos próximos trimestres, conforme o diretor da agência da ONU.

Diferentes organizações internacionais projetavam expansão de 5% nas exportações e importações para o ano que vem. Só que isso era baseado em crescimento econômico global de 4%. Agora, todas as estimativas estão sujeitas a revisão para baixo.

A expectativa entre analistas é que a zona do euro está mais debilitada e reduzirá importações. A recuperação nos EUA continuará frágil no curto prazo, até melhorar no segundo trimestre. E o Japão só volta a ter melhor expansão econômica em 2013.

Essa situação se reflete nos dados divulgados nesta semana pelo CPB, centro de pesquisa econômica da Holanda: o comércio mundial declinou 1% em volume (isto é, em termos reais) em outubro, em relação a setembro, quando já tinha caído 1,1%.

Ontem, em relatório, a Associação Internacional do Transporte Aéreo (Iata) afirma que o negócio de carga aérea continuou em declínio no último trimestre de 2011. Em outubro, caiu 3,8%. Embora os lucros até agora não tenham sido muito ruins, a perspectiva é pessimista. Já o custo do transporte marítimo de produtos chineses para a Europa subiu pela primeira vez nos últimos quatro meses.

Além de contração econômica, Valles nota a queda nos preços de commodities agrícolas no rastro de melhor colheita. Ele ressalva que não é possível ainda falar de uma tendência. Mas o Deutsche Bank projeta para 2012 queda nas cotações de produtos como oleaginosas, trigo, milho, e estabilidade no preço do barril de petróleo, em torno de US$ 115.

Confirmando a preocupação do diretor da Unctad sobre desaceleração nas economias emergentes, a agência de classificação de riscos Fita baixou para 4,9% a projeção de crescimento nos emergentes, comparado a 5,7% que estimava na metade do ano.

Em todo caso, a Fitch calcula que os países que formam o grupo Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) continuarão a contribuir com quase metade do crescimento econômico mundial em 2012, a exemplo do que ocorre neste ano. Mas observa os riscos de declínio, diante da severidade da crise da dívida soberana na zona do euro.

Para Valles, a alta volatilidade das taxas de câmbio também poderá ser outra fonte de preocupação no comércio internacional em 2012. "Ninguém pode negar que isso afeta o fluxo de comércio", diz.

Os riscos de protecionismo também são cada vez maiores globalmente, observa Valles. A situação social provocada pelo declínio econômico e desemprego recorde em vários países aumenta ainda mais as pressões políticas por proteção de mercados.

A Unctad aproveitará sua conferência ministerial, que ocorre a cada quatro anos, para tentar aprofundar a cooperação internacional entre os países em desenvolvimento, para melhor saírem da crise atual. A conferência está marcada para abril, no Qatar.

Crise global e as commodities

Autor(es): Caio Megale e Giovanna Siniscalchi
Valor Econômico - 23/12/2011

Em uma de suas frases mais famosas, o mega investidor Warren Buffett lembra: apenas quando a maré baixa que sabemos quem está nadando pelado. No caso da América Latina, a "maré" é dada pelos preços internacionais de recursos naturais (as chamadas commodities). Enquanto eles permanecerem elevados, os possíveis problemas estruturais e de gestão macroeconômica da região poderão ser, em boa parte, compensados por um fluxo importante de receitas tributárias e de exportações.

De fato, a região cresceu mais quando os preços das commodities entraram em trajetória de alta, a partir de 2001 (impulsionados, em parte, pela entrada da China na OMC), complementando o efeito das importantes reformas estruturais dos anos 90.

A desaceleração atual não deveria ter grande impacto nos preços pois está concentrada nos países desenvolvidos, que não impulsionam a demanda dos produtos primários como os emergentes. Portanto, o cenário é favorável à América Latina

A exposição dos países do continente é bastante diversificada entre os diversos tipos de recursos naturais. O Brasil é o maior exportador de café e açúcar e segundo maior de minério de ferro e soja. O Chile possui cerca de 40% do mercado internacional de cobre, seguido pelo Peru com 10% - que tem ainda participações relevantes na produção de ouro (6,4%), prata (15,8%) e zinco (9%). Argentina, exportadora de grãos. México e Venezuela são concentrados em petróleo, enquanto a Bolívia em gás natural. A evolução dos preços das commodities é, portanto, crucial para a perspectiva econômica latino-americana.

Neste sentido, o agravamento do cenário internacional preocupa, pois a demanda por commodities tende a ser bastante correlacionada com o crescimento global. A crise europeia atingiu patamares mais preocupantes com a disparada dos juros da dívida externa de Itália e Espanha - países grandes demais para serem salvos. Dúvidas pairam também sobre Bélgica, França e até Alemanha. A Europa já está em recessão, e as projeções de crescimento do PIB mundial vêm sendo revistas para baixo. A equipe econômica do Itaú Unibanco, por exemplo, espera apenas 2,7% para 2012. Em tempos normais, este ritmo supera 4% ao ano.

Isto significa que as commodities continuarão a tendência de queda que iniciaram no fim de 2011? Não necessariamente. Do ponto de vista macroeconômico, a desaceleração atual não deveria ter um impacto elevado no preço das commodities pois é concentrada nos países desenvolvidos, e a demanda por commodities têm sido impulsionada pelos países emergentes, com destaque para a China. Neste sentido, o maior risco para estes preços seria uma parada abrupta do crescimento chinês, que por enquanto não faz parte do cenário.

Olhando para os balanços individuais das commodities, os motivos para a sustentação de preços são diversos. O elevado crescimento da demanda por este tipo de produtos ao longo da última década obrigou a oferta a se ajustar de forma forçada, com alguns casos significando redução de estoques e déficits entre consumo e produção. O caso mais clássico é o do cobre, que vêm sofrendo com a baixa qualidade do minério, altos custos de produção devido à falta de mão de obra qualificada e a necessidade de explorações cada vez mais profundas. Enquanto a oferta cresce a taxas modestas, a demanda tende a crescer a ritmos muito mais fortes. Do lado da energia, os preços do petróleo seguem pressionados, não apenas pelo balanço restrito entre oferta e demanda, como pela questão geopolítica, com o Irã como constante ameaça no Oriente Médio.

Nos mercados agrícolas, especialmente de alimentos, a demografia tem papel de grande relevância para a demanda, que possui como crescimento mínimo a taxa de elevação da população mundial. A produção, porém, é limitada pelo estoque de terras disponíveis, recursos hídricos e tecnologia atuais. Desta forma os preços não podem cair muito, pois é necessário incentivar a produção futura.

Apesar dos preços das commodities ficarem bastante sensíveis ao movimento de aversão ao risco nos mercados internacionais, acreditamos que eles devem ficar sustentados próximos aos níveis atuais pelo fato de o balanço entre a oferta e demanda ser apertado e também pela perspectiva de desaceleração apenas marginal das economias emergentes. Quando as incertezas com relação à Europa diminuírem e o mundo voltar a crescer mais forte a partir de meados de 2012, a tendência dos preços deve voltar a ser de alta. Desta forma os países da América Latina podem continuar a aproveitar este banho nudista.

Cabe, no entanto, um alerta. Apesar dos esforços dos líderes políticos europeus, a crise do endividamento não é fácil de ser equacionada. Um desfecho desordenado, que empurre mais países para a reestruturação forçada de suas dívidas pode ocorrer, embora não seja o mais provável. Nestas circunstâncias, o sistema financeiro global seria afetado, produzindo um estrangulamento dos fluxos internacionais de crédito semelhante ao de 2008/2009. Segundo as simulações do Itaú, o PIB mundial poderia experimentar uma contração de 2% em 2012, provocando uma queda de cerca de 25% nos preços médio das commodities.

Neste cenário alternativo, os fundamentos latino-americanos seriam postos à prova. Todos os países da região sofreriam. Mas aqueles baseados em modelos populistas, que mantém o crescimento através de subsídios a aumentos salariais artificiais - financiados, em boa parte, pela receita de commodities - não se sustentariam. O impacto da crise seria bem mais agudo nesses casos.

Em suma, mesmo com o menor crescimento mundial em 2012, os fundamentos ainda apontam para preços de commodities elevados. O cenário para a América Latina portanto, continua favorável. Mas é preciso monitorar as dimensões da crise europeia. É possível, embora não provável, que a "hora da verdade" para a região chegue antes do esperado.

Caio Megale, mestre em economia pela PUC-RJ, é economista do Itaú-Unibanco.

Giovanna Siniscalchi é economista do Itaú-Unibanco.