Pressão cambial tem sido relativamente moderada

Valor Econômico - 07/08/2013

A perspectiva de fim do relaxamento monetário nos Estados Unidos forçou a desvalorização cambial das moedas de vários países emergentes, em um processo que ainda está longe do fim. Ela tem sido intensa no Brasil e até agora houve correta prudência nas intervenções do Banco Central no mercado de câmbio. O BC tem aberto a porta de saída para quem precisa de proteção contra variações bruscas de moeda e garantido saudável liquidez nos mercados, evitando tanto a "quebra" de empresas pegas no contrapé como a tendência, em períodos de instabilidade, ao "overshooting".

Com a reavaliação global dos preços dos ativos, os fluxos de capitais se inverteram e tomaram a direção dos Estados Unidos. Com exceção dos investimentos diretos, sabidamente mais estáveis, a tendência é de desvalorização do real, que até agora foi moderada. Do início de maio até anteontem - em três meses -, o real perdeu 14,6% de seu valor em relação ao dólar, um ritmo bem mais modesto que no início da crise financeira, em 2008, quando a desvalorização entre agosto e outubro foi de cerca de 45%, para chegar no fim do ciclo a 60% de variação. As incertezas, apesar de grandes, são de menor intensidade que durante a grande crise financeira de 2008.

Ainda que possa fazer estragos na inflação, a desvalorização do real põe a moeda brasileira mais perto de uma posição de equilíbrio. Segundo relatório do Fundo Monetário Internacional (2013 External Sector Report), "uma combinação de indicadores sugerem que a taxa real de câmbio está sobrevalorizada de 10 a 15%" e se encontra "acima do nível compatível com os fundamentos econômicos de médio prazo" do Brasil. O relatório contém dados atualizados pelo menos até maio, quando o real era cotado, no início do mês, a R$ 2,01 por dólar. A grosso modo, o deslizamento do real até ontem, portanto, mais ou menos o retira do campo em que esteve nos últimos três anos, o da apreciação.

Isso não quer dizer que a tendência à desvalorização está esgotada ou que o Banco Central tenha qualquer meta numérica de atuação na área, e sim que uma correção dessa magnitude pode ser saudável. Mas não há qualquer garantia de que ela pare por aí. A reavaliação global dos ativos penaliza os países emergentes ao mesmo tempo em que suas condições econômicas pioraram e que podem estar próximos ao fim de seu ciclo de alto crescimento.

Como a taxa de crescimento dos Brics e de outros emergentes está em queda contínua, nem todas as mudanças chegaram ainda aos preços. O valor em dólar das ações dos emergentes está 25 pontos percentuais atrás dos papéis americanos ou japoneses, por exemplo. Em termos absolutos, há uma perda de 8% (Financial Times). Na área de bônus e papéis de dívida, os mercados desenvolvidos estão ampliando sua atratividade. Desde que Ben Bernanke, presidente do Fed, disse, em 22 de maio, que o afrouxamento quantitativo poderia ser interrompido, o título do Tesouro americano subiu 1 ponto percentual.

No caso do Brasil, tem havido deterioração da conta corrente, que deve continuar por algum tempo, estimulando a desvalorização do real. As importações não perderam até agora seu vigor, enquanto que as exportações, sim. O saldo comercial do semestre, negativo em US$ 3 bilhões, é o pior em 18 anos. O FMI aponta outros fatores que agem na mesma direção, como uma possível "queda sustentada dos preços das commodities" e alguns que vão no rumo contrário, como o esperado crescimento das exportações de petróleo do pré-sal. O normal para o Brasil, segundo vários métodos utilizados pelo FMI, seria ter um déficit em conta corrente entre 1% e 2% do PIB. Hoje ele está em 3,2% e, na previsão do Fundo, avançará no médio prazo para 3,5% a 4% do PIB por algum tempo, devido à "prevista aceleração do crescimento e dos investimentos".

Há o risco da saída de capitais, mas no Brasil as aplicações em portfólio já haviam se reduzido em 2012, diminuindo o passivo externo e o "estoque" de problemas em caso de pânico nos mercados. Exercerá influência moderadora na variação cambial a coincidência entre o ciclo de aperto monetário doméstico e a elevação dos juros decorrente do início da desmontagem do relaxamento monetário, aponta o FMI. O diferencial dos juros a favor do Brasil, que é enorme, não será fortemente erodido com a diminuição da liquidez externa. Se ela for ordenada.