A vocação de exportador é ainda indefinida no Brasil

O Estado de S. Paulo - 04/01/2013


Os resultados do comércio exte­rior do ano encer­rado permitem um teste interes­sante sobre a sensi­bilidade, no Brasil, ante uma crise que afetou a grande maioria dos países avançados.
Como se podia imaginar, o Brasil é altamente sensível, nas suas exporta­ções, à queda de atividade nos países avançados aos quais fornece produ­tos básicos ou semimanufaturados. Com a seca nos EUA, as exportações de commodities concentraram-se em produtos de alimentação (soja e milho), enquanto as matérias-pri­mas destinadas à indústria tiveram forte redução de preços, como o alu­mínio e o minério de ferro, este acu­sando uma queda de preço de 24,9%, com grande dependência do merca­do chinês, que dita seu preço.
Os produtos semimanufaturados, normalmente destinados a países com indústria ainda incipiente, sofre­ram também com a queda da ativida­de mundial: seus preços caíram 8,3%, mais que o das commodities (- 7,4%).
Os bens de maior valor agregado, os manufaturados, perderam no ano passado o mercado norte-americano e sofreram o protecionismo da Argen­tina, uma praça importante para es­ses bens. Essas exportações soma­ram no ano passado US$ 90,7 bi­lhões. As de automóveis diminuíram 14,8%, dadas as dificuldades enfrentadas na Argentina e no México. São exportações que visam, basicamen­te, países emergentes ou subdesen­volvidos, uma vez que não se pode considerar o Brasil como uma plata­forma para a indústria de veículos, em vista dos salários pagos aqui. É possível que daqui a alguns anos nos possamos contentar em abastecer apenas o nosso próprio mercado. O grande sucesso foi na venda de aviões, com US$ 4,7 bilhões.
As importações brasileiras recua­ram 1,4%, menos do que as exporta­ções (-5,3%). E foram dominadas por matérias-primas, com participação de 44,7% do total, que parece indicar que a indústria importa parte impor­tante de componentes, o que permi­tiu reduzir em 7,8% as de bens de con­sumo duráveis. Os carros, que têm participação de 4,8% no total das im­portações, caíram 19,5%. Os bens de capital participam com 21,9% do to­tal das importações.
O Brasil está longe de ser um cen­tro produtivo mundial. É antes de tudo um exportador de commodi­ties, porém sem o poder de fixar os preços dessas exportações, que de­pendem de Bolsas de Mercadorias no exterior. Além disso, depende es­sencialmente do vasto mercado da China, que num único ano fez cair as receitas dos minérios de ferro em mais de US$ 1 bilhão.