BC solta dólar. Por quê?

Brasil Econômico - 02/08/2013
BC solta dólar. Por quê?A recusa do Banco Central em defender ontem um suposto teto de R$ 2,30 por dólar intrigou e afligiu os investidores do mercado de câmbio.
A cotação do dólar chegou a passar de R$ 2,30, foi a R$ 2,3050 no início da tarde, e nada de o BC aparecer, justamente um dia após ter, com dois leilões efetivos
de swaps cambiais, agido para evitar a transposição.
É certo que a intervenção de quarta-feira não foi das mais enfáticas. Vendeu apenas US$ 2,25 bilhões, nada que revele uma "vigilância tempestiva" na defesa do real. Mas deixar o mercado solto? Teria de haver alguma novidade nessa aparente indiferença.
A ausência do BC levantou algumas hipóteses: não interveio porque havia fundamentação à alta (os juros dos T-Notes subiram de 2,58% para 2,71% por causa de bons indicadores americanos e o Dollar Index avançou 0,88%); não há nenhum teto a ser defendido, o BC atua apenas para moderar exageros porque a intenção do governo é mesmo depreciar o real para atacar a debilidade da balança comercial, causa principal do déficit em transações correntes do balanço de pagamentos; o BC, junto com a Fazenda, está preparando medida de grosso calibre para brecar a especulação com dólar, já que a venda de swaps se mostra inútil. Esta terceira hipótese freou os arroubos dos "comprados". O dólar fechou acima de R$ 2,30, a exatos R$ 2,3020, maior preço em quatro anos, mas poderia ter ido além se o mercado não estivesse ressabiado.

O BC sabe que a alta do dólar está sendo provocada por movimentos especulativos com contratos futuros negociados na BM&F, e não por falta de moeda no mercado à vista. A demanda por dólar foi atendida até o dia 19 de julho pelos bancos brasileiros. Estes sacaram de suas posições compradas à vista para atender a procura por dólar por parte de importadores, empresas e investidores estrangeiros. Essa demanda foi de US$ 2,044 bilhões. Com isso, as posições dos bancos caíram de US$ 3,06 bilhões no fim de junho para US$ 1,02 bilhão. Isso, até o dia 19. Na semana passada, não foi requerida a ajuda dos bancos, pois o fluxo cambial foi positivo em US$ 441 milhões. Ou seja, na segunda-feira havia uma sobra de dólares na praça no montante de US$ 1,46 bilhão. Sobrava dólar e o preço disparou. São as mágicas da especulação.

Os investidores estrangeiros, notadamente hedge funds globais especializados em apostar contra moedas e países, fecharam junho com uma posição "comprada" líquida de US$ 3,48 bilhões nos pregões de cupom cambial e dólar futuro da BM&F.
E encerraram julho com posição comprada líquida de US$ 11,84 billhões, se aproximando rapidamente do auge especulativo alcançado em março de 2009, quando as posições bateram em quase US$ 13 bilhões. Houve, portanto, nos 23 pregões de julho um acréscimo de US$ 8,36 bilhões nessas posições. E o que são elas?
São uma aposta contra o real e a favor do dólar. Ganham se o real se depreciar e o dólar se valorizar. E o dólar subiu 2,23% nomês passado. Os fundos gringos não estão sozinhos na jogada. Os maiores "comprados" são os investidores institucionais brasileiros, destacadamente os fundos de investimento. Suas posições aumentaram ao longo de julho em US$ 2,58 bilhões, subindo de US$ 22,45 bilhões no dia 28 de junho para US$ 25,03 bilhões no dia 31 de julho.
As posições compradas no futuro ganham se o dólar subir à vista. Para obter lucro nos pregões de derivativos cambiais, os "comprados" puxam artificialmente os preços da moeda no mercado de balcão, por meio de operações intradia, comprando e vendendo lotes de moeda sucessivamente.
Eles distorcem um preço fundamental da economia - a taxa de câmbio -, distorção que provoca inflação ao encarecer insumos importados, a ser combatida por Selics mais altas, cujo efeito é a desaceleração da economia e o aumento do desemprego, consequências já relatadas pelos indicadores correntes.
O BC também sabe que não adianta tentar combater a especulação cambial por meio de leilões de swaps cambiais, contratos destinados a fornecer hedge contra a alta do dólar. Isso porque os especuladores não querem hedge, querem a alta do dólar. O BC sabe também que não adianta combatê-los por meio da oferta de dólares sacados das reservas internacionais.
Não adianta vender dólares porque em primeiro lugar não está faltando dólares e, em segundo, porque os especuladores não querem dólar. Eles só querem que o dólar suba para que possam ter lucros em reais. Afinal, os contratos de cupom cambial e dólar futuro da BM&F são liquidados em reais, não em dólares. Amoeda americana é só a referência, o indexador.
Contra o especulador só há um jeito: medidas diretas capazes de desestimular a formação de posições compradas. Providências fiscais destinadas a anular o ganho que os especuladores vêm usufruindo, com total liberdade, desde maio. Por que a Fazenda em conjunto com o BC não tomam essas medidas? Porque temem que a imposição de um controle de capital exclusivamente sobre os "comprados" possa assustar e retrair os investidores estrangeiros de um outro tipo, os que desde a zeragem, no começo de junho, do IOF de 6% sobre aplicações em renda fixa, intensificaram as compras de títulos do Tesouro brasileiro.
O temor é injustificado, pois o perfil dos investidores externos em moeda é diferente dos que aplicam em renda fixa. O investimento estrangeiro em carteira (incluindo ações) cresceu 138,75% no primeiro semestre do ano. Pulou de US$ 7,51 bilhões nos primeiros seis meses de 2012 para US$ 17,93 bilhões em idêntico período de 2013. Para esse tipo de estrangeiro, oBrasil não é esse reduto de incompetência e intranquilidade que se alardeia todo dia.
A alegação do mercado de que não dá para tributar os "comprados" em câmbio porque eles são os mesmos que investem em NTN-B supõe que esses investidores sejam estúpidos. Por que fazer isso se o BC oferece a mesma proteção por meio dos swaps e ainda paga um cupom de 1,6%?
Uma medida contra o especulador cambial beneficiaria outro mercado crucial para a economia, o futuro de juros. São as projeções de CDI que formam o custo básico do dinheiro da economia, e não a Selic. E ontem os juros dispararam "por causa" do dólar. A taxa para a virada do ano avançou de 8,85% para 8,91%.
O contrato para janeiro de 2015 evoluiu de 9,59% para 9,84%. E a taxa para janeiro de 2017 subiu a 11,08%, de 10,76% no fechamento da véspera. Se o BC fosse seguir essas taxas, Selic de 10% seria modesta.