Eduardo Campos
Valor Econômico - 18/03/2011
Um episódio ocorrido no mercado de câmbio ilustra bem o quão elevado está o nível de estresse e desconfiança.
Um equívoco do próprio mercado na leitura de um "pisca" em um monitor de notícias resultou em uma correria há tempos não vista, que levou o preço do dólar a subir mais de 1%, tanto no à vista quanto no futuro, em poucos minutos.
A notícia em questão falava em "aumento de tributos entra em vigor em 60 dias". A reação imediata foi relacionar os "tributos" ao mercado de câmbio e o resultado foi uma disparada nas ordens de compra.
Acontece que os "tributos" em questão estavam relacionados ao mercado de bebidas, que, de fato, pagará mais impostos.
Completando o quadro, os agentes também viram outro "pisca" anunciando um leilão de swap cambial reverso. No entanto, não tinha operação alguma anunciada pelo Banco Central (BC), que fez apenas uma compra à vista no fim da tarde.
Acreditem ou não, esse episódio correu as mesas aqui no Brasil e no exterior.
O fato é que, se o momento fosse outro, certamente os agentes não sairiam atirando com tamanha veemência antes de esclarecer de que tributos se tratavam.
A questão é que, desde o dia 4 de março, o mercado de câmbio opera com "uma espada" sobre a cabeça: a nova rodada de medidas cambiais. Que o governo acena estrar preparando, mas não anuncia ou engaveta.
Ao atuar dessa forma o governo prejudica o mercado e a si próprio.
Esses episódios de histeria promovem uma desnecessária transferência de renda, pois muitos agentes são arrastados por essas disparadas de preço. Quem foi pego no pé contrário, ou seja, estava vendido, certamente passou um calor danado para zerar posições e conter prejuízos.
O governo perde também, pois ao lançar expectativas e não confirmar, já de largada suas eventuais medidas perderão poder. Sem falar que os "parceiros", aqueles que acreditam na palavra do governo, vão se cansando e deixam de apoiar qualquer iniciativa.
Em meio à correria surge, também, a desconfiança. Ouvia-se pelas mesas: "tem alguém armando alguma coisa".
De volta ao câmbio, as compras recuaram depois desse episódio grotesco, que aconteceu ao redor da 15 horas, mas o viés tomador prevaleceu até o fim do dia, ao menos no mercado à vista.
O dólar comercial fechou com alta de 0,71%, a R$ 1,686 na venda, maior preço em dois meses e uma das maiores cotações do ano.
Dando sustentação às compras estavam indicações de que um fundo estrangeiro especializado em operação de alta frequência estaria zerando posições. Também foi detectada remessa de dólares de uma grande empresa de papel e celulose.
Essa "conversa de mesa" ganha respaldo em dois fatores. Primeiro, o elevado volume no interbancário, que passou dos US$ 4,2 bilhões. Segundo, as corretoras mais ativas no mercado futuro foram aquelas que tradicionalmente representam investidores estrangeiros.
No mercado futuro, onde os negócios ocorrem até às 18 horas, o dólar para abril praticamente zerou os ganhos do dia e apontava leve alta de 0,14%, a R$ 1,685, depois de subir a R$ 1,70.
O mercado à vista não acompanhou essa desinflação de preço, pois fecha ao redor das 16 horas. Portanto, é possível que o dólar comercial abra em baixa ajustando preço com o futuro.
De volta ao quadro geral, por mais que os rumores continuem, a percepção é de que esse não é momento para mudanças de regra no câmbio. A incerteza externa é muito grande e no caso de uma deterioração ainda maior de cenário, o país poderia sofrer com a fuga de recursos para o exterior.
De fato, o aumento da volatilidade decorrente dessa incerteza externa já joga a favor do governo. Quanto mais errático o mercado, menos confortável para os investidores apostarem na valorização do real.
No fim das contas prevalece a dúvida: "é tudo marola ou vem mesmo alguma coisa por ai?"
Eduardo Campos é repórter
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