Domar expectativas cambiais

Autor(es): Por Alex Ribeiro | De Brasília
Valor Econômico - 06/02/2013


Para a inflação, o que vale não é só o preço do dólar hoje, mas quanto as pessoas acham que ele vai valer em breve. Isso ajuda a entender, em grande medida, a preocupação do Banco Central em domar as expectativas do mercado sobre a trajetória do câmbio.
O repasse da desvalorização cambial para a inflação foi mais intenso do que o BC esperava em 2012, afirma uma fonte da equipe econômica. Em tempos normais, uma desvalorização cambial de 10% leva a um aumento na inflação de 0,6 ponto percentual nos 12 meses seguintes. As indicações são de que o repasse superou esse coeficiente, num momento em que se esperava que ficasse menor, dada a debilidade da economia.
"A evidência é que o repasse da desvalorização cambial é menor quando a economia está muito baixa", afirma uma fonte da equipe econômica. "A economia andava muito fraca, por isso esperávamos menos." "Em fins do ano passado, surgiu essa história de que o governo gostaria de um câmbio mais desvalorizado, algo como R$ 2,30, R$ 2,50", diz a mesma fonte. "Isso contribuiu para que o repasse à inflação fosse mais forte."
A expectativa de desvalorização do câmbio foi alimentada em novembro pela presidente Dilma Rousseff, que afirmou que o câmbio na casa dos R$ 2,05 seguia sobrevalorizado.
"O repasse cambial para a inflação não é sempre igual", afirma a fonte. "Ele depende do tamanho do movimento. Se a desvalorização for de apenas 5%, as empresas podem acomodar o custo. Mas, se for de 50%, não aguentam e repassam a alta rapidamente."
"A expectativa dos agentes sobre o novo patamar de câmbio também é importante", segue a fonte. "Quando o câmbio flutua, as empresas esperam um pouco para ver se o novo patamar é para valer, antes de reajustar o preço. Se o noticiário diz que, depois de subir para R$ 2,05, vai disparar para R$ 2,30, então as empresas reajustam os preços logo de uma vez."
Desde o fim de dezembro, o BC vem procurando sinalizar ao mercado que, dadas as condições atuais de mercado, a taxa de câmbio permanecerá mais estável, ajudando a combater pressões inflacionárias. Continuará a flutuar, mas obedecendo aos fundamentos da economia. De seu jeito, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem a mesma preocupação em coordenar as expectativas. Mas ele quer evitar uma apreciação cambial que corroa a competitividade da indústria.
"O discurso dele no encontro dos prefeitos na semana passada foi para impor limites", explica um auxiliar da área econômica. "Havia gente assumindo posições especulativas na direção da valorização do câmbio. O ministro falou para cortar as especulações pela raiz."
Fazenda e BC reafirmam que o sistema é de câmbio flutuante, apesar das evidências em contrário, como as declarações sobre o nível ideal do dólar. No BC, o discurso é que, no caso de um choque externo, o câmbio é a primeira linha de defesa. A taxa irá para o novo valor de equilíbrio que tiver que ir. A atuação do BC seria apenas para corrigir disfuncionalidades do mercado de câmbio, como variações de preços determinados por poucos negócios, em momentos de pouca liquidez; para reduzir a volatilidade da taxa de câmbio; e, quando há espaço, para acumular reservas internacionais.