Dívida externa cresce

Autor(es): ROSANA HESSEL
Correio Braziliense - 03/08/2013 

A disparada do dólar bateu em cheio no caixa de empresas e bancos que, nos últimos anos, se empanturraram de dívidas no exterior. Com a moeda norte-americana rompendo o teto de R$ 2,30 — a maior cotação dos últimos quatro anos —, o total de débitos está em disparada. Na comparação entre junho deste ano, quando a fatura bateu em US$ 480,6 bilhões, com o mesmo período de 2002, houve um aumento de 15%. Em relação a dezembro de 2009, quando o mundo se debatia para sair do atoleiro da crise provocada pelo estouro da bolha imobiliária dos Estados Unidos, a elevação foi de 73%.

Para os analistas, apesar de ainda estar sob controle, a dívida externa preocupa. Em um quadro internacional mais adverso, com volume menor de recursos disponíveis aos países emergentes, o dólar poderá subir e haver complicações para as empresas mais endividadas. “Não à toa, os investidores estão vez mais pessimistas em relação à economia brasileira”, disse Clodoir Vieira, sócio da Consultoria empresarial Compliance. Ele contou que tem recebido relatórios de várias instituições financeiras indicando que o dólar chegará a R$ 2,40 ainda neste ano, principalmente se a economia dos Estados Unidos mantiver sinais mais fortes de melhora.



A valorização do dólar afeta muito mais o setor privado, que responde por quase 90% do endividamento externo. De 2009 para cá, os débitos dos bancos mais que dobrou, passando de US$ 63,6 bilhões para US$ 147,4 bilhões. No caso das empresas não financeiras, o salto foi de 65%, passando de R$ 65,6 bilhões para US$ 108,7 bilhões. Há ainda a parcela de créditos negociados entre companhias, fora dos sistema bancário. Nesses casos, as operações passaram de US$ 79,3 bilhões para US$ 158,9 bilhões — um aumento de 100%.

“A dívida externa de bancos e empresas vinha crescendo, porque estava mais barato se financiar lá fora. Mas isso começou a mudar com a virada do câmbio, considerando que o real não deve voltar para os patamares anteriores. Pelo contrário, tende a se desvalorizar mais”, afirmou o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. Ele acredita que a quebradeira ocorrida durante a crise de 2008 e de 2009 não deverá se repetir, porque as empresas aprenderam a não fazer operações acima de sua capacidade de pagamento, como naquela época.

“Casos como os da Sadia e da Aracruz são mais difíceis agora. De qualquer maneira, ficará mais caro se financiar no exterior, especialmente considerando que o risco Brasil deve continuar subindo por causa da política econômica tortuosa da presidente (Dilma Rousseff)”, afirmou Vale.
Em disparada 
(em US$ bilhões)
Com a divisa norte-americana subindo, o endividamento externo só vai aumentar

Total

2009 277,6

2010 351,9

2011 404,1

2012 440,6

2013 480,6*

Governo geral

2009 64,4

2010 65,1

2011 57,8

2012 59,2

2013 61,2*

Autoridade monetária

2009 4,5

2010 4,4

2011 4,4

2012 4,3

2013 4,3*

Bancos

2009 63,6

2010 103,1

2011 138,3

2012 139,7

2013 147,4*

Empresas

2009 65,7

2010 84,1

2011 97,7

2012 105,5

2013 108,7*

Empréstimos intercompanhia

2009 79,4

2010 95,1

2011 105,9

2012 127,7

2013 158,9*

*Até junho

Fonte: Banco Central