Com Obama, Brasil espera nova relação comercial com os EUA

"Estamos em outro patamar e sabemos que eles têm muitos interesses aqui"
Autor(es): Vivian Oswald
O Globo - 20/03/2011

BRASÍLIA. A passagem do presidente Barack Obama pelo Brasil deve lançar as bases para um novo relacionamento comercial entre os dois países. Ao GLOBO, o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Alessandro Teixeira, disse que foi a primeira vez que os comandos de Brasil e Estados Unidos se encontraram "olho no olho".

- Estamos em outro patamar e sabemos que eles têm muitos interesses no Brasil, sobretudo no que diz respeito à Copa, aos jogos olímpicos e ao pré-sal. Queremos saber o que vão nos oferecer em troca - disse.
Teixeira afirmou que a agenda entre os dois países é muito positiva e pouco complicada, apesar de certas dificuldades de acesso de produtos brasileiros ao mercado americano. A ideia, segundo ele, é dar início a um trabalho de parceria entre os dois países.

- Queremos auxílio para chegar ao mercado deles, assim como nós demos para eles chegarem ao nosso - disse.

O Brasil teve no ano passado o maior déficit de todos os tempos com os Estados Unidos. É também seu principal déficit comercial com outros países. Saiu de um resultado positivo de US$9,9 bilhões em 2006 para um déficit de US$7,73 bilhões no ano passado.

Se a passagem de Obama pelo Brasil será rápida, a expectativa das centenas de empresários que estão se mobilizando em função da visita é que os investimentos negociados nos próximos dias venham para ficar. Empresas e o próprio governo brasileiro querem garantir que os Estados Unidos se mantenham no topo da lista dos principais investidores estrangeiros no chamado setor produtivo da economia, a despeito do avanço, a passos largos, dos investimentos chineses. Os setores de energias renováveis, telecomunicações e pré-sal estão no radar dos empresários.

Parceiros de longa data do Brasil, os EUA são o maiores investidores do país, depois de Luxemburgo, Países Baixos e Suíça - considerados como intermediários para aplicações de outros países. Os americanos trouxeram para o Brasil US$6,2 bilhões em 2010, ou 11,8% do total de recursos estrangeiros que ingressaram no país no período. Em janeiro deste ano, já foram US$369 milhões ou 13,9% do total.

O presidente da Sobeet, Luis Afonso Lima, afirmou que os investimentos americanos são aplicados no setor produtivo em áreas de alto valor agregado e trariam mais benefícios ao país do que os chineses, por exemplo. Ele destacou que, embora os recursos de ambos os países sejam saudáveis para o Brasil fechar suas contas externas, os investimentos americanos, por se tratarem de dinheiro colocado em setores como serviços, agropecuária e industrial, têm mais resultado em termos de ampliação de plantas e aumento da oferta ao mercado consumidor. Com isso, ajudam a reduzir a inflação. Além disso, segundo Lima, esses recursos também vêm acompanhados de inovação para a indústria.

Já recursos chineses, segundo ele, são destinados, sobretudo, ao setor de commodities - produção e extração de minérios metálicos, químicos e petroquímicos -, não agregam valor e tampouco vêm com inovação.

- Os chineses têm mais a aprender com o Brasil do que nós com eles em muitos casos, como extração de petróleo em águas profundas - disse Lima. - Os investimentos chineses não são substitutos perfeitos dos americanos. Os Estados Unidos têm muito a oferecer e são parceiros de décadas.

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