Valor Econômico - 09/09/2011
Por Wolfgang Münchau | Financial Times
O aspecto mais perturbador da zona do euro hoje é que toda a estratégia de solução da crise depende de uma recuperação econômica moderadamente sólida. A ajuda à Grécia já enfrentava problemas ao ser aprovada, seis semanas atrás. Todas as projeções oficiais estavam erradas. O país está em depressão e a dinâmica de sua dívida está "fora de controle", diz seu conselho fiscal. Na Itália, o banco central teme que o programa de austeridade do país gere efeitos recessivos.
A estratégia de recapitalização dos bancos europeus (se se quiser chamá-la assim) também está vindo abaixo sob o peso do desaquecimento da economia. Há duas semanas houve uma discussão acalorada entre o FMI e governos da zona do euro sobre o número de bancos que precisam ser recapitalizados. O número definitivo poderá ser muito maior até do que as estimativas do FMI caso a economia mergulhe numa recessão.
O declínio começou no terceiro trimestre e parece ter ganhado impulso. Os empréstimos dos bancos ao setor privado recuam há dois meses. Uma pesquisa com gerentes de compras aponta para queda de atividade da indústria em agosto. A zona do euro pode já estar em recessão.
A primeira, segunda e terceira prioridades para as autoridades econômicas europeias deveria ser reverter o desaquecimento. Se não conseguirem fazer isso, a crise da zona do euro acabará em catástrofe, pois todos os programas de solução correrão o risco de fracassar.
Infelizmente, a política econômica está totalmente despreparada para um declínio econômico. O Banco Central Europeu (BCE) vem apertando a política monetária desde o segundo trimestre deste ano. A política fiscal está sofrendo contração, pois os governos se apressam em anunciar programas de austeridade. As autoridades da área econômica não parecem ter pressa em corrigir o problema.
A política monetária é o instrumento mais importante agora, já que o BCE tem mais espaço de manobra. As expectativas de inflação arrefeceram. O BCE não tem desculpa para não reduzir sua taxa de juros para 1%, ou talvez menos.
O diferencial entre as taxas de juros da zona do euro e dos EUA é especialmente grande quando se avança um pouco mais na curva de vencimentos. As taxas dos empréstimos de curto prazo da zona do euro são de 2,1%, contra 0,8% nos EUA. Essa é uma enorme distância, que a política monetária europeia deveria tentar reduzir. Nada disso pode deter a retração econômica por si só, mas ajudaria a contê-la.
Além disso, o BCE deveria estudar a possibilidade de agir com relação às taxas de juros de mais longo prazo. O BCE poderia transformar o SMP (seu atual programa para o mercado de valores mobiliários, concebido como instrumento anticrise), num programa de estabilidade macroeconômica. Para isso, teria de elevar significativamente a magnitude do SMP, para várias vezes os € 115 bilhões atuais. Isso ajudaria a evitar que a economia caísse numa armadilha de liquidez, uma posição em que a política monetária perde força.
O que dizer da política fiscal? O mínimo que se poderia esperar seria que a zona do euro abandonasse todos os programas de austeridade de imediato e voltasse a uma posição neutra do ponto de vista fiscal, permitindo com que os estabilizadores automáticos agissem plenamente. No momento, essa mudança não está nem mesmo na ordem do dia. Como é muito típico da zona do euro, cada país se comporta como uma pequena economia aberta isolada. Cada um pressupõe que seus atos não têm nenhum efeito sobre os outros.
Mas, quando França, Espanha e Itália contraem suas posições fiscais ao mesmo tempo, somando-se a Grécia, Portugal e Irlanda, o resultado é uma contenção fiscal coordenada da zona do euro. Embora alguns desses países enfrentem um problema fiscal, essa não é a situação da zona do euro como um todo. A relação dívida/PIB é menor que a dos EUA, Reino Unido e Japão. Se a zona do euro tivesse se constituído numa união fiscal alguns anos atrás, seu ministro da Fazenda estaria agora em condições de tomar medidas. Em vez disso, o atual sistema de políticas descoordenadas resulta numa austeridade contagiosa com um desaquecimento contagioso.
Como não há união fiscal, os países do euro não têm alternativa senão se coordenar entre si. Alemanha, Holanda e Finlândia deveriam adotar estímulos fiscais, para neutralizar a austeridade do sul. O que importa é a posição fiscal da zona do euro como um todo.
Há pouca percepção nas cacofônicas capitais da zona do euro de que uma retração da economia é uma ameaça existencial. Prevejo, assim, que o desaquecimento atingirá a zona do euro com plena força e sem encontrar defesa. Quando isso acontecer, a crise da zona do euro vai ficar feia.
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