Choque à "la Lula", não "Lula lá"


Brasil Econômico - 09.07.2013

Para o governo Dilma, será mais difícil se comprometer com o choque desejado pelo mercado.

Depois de várias semanas de agitações e disparadas ininterruptas, o marasmo total provocado pelo feriadão paulista propiciou um momento de reflexão ao mercado financeiro.

Em sua volta amanhã estará mais aberto à concessão de um voto de confiança ao governo Dilma? Ou retornará mais enfático na cobrança das mudanças pleiteadas com estardalhaço?

As informações mais recentes, amparadas pelas expectativas gerais, são de que o consumo, a produção e o investimento estão desacelerando. O motivo essencial é: não há confiança no futuro para que os consumidores consumam, os industriais produzam e os empresários invistam.

O futuro parece apontar para o prolongamento das insatisfações populares e das incertezas empresariais. Nesse ambiente, o quadro seria francamente deflacionário, se não fosse por uma variável-chave: a valorização do dólar.
Ninguém sabe ao certo a que altura o dólar poderá subir e o quanto da alta será repassada à inflação. Esse cenário pessimista foi refletido integralmente pela pesquisa Focus divulgada ontem pelo Banco Central.

A mediana das cem previsões para o crescimento do PIB este ano recuou de 2,4% para 2,34%. Foi a oitava queda consecutiva. No boletim do dia 10 de maio - há apenas dois meses - as instituições previam alta do PIB de 3%. E, depois de oito quedas, esses 2,34% não parecem ser o fundo do poço das expectativas. Já se ouvem previsões aquém dos 2%.

O avanço da produção industrial foi revisto de 2,49% para 2,34% no Focus de ontem. E a estimativa de IPCA para o acumulado do ano, após três semanas de alta, foi reduzida de 5,87% para 5,81%.

Nessa projeção ainda não há nem, do lado positivo, a incorporação do índice mais baixo de junho (de 0,26% ante expectativa média de 0,33%) nem, do lado negativo, dos efeitos da valorização do dólar. De meados de maio para cá, a moeda americana subiu um pouco mais de 12%.

Mas como ainda não decorreram os três meses de praxe para a efetivação do "pass through", o efeito sobre o IPCA ainda não foi agregado às previsões. Uma variação desse tamanho implica em repasse de 0,20 ponto ao índice de inflação. Se o repasse fosse feito, o IPCA já rodaria perto de 6%.

O tom negativo do Focus fica também evidente nas projeções de IPCA para o ano que vem. A estimativa fornecida ontem subiu de 5,88% para 5,9%. Isso quer dizer que o mercado não acredita que o BC, apesar do aperto monetário, conseguirá trazer o índice para perto da meta central de inflação, de 4,5%.

O Focus aposta em Selic de 8,5% amanhã, de 9% no Copom do dia 28 de agosto e de 9,25%, encerrando o ciclo de alta, na reunião de 9 de outubro. As cem instituições consultadas pelo BC resolveram consignar desta vez a mudança de patamar do dólar. O preço esperado para o fim do ano subiu de R$ 2,15 para R$ 2,20.

As projeções do Focus costumam variar muito vagarosamente. As mudanças bruscas são evitadas ao máximo, até que o mercado tenha certeza de uma tendência consistente. Parece ser o caso agora.Mas o nível de R$ 2,20 para dezembro pode delimitar mais um piso para o dólar do que um valor fidedigno.

Para quebrar o círculo vicioso do pessimismo, o mercado anseia e defende um choque de credibilidade, no caso sinônimo de guinada total para uma política econômica ortodoxa, nos moldes daquela aplicada por Lula no começo de 2003 para romper as desconfianças ainda remanescentes a despeito da Carta ao Povo Brasileiro, divulgada no dia 22 de junho de 2002.

O que ele fez? Na primeira reunião do Copom de Lula, a Selic subiu de 25% para 25,5%. E, na segunda, no dia 19 de fevereiro de 2003, para 26,50%. E a taxa permaneceu nesse patamar até junho. E se comprometeu com um vigoroso superávit primário, autêntico, sem malabarismos contábeis. A média de superávit primário do seu primeiro mandato (2003 a 2006) foi de 3,6% do PIB.

Para o governo Dilma, será mais difícil se comprometer com o choque desejado pelo mercado. Faz hoje um meio choque: o BC executa um aperto monetário mas explicitamente sem perseguir o centro da meta de inflação; e o ministro Guido Mantega prometeu um superávit primário de 2,3% do PIB sem o concurso de "portarias e medidas administrativas".

Aos olhos do mercado, parece pouco para renovar a confiança de investidores internos e externos. O governo não parece disposto a abrir mão do juro real de 2%, da meta de desemprego e da fixação de taxas de retorno consideradas insuficientes nas concessões públicas. O mercado quer um choque à ‘la Lula', para não ter de engolir, mais à frente, um ‘Lula lá'.

Já com pouca liquidez, na véspera do feriado paulista que hoje irá paralisar as atividades da Bovespa e dos pregões futuros de dólar e juros da BM&F, os mercados operaram ontem no zero a zero. E os estímulos externos a uma mudança de tendência foram escassos.

O principal mercado de referência - o secundário de títulos do Tesouro americano - operou em queda. Depois da disparada dos ‘yields' dos T-Notes de 10 anos, de 2,51% para 2,75%, na sexta-feira, em reação a uma recuperação mais acentuada do que o previsto dos empregos nos EUA, ontem as taxas trabalharam em queda, para 2,66%. No Brasil, o dia de meio-expediente, fez o dólar oscilar entre a mínima de R$ 2,2487 e a máxima de R$ 2,2634 para fechar estável a R$ 2,2590.

Os juros futuros recuaram em bloco. Com liquidez reduzida a um terço do normal, o contrato para janeiro de 2015 caiu de 9,67% para 9,59%. A taxa para janeiro de 2017 recuou para 10,88%, de 11,04% na sexta.

Com São Paulo fora do ar hoje, a liquidez será mais apertada ainda nos mercados à vista de dólar e juros. Sem as balizas fornecidas pelos pregões futuros, o dólar e as taxas do CDI e do CDB tendem a permanecer estáveis.

O viés de tranquilidade prevalece nas expectativas do mercado futuro de juros. Às vésperas da reunião de julho do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, não há no pregão a costumeira tensão pré-Copom, caracterizada pelo feroz embate entre "comprados" e "vendidos".

Desta vez, como a expectativa consensual absoluta aponta para uma alta da Selic, no início da noite de amanhã, de 8% para 8,50%, as operações se limitam a ajustes técnicos. O momento favorece a posição dos "vendidos" (fundos nacionais e investidores estrangeiros), no valor de R$ 250,22 bilhões, em detrimento das apostas dos "comprados" (bancos nacionais, com R$ 251,99 bilhões).

Os primeiros ganham se a Selic subir ao longo do tempo, até o final do atual ciclo de aperto monetário iniciado em abril, menos do que estava embutido anteriormente na curva
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