Marcas de luxo criticam mudanças
Autor(es): Por Marli Olmos | De Detroit
Valor Econômico - 10/01/2012
Dieter Zetsche, presidente da Mercedes-Benz, diz que "não está feliz" com a alta do IPI dos carros importados, que atinge até caminhões da marca que começam a ser feitos em Juiz de Fora
O aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) nos automóveis importados, em vigor no Brasil há menos de um mês, foi definido com o apoio da maior parte das subsidiárias das montadoras no país. Mas já provoca queixas de executivos das marcas mais luxuosas no exterior. "Não estou feliz com essa proteção", diz o presidente da Mercedes-Benz, Dieter Zetsche. A BMW, principal concorrente da Mercedes, está engajada na negociação com o governo brasileiro para obter flexibilidade na nova regra em troca da promessa de construção de uma fábrica no Brasil. "Eu mesmo estou tendo discussões com ministros no Brasil e creio que chegaremos a um consenso", diz o chefe de vendas da BMW, Ian Robertson.
No caso da BMW, Robertson confirma que a empresa já decidiu construir uma fábrica no Brasil. Falta definir a localização. A empresa está em dúvida entre dois locais, segundo Robertson. O executivo evita revelar detalhes. Mas, segundo pessoas familiarizadas com as conversas que os alemães têm mantido com os governos estaduais, a dúvida está entre Santa Catarina e São Paulo.
Em dezembro, entrou em vigor o aumento de trinta pontos percentuais no IPI de veículos que não atinjam o índice de nacionalização mínimo de 65%. Robertson destaca que o conteúdo local pode ter graduações. Ele se refere à flexibilidade que vem sendo negociada com o governo por empresas que, assim como a BMW, querem construir fábricas no Brasil.
No caso da rival Mercedes-Benz, a irritação de Zetsche tem mais do que um motivo. Primeiro, o imposto mais alto vale para toda a linha de automóveis, que é totalmente importada. Além disso, a mudança tarifária atinge a fábrica de Juiz de Fora (MG), que voltou a funcionar este mês, colocando fim a uma das mais desgastantes e polêmicas histórias do setor no Brasil.
A fábrica de Juiz de Fora foi concebida para produzir automóveis em 1999. O projeto não deu certo e desde então a unidade vinha sendo mantida com soluções paliativas, sob a ameaça constante de fechamento. O esgotamento da capacidade da fábrica de São Bernardo do Campo (SP), onde são produzidos caminhões e ônibus, porém, salvou Juiz de Fora. A empresa teve a ideia de produzir dois novos caminhões na unidade mineira - o leve Accelo, para entregas urbanas e o pesado Actros.
Mas a nacionalização do Actros só poderá dar um salto significativo a partir da inauguração da cabine de pintura, prevista para o fim do ano. Até agora, o conteúdo local do veículo atinge em torno de 25%. Isso não significa que o Actros terá o IPI elevado, já que a nova regra tributária permite o cálculo pela média de todos os produtos produzidos por uma empresa (no caso de veículos fabricados, ainda que parcialmente, no país). Como o índice de nacionalização dos caminhões Mercedes é elevado em praticamente toda a linha, o Actros escapou da sobretaxa. "No caso do Actros, estamos num momento de transição", destaca Zetsche.
Os planos da BMW de produzir automóveis no Brasil não são motivo, segundo Zetsche, para estimular a Mercedes a pensar na ideia de retomar o projeto que foi abandonado com o fracasso da produção do compacto Classe A, em 2005. O mercado brasileiro cresceu muito desde então. Mas, para Zetsche, não adianta fazer planos de produção de veículos na faixa de preços da linha Mercedes-Benz no Brasil.
Esse mercado, chamado premium, atinge no Brasil volume anual em torno de 30 mil veículos, o que representa menos de 1% do mercado total. Mas, há esperanças. Como o mercado de luxo está crescendo no mundo, puxado principalmente pela China e por países desenvolvidos livres de crise, a escala de produção está aumentando. Ao mesmo tempo, empresas como a Mercedes começam a oferecer modelos em faixas de preços mais baixas. "O ideal é quando conseguimos fazer com que os extremos dessa pirâmide se aproximem. Ou seja, quando o consumo por carros mais luxuosos aumenta ao mesmo tempo em que podemos oferecer versões de faixas de preços mais baixas", destaca Zetsche.
Os fabricantes de carros de luxo registraram resultados melhores do que a média de toda a indústria em 2011. "Foi o mais bem sucedido para a BMW", diz Robertson, ao comentar os 13% de crescimento de vendas da marca em todo o mundo. No caso dos Estados Unidos, a vantagem da BMW em relação à Mercedes foi de apenas 2 mil veículos. Zetsche diz, no entanto, que a Mercedes não está preocupada com a liderança. "Não é nosso foco correr atrás apenas de volume para competir".
A repórter viajou a convite da Anfavea
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