Resultado da indústria é motivo de preocupação

Valor Econômico - 07/05/2013

O desempenho da indústria decepcionou neste início de ano a ponto de abater as previsões para o Produto Interno Bruto (PIB). A produção industrial aumentou 0,7% em março, o que é pouco depois que a retração de 2,4% em fevereiro anulou praticamente todo o crescimento de 2,7% de janeiro. No acumulado do primeiro trimestre, a produção industrial caiu 0,5%, e na comparação de março deste ano com o mesmo mês de 2012, recuou 3,3%, de acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Dos 27 ramos da indústria acompanhados pelo IBGE, 14 registraram queda de produção e 13 tiveram expansão. O recuo da produção de bens de consumo semiduráveis e não duráveis de 0,5% entre fevereiro e março é sinal de que a inflação está reduzindo o poder de compra da população. Até a produção de alimentos teve queda (2,7%). Não fosse o aumento de 4,7% da produção de duráveis, puxada pela expansão de 5,1% dos veículos automotores, beneficiados pela manutenção do IPI reduzido, o setor de bens de consumo não teria crescido 1,4% no mês. No ano, porém, o balanço continua negativo, com queda acumulada de 2,8%.
Um dado animador nesse cenário nebuloso é a expansão da produção dos bens de capital, de 0,7% em março e 9,8% no ano, o que pode significar a recuperação de outros segmentos. Normalmente, a compra de bens de capital reflete investimentos na produção.
O desempenho dos bens de capital levou os analistas a manter a previsão de que a indústria deve crescer ao redor de 2,5% neste ano, depois de ter encolhido 2,6% em 2012, quando registrou o pior resultado desde os registrados em 1992 e 2009, anos em que o PIB caiu.
O avanço lento e irregular da indústria se somou ao desempenho ruim da balança comercial. A balança de petróleo e derivados tem sido a principal causa do déficit comercial deste ano, que atingiu US$ 6,15 bilhões no acumulado até abril. Importações de petróleo feitas em 2012 e só agora contabilizadas e a redução da produção neste ano devido a paradas de plataformas para manutenção explicam o resultado decepcionante, além da queda dos preços das commodities. Mas a balança comercial revela que os produtos industrializados também não estão ajudando as contas externas, com queda nas vendas de óleos combustíveis, aviões e máquinas e aumento das importações de bens de consumo como alimentos, produtos têxteis e farmacêuticos.
Valor apurou que, com preços mais baixos, os bens manufaturados importados estão ganhando espaço no mercado brasileiro, em detrimento do produto nacional, especialmente em alguns segmentos. Segundo a Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), a quantidade importada de bens não duráveis subiu 10,8% no primeiro trimestre enquanto a produção de semi e não duráveis recuou 3,9% no mesmo período. Nos bens intermediários, a importação aumentou 5,1% e a produção caiu 0,8%. Os bens de capital foram exceção, uma vez que a produção subiu 9,8%, mais do que os 7,1% das importações.
A preocupação com o desempenho negativo da indústria brasileira, observado dos mais diferentes ângulos, ficou evidente no debate a respeito das causas do fraco crescimento da economia brasileira, registrado no caderno especial "Rumos da economia", publicado pelo Valor no seu 13º aniversário (2/5). Mesmo em correntes econômicas diferentes, os professores Edmar Bacha e Luiz Gonzaga Belluzzo concordaram que o crescimento passa pela revitalização da indústria, em debate promovido pelo Valor. Bacha chegou a propor um Plano Real para a indústria, que passaria por três estágios, envolvendo, sinteticamente, a redução progressiva dos tributos que afetam a indústria, com simultâneo corte de despesas para compensação da queda de receita tributária; a troca das tarifas de importação por um câmbio mais competitivo; e o estabelecimento de acordos comerciais com os principais mercados internacionais.
Para o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, a reindustrialização do país requer uma agenda mais complexa, além de tarifas e câmbio competitivo. Segundo disse ao Valor (6/5), a estratégia passa pela manutenção de políticas já em vigor, como requisitos de conteúdo local e exercício do poder de compra do Estado, mas também por mais estímulo à inovação e à competitividade internacional dos produtos nacionais.
Diagnósticos e soluções para a recuperação da indústria não faltam. A questão é colocar as propostas em prática.