Paises praticam "solidariedade pragmática" na OMC

Valor Econômico - 15/02/2011

O ceticismo ainda é a grande dúvida se desta vez a Rodada Doha está realmente na reta final. Mas algo começa a aparecer: a corrida do cada um por si, na defesa de seus interesses no pacote de liberalização agrícola, industrial e de serviços, distendendo alianças feitas ao longo da negociação. O Brasil, líder do G-20 agrícola, sugeriu que o grupo tem de pensar sobre como contribuir para fechar o pacote. E deixou claro aos seus membros que não vai se furtar a fazer suas próprias demandas agora na fase final da negociação global.

A posição brasileira reflete, de fato, o que todo mundo sempre soube: o G-20 agrícola tem diferenças e é heterogêneo, e isso vai se refletir na barganha final. O grupo só tem alguma unidade no combate aos subsídios domésticos e a exportação dos países ricos. China, Índia e alguns asiáticos resistem a mais cortes nas tarifas agrícolas, enquanto o Brasil e Argentina vão na outra direção, por exemplo.

Agora a proposta brasileira de acordo setorial agrícola, para beneficiar carnes, assusta tanto desenvolvidos como alguns emergentes. Não será surpresa o Brasil cada vez mais se distanciar da China e da Índia na negociação, sem necessariamente expressar isso publicamente. O jogo de cada um é diferente. Mas os três países sabem também que, separados, tem mais a perder contra as pressões americanas e européias. Assim, o Brasil vai praticar a chamada "solidariedade pragmática", sem engajamento automático.