Contra MP 595, portuários viram a noite em navio chinês no Porto de Santos

Protesto em alto mar

De A Tribuna On-line
Atualizado às 10h40

Os trabalhadores portuários avulsos do Porto de Santos viraram a noite a bordo do navio chinês Zhen Hua 10, atracado no Terminal Embraport, na Ilha Barnabé. A medida foi tomada porque a empresa não requisitou profissionais do Órgão Gestor de Mão de Obra (Ogmo) do Porto de Santos, e utiliza funcionários chineses no descarregamento das peças. A ação faz parte dos protestos dos portuários contra a Medida Provisória 595, a MP dos Portos. 

Durante a segunda-feira, representantes da empresa e dos trabalhadores avulsos tentaram chegar a um acordo. No entanto, apesar de duas reuniões e horas de conversa, nada mudou. O fornecimento de água e comida foi interrompido, mas mesmo assim eles não abandonaram a embarcação. 

A invasão começou às 3h20 desta segunda-feira. Durante a madrugada, cerca de 50 trabalhadores chegaram de barco ao cais da Embraport, invadiram o navio e não permitiram a continuidade do trabalho. 

A embarcação chegou na sexta-feira carregando três portêineres, que são equipamentos usados na remoção de cargas dos navios, e 11 transtêineres, que servem para movimentar a carga já desembarcada. A previsão é a de que os trabalhos de remoção dos equipamentos durem, aproximadamente, 22 dias. 

Um pouco d´ água
Os portuários, que ocuparam o navio chinês, estavam desde as 15 horas de segunda-feira sem água e sem comida. Nesta manhã, a Embraport cedeu um galão de 20 litros de água aos 46 estivadores e cinco operários portuários que ocupam o navio.  Detalhe: a água servida pela empresa veio sem gelo.

“Nesse calor insuportável”, reclamou o vice-presidente do Sindicato dos Operários Portuários, Claudiomiro Machado ‘Miro’, às 10h20, “o pessoal bebeu água quente como se estivesse no deserto”.

Segundo ele, alguns trabalhadores, com problemas de diabetes, já passaram mal, “mas, graças a Deus, se recuperaram. O que querem fazer com a gente? Isso não se faz nem com prisioneiro de guerra”.
Créditos: Carlos Nogueira
O último lanche foi servido aos portuários às 15 horas; sindicalista diz que categoria sente fome e sede
Pressão 
O presidente da Força Sindical, deputado federal Paulo Pereira da Silva (PDT), o Paulinho, afirmou que inicialmente a ocupação do navio não fazia parte das mobilizações, mas tornou-se um ato de protesto quando os portuários perceberam que chineses estavam trabalhando para descarregar os equipamentos da empresa. 

"Eles vieram trazer os equipamentos e já trouxeram também a mão de obra, mas os chineses não têm autorização para trabalhar no Brasil. É uma indicativa da Embraport de não contratar trabalhadores do Órgão Gestor de Mão de Obra (Ogmo).

Um primeiro passo para deixar os trabalhadores de fora", afirmou Paulinho. De acordo com o deputado, os sindicatos já pediram ao Ministério do Trabalho a verificação dos vistos dos chineses. 

Como forma de pressão para liberarem o navio ocupado, os sindicatos pedem uma negociação com a Embraport para estabelecer um compromisso de contratação da mão de obra avulsa quando o terminal começar a operar. 

De acordo com a MP 595, terminais privados como a Embraport não precisam utilizar trabalhadores vinculados ao Ogmo nas operações. Este é um dos pontos de discórdia entre o Governo e trabalhadores. 

“A Embraport não nos deu outra alternativa. Invadimos o terminal em busca dos nossos direitos porque, além do desrespeito, ainda colocaram os chineses para trabalhar no nosso lugar. Nós não vamos sair de lá enquanto não tivermos uma garantia. A empresa está se valendo da MP 595”, disse o presidente do Sindicato dos Estivadores, Rodnei Oliveira da Silva.

Por meio de nota, a Embraport informou que está reunida com as entidades representantes dos trabalhadores para negociação e que "mantém diálogo constante e cumpre rigorosamente a legislação vigente". A empresa solicitou a liberação do navio na manhã desta segunda e aguarda a saída dos sindicalistas para continuar com o desembarque dos equipamentos que serão usados no terminal de Santos.
Créditos: Carlos Nogueira
Cerca de 50 trabalhadores portuários avulsos invadiram a embarcação chinesa na madrugada desta segunda