O Globo - 14/12/2011
Uma das vantagens de o país ter acumulado elevado volume de reservas cambiais (US$352 bilhões até a última segunda-feira, de acordo com o Banco Central) é que neste momento de turbulência nos mercados financeiros internacionais tais recursos funcionam como uma espécie de seguro. Diante das incertezas em relação ao impacto da crise do euro sobre a saúde de instituições financeiras europeias, é natural que os mercados se retraiam.
O Brasil espera mitigar os efeitos da crise internacional com o fortalecimento do seu mercado doméstico. De fato, a economia continua gerando empregos, impulsionada por investimentos, e a massa salarial tem garantido um razoável nível de consumo interno.
No entanto, as exportações no presente (e as perspectivas de vendas futuras ao exterior) são essenciais para viabilizar os investimentos em curso. Nesse caso, é importante que o fluxo de financiamentos às exportações não seja interrompido, com possibilidade de renovação, a custos aceitáveis, ao fim de cada contrato.
Na crise de 2008/9, o crédito externo de curto prazo praticamente desapareceu do mercado internacional. Naquela ocasião, o Banco Central ofereceu ao sistema financeiro brasileiro parte das reservas para que as linhas de curto prazo fossem restabelecidas, e esse mecanismos funcionou bem.
O Brasil já exporta anualmente cerca de US$250 bilhões. E os financiamentos de curto prazo (menos de um ano) em moeda estrangeira atingiram US$62 bilhões. Essa parcela da dívida externa cresceu consideravelmente nos últimos anos devido aos juros bem mais baixos no exterior em relação aos que têm vigorado no Brasil.
Mas tal quadro está mudando. Embora as linhas de financiamento de curto prazo às exportações ou ao crédito interbancário sejam consideradas seguras para os emprestadores (funcionam como uma espécie de crédito rotativo), quando as instituições financeiras se sentem fragilizadas, como agora, ocorre uma retração até mesmo nesse segmento do mercado.
Já existem alguns indícios de que esse movimento possa estar começando. Observa-se também que os financiamentos das matrizes de multinacionais às suas subsidiárias brasileiras diminuíram. Mau sinal.
As autoridade econômicas e monetárias brasileiras aprenderam a lidar com essa situação e saberão agir da forma mais adequada no momento certo. Nem por isso se justificaria uma operação semelhante à que o governo pôs em prática na crise de 2008-2009, pela qual o Tesouro Nacional emitiu títulos para aumentar a capacidade de empréstimos do BNDES. É uma transação que onera as finanças públicas (porque o Tesouro paga rendimentos mais altos que os juros cobrados pelo BNDES), e seu efeito acaba sendo permanente.
Configurada uma retração mais aguda do crédito externo, outras modalidades podem ser acionadas internamente sem sacrificar o Tesouro. A acumulação de reservas pelo Banco Central também tem um custo fiscal, mas o eventual uso desses recursos reverte esse desembolso para os cofres públicos, enquanto na emissão de títulos para o BNDES o ônus supera o bônus.
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