O impasse da Rodada Doha desencadeou uma onda de acordos bilaterais de livre comércio, cujo exemplo mais recente é o surpreendente anúncio do início das negociações entre os Estados Unidos e a União Europeia. Se as negociações prosperarem, será criada a maior zona de comércio do mundo, um bloco que representa nada menos do que metade da produção global e um terço do comércio internacional de bens e serviços, e movimenta cerca de € 700 bilhões.
Há cerca de duas décadas, os Estados Unidos e a União Europeia conversam a respeito de um acordo, mas nunca antes as condições estiveram tão propícias. Tanto é que os dois lados se comprometeram a concluir um acordo em até dois anos, ainda durante o mandato do atual comissariado da União Europeia. "É a primeira vez em 20 anos que algo pode acontecer", disse o "The New York Times" (14/2).
Ironicamente é a crise internacional que tornou o acordo mais viável, pela necessidade dos dois lados de desenvolverem projetos que possam reanimar o crescimento e criar empregos, com o efeito colateral de formar uma frente única contra a China e outros países emergentes. A zona do euro acaba de divulgar uma queda de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2012. Os Estados Unidos tiveram um recuo inesperado de 0,1% do PIB no quarto trimestre, fecharam o ano com um resultado bem melhor, crescimento de 2,2%, mas sua economia patina com o impasse na área fiscal, e o governo apelou para os programas setoriais, como o destinado a impulsionar a indústria.
Tanto os Estados Unidos quanto a União Europeia já são mercados relativamente abertos, de modo que as tarifas entre os dois blocos já são baixas. A alíquota média dos dois lados é de 3%, segundo a Comissão Europeia, o que não quer dizer que não há problemas a discutir.
As negociações deverão se concentrar em barreiras não tarifárias e harmonização de regulamentação para produtos como alimentos, automóveis, brinquedos e medicamentos. Se forem uniformizadas as exigências de emissão de veículos, por exemplo, as indústrias dos dois lados vão economizar ao fabricar uma única versão de cada produto.
Um acordo com essa extensão terá repercussões globais, pois os produtores de outros países, inclusive a China, terão que aceitar os padrões estabelecidos, e teria que ser aprovado pelos 27 países-membros da União Europeia, pelo Parlamento Europeu e pelo Congresso dos Estados Unidos.
Não é por outro motivo que José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, disse que um acordo entre a União Europeia e os Estados Unidos iria "mudar o jogo". Um elogio à negociação foi incluído de última hora no discurso a respeito do Estado da Nação, feito pelo presidente americano, Barack Obama, na semana passada.
Há quem diga que um acordo desse porte seria uma pá de cal na Rodada Doha, que patina há anos. Pode ser um exagero, mas a demora dessa negociação estimulou os acordos bilaterais, que ganharam impulso extra com a crise, pois tanto os Estados Unidos como a União Europeia sabem que a saída passa pela expansão do comércio exterior, dada a apatia dos mercados domésticos. No mesmo discurso Estado da Nação, Obama também fez referência a outro acordo comercial que Washington vem desenhando, o da Parceria Transpacífica, com países da Ásia, exceto a China.
Já a União Europeia selou neste início de ano outros acordos bilaterais com o Chile, México e Colômbia. Durão Barroso esteve inclusive no Brasil com o mesmo objetivo.
Mas o governo brasileiro resiste em negociar fora do âmbito do Mercosul, o que não desagrada a União Europeia.
A negociação em bloco tem o lado positivo de fortalecer a posição do Brasil, embora o país seja a parte mais forte do bloco. O problema são os parceiros. A Argentina resiste em abrir o comércio exterior, especialmente na atual situação econômica. Oficialmente, a resposta do Mercosul para a União Europeia foi a necessidade de se esperar a eleição no Paraguai, em meados do ano, para que o país, que está suspenso do bloco, volte a participar das discussões e da decisão final.
Enquanto isso, o Brasil fica vulnerável no mercado externo e pode pôr em risco seus negócios tanto nos Estados Unidos quanto na União Europeia, caso fique à margem das negociações atualmente em curso.