O câmbio como purgante

Correio Braziliense - 09/05/2013

O problema é que, não fosse pelo interesse nem um pouco diletante dos operadores do mercado financeiro com a taxa de juro básica (a Selic), que reage à inflação conforme a vontade do BC de enfrentá-la, talvez só se falasse de IPCA quando a convivência se tornasse insuportável. E quando seria isso? Provavelmente quando a indexação salarial fosse acusada de provocar a corrida salário-preço-câmbio.

No ano passado, o governo tentou limar o ganho real dos salários ao induzir a depreciação cambial, que é o meio mais difuso de repor a lucratividade, ou competitividade, das empresas sem dar na vista dos sindicatos. Exportações, em tese, seriam recuperadas, além de frear as importações, dependendo do tamanho da desvalorização. Nos setores em que os sindicatos são atuantes e as empresas dispõem de subsídios, como o automotivo, as perdas sociais seriam mitigadas. A maioria pagaria a conta sem entender direito quem mandou cobrá-la.

Saídas estão obstruídas
O governo voltou parcialmente atrás ao constatar que a fraqueza do real fora pega no contrapé pelo efeito do choque de oferta agrícola associado ao laxismo fiscal e monetário. Mas as razões permanecem. Indústria fraca com importações fortes clama por competitividade, como diz o economista Fernando Montero. É uma combinação que revela restrições de oferta e correção pendente de preços relativos — mas com a inflação partindo de 6% e com o mercado de trabalho aquecido.

Não há margem num cenário que já não comporta choque nenhum. Além disso, diz Montero, atrelar o câmbio outra vez à inflação põe peso demais sobre a indústria, ao forçá-la a esperar a reversão do IPCA para compensar custos. Isso é frágil como cristal.

O domínio da preguiça
Nunca uma declaração singela disse tanto sobre o perfil caseiro da indústria brasileira. E foi um industrial nacional o autor, o que é cada vez mais raro. “As empresas não inovam, porque não precisam”, disse o presidente da Natura, Pedro Passos, em evento da Associação Brasileira de Ciências, no Rio, sobre pesquisa e desenvolvimento. Sua simplicidade revelou mais que quaisquer dos planos de apoio à inovação. Presidente do Iedi, centro de estudos industriais, Passos disse que “quem não disputa o mercado internacional (é porque) tem mercado cativo em casa”, a “empresa não precise inovar”. E emendou: “No mercado nacional há mais incentivos, o risco é menor, a empresa pode oferecer um produto de qualidade inferior”.

Sem competir globalmente, a lassidão prevalece até entre as firmas estrangeiras. Nenhuma se destaca por manter no país uma plataforma global. Inovação não rima com proteção. Voltaremos ao tema.