Empresas brasileiras devem adiar captações de recursos no exterior

Autor(es): Agência o globo: Fabiana Ribeiro
O Globo - 16/03/2011

Com o clima de incertezas na economia mundial, em decorrência da tragédia no Japão e também da crise em países árabes, empresas brasileiras podem adiar seus planos de captar recursos no exterior. O que seria, de acordo com analistas, um efeito da crescente aversão ao risco financeiro nos mercados.

- O grande impacto agora é no fluxo de capitais, mesmo porque a relação comercial entre Brasil e Japão nem é das mais próximas. Mas empresas brasileiras podem adiar captações e investimentos lá fora - comentou Eduardo Velho, economista-chefe da Prosper Corretora, acrescentando que o cenário internacional pode fazer o câmbio subir no Brasil. - Com isso, medidas de ajuste fiscal também podem ser adiadas.
Em 2010, o Japão, décimo maior investidor no Brasil, investiu US$3,3 bilhões no país - 60% desse montante destinados para a indústria.

- Por causa de investimentos urgentes nas matrizes japonesas, recursos para o Brasil devem ser menores - prevê Luís Afonso Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), ressaltando que uma retração no mercado de capitais traz reflexos nas contas externas do Brasil.

Várias empresas brasileiras - de diferentes setores da economia - têm parceiros japoneses. Na Marítima Seguros, cujo sócio japonês detém 50% da companhia, a tragédia não alterou a estratégia de crescimento da empresa. Também não preveem alterações Usiminas, Vale e Semp Toshiba.

- O Japão deve intensificar seus investimentos em outras regiões. Já se comenta, por exemplo, que os investidores japoneses da Usiminas (Nippon Steel, com 27% de participação) vão concentrar sua produção de minério no Brasil - afirmou Velho.

Brasil não deve ficar sem peças para montadoras

Antônio Correa de Lacerda, professor da PUC-SP, discorda do economista:

- Podemos esquecer investimentos japoneses por ora - disse o professor, que prevê uma redução na inflação mundial por causa da retração no preço das commodities. - As medidas do governo para segurar a atividade devem olhar para frente e não mais para o passado. O quadro mudou, e a recuperação da economia mundial deve ser mais lenta.

Apesar das paradas na produção de montadoras no Japão, fontes ligadas ao Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos (Sindipeças) dizem que o Brasil não deve ficar desguarnecido de componentes porque o Japão tem plantas industriais pela Ásia. A Honda afirmou que o brasileiro não será afetado porque boa parte da produção de carros e motos é feita nacionalmente.

Contudo, analistas preveem alta nos preços de componentes tecnológicos, como chips de computador e painéis de cristal líquido (LCD). As cotações de chips subiram até 5% ontem, depois de um salto de 20% na segunda-feira. A consultoria IHS iSuppli afirmou que, em consequência do terremoto, pode haver escassez significativa de certos componentes eletrônicos e fortes aumentos de preços.

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