Autor(es): Raquel Landim
O Estado de S. Paulo - 21/03/2011
Gary Locke, secretário de Comércio dos EUA, disse que a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2016, não dá a Pequim o direito de descumprir as regras da entidade. A seguir, a continuação da entrevista:
O Brasil cresceu 7,5% no ano passado. As empresas americanas podem aumentar suas exportações para o Brasil?
Estamos muito contentes com o rápido crescimento da economia brasileira. Há muitas oportunidades para aumentar o comércio bilateral, não apenas exportações dos EUA para o Brasil, mas também mais investimentos de empresas brasileiras e até exportações de produtos e serviços brasileiros nos EUA. É incrível o progresso do governo brasileiro, em que dezenas de milhares de pessoas saíram da pobreza para a classe média. E ocorrerá a Copa do Mundo em 2014 e a Olimpíada em 2016. Como o presidente Obama indicou, a hora do Brasil chegou. Podemos ajudar na infraestrutura.
Nos EUA, empresários e parlamentares criticam a política comercial de Obama por causa da demora em fechar os acordos de livre comércio.
É preciso entender que há poucas barreiras para empresas de outros países exportarem para os EUA. Mas as barreiras para as companhias americanas são muito altas. Não estamos começando no mesmo patamar. Os EUA são um dos países mais abertos do mundo. Se vão baixar mais as suas barreiras para os produtos coreanos, por exemplo, temos de ter certeza que a Coreia também vai reduzir significativamente as barreiras para deixar a situação mais ou menos equilibrada.
O presidente Obama disse no sábado que os EUA querem ser um dos maiores compradores de petróleo do pré-sal do Brasil. Mas como isso vai ocorrer? Os chineses, por exemplo, concederam um empréstimo de US$ 10 bilhões à Petrobrás...
Obviamente, isso está aberto à discussão, mas os EUA podem ajudar. Quando o Brasil começar a vender esses recursos, desejamos ser um cliente próximo, com vantagens como vender e embarcar rapidamente. A exploração de petróleo no Brasil é bem-vinda e queremos ser um cliente muito forte, se não formos o primeiro.
O Brasil está preocupado com o atraso na abertura do mercado americano para a carne bovina brasileira - como está previsto no acordo do algodão. Por que isso está ocorrendo?
O Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de carne bovina de alta qualidade. Essas discussões estão sendo encaminhadas pelo Departamento de Agricultura e pelo USTR (Escritório Comercial dos EUA). Mas queremos comprar a carne brasileira. Da mesma maneira que resolvemos o acordo do algodão, vamos conseguir resolver também essa questão.
O Congresso renovou a tarifa de importação contra o etanol brasileiro. No Brasil, cresce a percepção que Obama não está comprometido com a derrubada dessa barreira.
Nós sabemos que é muito importante promover os biocombustíveis. Um dos acordos assinados pelos dois presidentes é sobre isso. A administração Obama dá prioridade ao desenvolvimento de uma política energética para os EUA, que está parada no Congresso. Quando conseguirmos isso, poderemos incrementar a promoção de todos os biocombustíveis, o que será benéfico para os produtores nos EUA e no Brasil.
O sr. foi nomeado embaixador dos EUA na China. Em alguns anos, a China será reconhecida como economia de mercado, o que tornará mais difícil aplicar tarifas antidumping. Como EUA e Brasil devem se preparar?
Ainda não fui confirmado pelo Senado como embaixador na China. Estou ocupado com as minhas tarefas de secretário de Comércio. A China representa grandes oportunidades para os EUA e para o Brasil. Na verdade, o Brasil tem um superávit com a China, enquanto os EUA têm déficit. Em 2016, de acordo com os termos de sua entrada na Organização Mundial de Comércio (OMC), a China vai ser reconhecida como economia de mercado, mas terá de continuar seguindo as regras, sem praticar dumping ou subsidiar suas indústrias. Se outros países perceberem que a China não está agindo apropriadamente, ainda terão a autoridade legal e os mecanismos de reclamar. Como economia de mercado, a China não terá licença para não seguir as regras da OMC.
Amanhã (hoje) o sr. tem encontros na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e na Amcham (Câmara Americana de Comércio). Qual é a sua mensagem?
Estamos muito animados com o crescimento da economia brasileira e queremos ser parte dessa prosperidade. Com o presidente Obama disse, os EUA não veem o Brasil como um parceiro "júnior", mas como igual. É por isso que o presidente veio poucos meses depois de a presidente Dilma Rousseff assumir. É um gesto de respeito e reconhecimento. Buscamos benefícios mútuos, que criem empregos em ambos os países.
QUEM É
Descendente de chineses, foi governador do Estado de Washington. Ocupa hoje o cargo de secretário de Comércio. Em março, foi indicado como o próximo embaixador dos EUA na China.
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