Para analistas, após afagos ao Brasil, China vai mirar recursos naturais do país

Autor(es): agência o globo: Eliane Oliveira e Gilberto Scofield Jr.*
O Globo - 14/04/2011

Chineses buscariam acesso privilegiado também a projetos de infraestrutura

BRASÍLIA e PEQUIM. A visita da presidente Dilma Rousseff à China trouxe, a curto prazo, resultados mais positivos para o Brasil do que para Pequim, mas a conta será cobrada no futuro, segundo avaliam integrantes do governo e analistas do setor privado. Em troca de acenos como a abertura do mercado chinês para a carne suína in natura, a compra de mais aviões da Embraer e investimentos na produção do tablet iPad, os chineses querem se beneficiar do que consideram um manancial de oportunidades de investimentos nas próximas décadas e, ainda, contar com um fornecedor firme de recursos naturais.

Embora as autoridades do governo chinês não tenham dito claramente suas pretensões, Pequim deu sinais de que não se furtará a reivindicar vantagens em projetos de infraestrutura e logística. São exemplos o pré-sal, o trem-bala, a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Além disso, altamente dependentes de recursos naturais, os chineses gostariam de receber tratamento preferencial em relação a outros parceiros internacionais.

Foco está em petróleo, alimentos e mineração

Entre os exemplos da preferência sutilmente reivindicada estão a exploração e processamento de minérios, a exportação facilitada de petróleo à China e a produção e o esmagamento de soja por empresários chineses que compraram terras em Goiás, Mato Grosso e Bahia. Impedido de direcionar licitações e leilões, o governo brasileiro poderia criar condições de participação em benefício dos chineses.

- O Brasil é como uma noiva disputada por diversos atributos - comentou um alto funcionário do governo brasileiro.

O afago dado pelo presidente chinês Hu Jintao em Dilma ao mencionar, de forma inédita, que o Brasil será um ator importante na reforma do Conselho de Segurança da ONU foi também influenciado pelos sinais emitidos por ela de que a parceria política vai continuar.

Para o diplomata e presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), José Botafogo Gonçalves, o saldo do encontro entre Dilma e Hu foi positivo para o Brasil. Isso porque, pela primeira vez, os dois líderes falaram sobre a necessidade de os chineses comprarem commodities com maior valor agregado:

- O Brasil vai se tornando um grande exportador de alimentos. Não há país no mundo que tenha condições naturais como as nossas, além da tecnologia da Embrapa. Devemos fazer pressão para vender não apenas soja em grão, mas também óleo de soja e carnes.


Gonçalves destacou que, no regime tributário chinês, a taxação dos produtos importados aumenta no momento em que são processados.

Um dos fundadores da Comissão de Defesa da Indústria Brasileira, o empresário Roberto Barth lembrou que a China só investirá em projetos voltados à melhoria da vida dos chineses: petróleo, alimentos e mineração.

A presidente Dilma aproveitou a manhã de ontem, quando não tinha agenda oficial em Pequim, para conhecer a Cidade Proibida, acompanhada da filha Paula, ministros e assessores. O acupunturista Gu Hanghu, que a acompanha na viagem à China, também foi ao passeio. Na saída, Dilma deixou uma mensagem no livro de visitantes:

"É uma experiência fantástica a visita à Cidade Proibida, onde a China de outrora mostrava a sua força e riqueza. Hoje, a China recupera em outras bases o seu desenvolvimento. É muito importante a parceria entre o Brasil e a China".

No início da noite, Dilma foi para Sanya, onde acontece, a partir de hoje, o encontro dos Brics.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe aqui o seu comentário, muito obrigado pela sua visita!