Valor Econômico - 15/02/2013
Por Roberta Costa e Aline Oyamada | De São Paulo
A divulgação do PIB da zona do euro no quarto trimestre fez com que a moeda única recuasse ontem à sua mínima desde o fim de janeiro. Na região, a contração de 0,6% foi maior que a esperada (-0,4%). Na Alemanha, a queda foi de igual tamanho, superando os piores prognósticos.
O setor exportador alemão passou a mostrar sinais mais claros de fraqueza, de modo que o debate em torno da valorização do euro ganha mais ímpeto. É claro que, isoladamente, a fraqueza da economia mundial explica também boa parte dessa história.
Se Mario Draghi falou pouco do câmbio (forte) nos últimos meses, uma frase foi certeira em sua exposição após a última reunião do Banco Central Europeu: "A moeda deve refletir os fundamentos". Ao dizer que o nível do câmbio não é um objetivo em si, mas é "importante para o crescimento e a estabilidade de preços", o presidente do BCE derrubou o euro "no grito", mas nada garante que essa tendência continue, ao menos porque o Federal Reserve não tem prazo para suspender suas intervenções mensais de US$ 85 bilhões, nem o Banco do Japão para recuar do desejo pela desvalorização do iene.
As injeções de liquidez mundo afora criaram o ambiente propício a "desvalorizações competitivas", embora as autoridades neguem. Não à toa, este é um dos focos da reunião do G-20 e foi o pano de fundo da confusão gerada pelo comunicado do G-7, o que coloca o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, na mira dos críticos.
O HSBC afirmou em relatório que sim, "estamos em uma guerra cambial". Segundo a área de estratégia de moedas do banco, no último ano aumentou o apetite de muitos países por essa disputa, sendo as economias mais ativistas o Japão, a Suíça e outras da América Latina. Mas "nem todos aceitam o tema guerra cambial". E continua: "O economista-chefe do FMI, por exemplo, afirma que as discussões sobre guerra cambial já passaram, enquanto o presidente do Banco do Canadá disse que "não há sinais de uma guerra cambial mundial". O último presidente do SNB [BC da Suíça] argumenta que a depreciação das moedas é normalmente apenas um efeito colateral de bancos centrais buscando cumprir seus mandatos políticos".
O fato é que, dentre os bancos centrais das nações desenvolvidas, a autoridade japonesa foi a única a explicitar o desconforto com o patamar do iene. Suas intervenções orais e o anúncio do foco do país em sair da deflação fizeram a moeda cair 14% desde o início de novembro (para 93,24 ienes por dólar). Isso, de certa forma, se fez refletir no melhor resultado das exportações líquidas entre setembro e dezembro. O PIB japonês como um todo teve sinal negativo de 0,4% no quarto trimestre, depois de -3,8% (revisado de -3,6%) no terceiro.
Junto com o PIB, o BoJ deixou tudo como está na reunião que terminou ontem, mantendo os juros e o programa de compras de ativos de 101 trilhões de ienes. Foi uma decisão esperada, especialmente a partir do anúncio da antecipação da saída do presidente Masaaki Shirakawa para março. Mas, com a definição da nova composição do banco central, a expectativa dos analistas é de continuidade dos afrouxamentos monetários.